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Saúde

Como o sangue dos infetados pode ajudar a salvar vidas

À falta de um medicamento ou de uma vacina, os médicos viram-se para uma alternativa que foi bem-sucedida noutros casos.

Em 1934, um jovem norte-americano começou a apresentar sintomas de sarampo, que à época matava anualmente centenas de pessoas no país. Sem qualquer vacina, os responsáveis confinaram o rapaz numa enfermaria, para prevenir a disseminação da doeça altamente infeciosa. Tarde demais.

Vários colegas começaram a apresentar sintomas e um dos médicos responsáveis decidiu agir: colheu sangue do primeiro paciente e fez uma transfusão para os outros 28 colegas que ainda não tinham sintomas. Nenhum adoeceu e o surto ficou por ali.

Este é um dos exemplos mais bem-sucedidos do uso de plasma convalescente, isto é, do sangue de pacientes recuperados que combateram a doença e geraram anticorpos. Retirados os glóbulos vermelhos, resta este plasma carregado de armas para lutar contra a infeção vírica. É a nova aposta dos médicos na luta contra o novo coronavírus.

A estratégia que começou a ser experimentada na China, durante as primeiras semanas depois do surgimento do surto da Covid-19, está a juntar centenas de médicos e investigadores nos hospitais de Nova Iorque — o estado norte-americano mais afetado pela pandemia — e no serviço nacional de saúde britânico.

A abordagem nem sequer é nova no que toca aos coronavírus. Chegou mesmo a ser usada para travar as epidemias dos outros vírus da família da Covid-19, casos da MERS e da SARS. Mas o primeiro registo de um estudo sobre esta terapia leva-nos a 1918, precisamente o ano da pandemia da gripe espanhola.

Esta terapia chegou ser usada para travar as epidemias dos outros vírus da família da Covid-19, casos da MERS e da SARS

Funciona um pouco como uma vacina, na medida em que os anticorpos gerados pelo sistema imunitário de um paciente, poderão ser imediatamente injetados noutro paciente que não teve ainda qualquer contacto com a doença. São estes anticorpos, especialmente desenhados para combater o vírus, que poderão ser essenciais na luta contra a doença.

Outra das vantagens é que todo este plasma está imediatamente disponível, situação que não acontece com alguns medicamentos ou com as vacinas, que só poderão começar a ser implementadas dentro de um ano a ano e meio. Em ambos os casos, a sua eficácia contra o SARS-CoV-2 está por verificar.

No estado de Nova Iorque, o governador Andrew Cuomo já deu autorização para que esta terapia seja usada nos hospitais, dado que todo o sangue seja previamente analisado para que não sejam transmitidas outras doenças ou infeções.

O objetivo não é apenas o de ajudar os mais debilitados, com sintomas mais graves, a combater a Covid-19. Numa fase seguinte, os médicos querem também distribuir este plasma pelos profissionais de saúde, de forma a que tenham mais uma forma de defesa para prevenir infeções ou sintomas.

E será que funciona?

“É necessário fazer os ensaios clínicos, caso contrário não saberemos se esta terapia é eficaz. Pode não ser a nossa bala de prata, mas pode funcionar, eventualmente, para abrandar a infeção de Covid-19 nos contactos entre profissionais de saúde e familiares, mesmo que seja menos eficaz no tratamento de pacientes muito doentes”, revela ao “The Guardian” David Tappin, investigador na Universidade de Glasgow.

Nem todos os estudos têm sido conclusivos, embora alguns revelem bons resultados. Foi o caso de um estudo clínico com 80 pacientes, realizado durante o surto da SARS, que revelou que os imunizados tinham maior probabilidade de recuperar e receber alta do hospital do que os restantes que não receberam o plasma com anticorpos. A terapia também demonstrou resultados em alguns pacientes com Ébola, aplicada em diferentes surtos em África.

Os primeiros estudos dirigidos à luta contra o novo coronavírus foram iniciados na China em fevereiro. Sem tempo para apresentar conclusões definitivas, os indícios são prometedores. Um dos estudos, feito na Universidade de Zhejian, revelou, nos resultados preliminares, que 13 pacientes graves foram tratados com plasma de sobreviventes e, dentro de poucos dias, não havia sinal do vírus no seu sangue. O problema é que os sintomas continuaram a agravar-se, o que poderá significar que o seu estado de saúde estava já demasiado comprometido para que a terapia fosse eficaz.

Também por isso, os norte-americanos pretendem usar a terapia nos pacientes em fases mais iniciais da doença, até para que possam perceber em que casos é que os sintomas continuam a agravar. E o futuro está já ai: se os testes forem bem-sucedidos, não faltam empresas de biotecnologia a tentar identificar e isolar anticorpos, para depois serem usados em terapias, medicamentos e vacinas. Ainda assim, todo esse processo leva o seu tempo.

Arturo Casadevall, especialista em doenças infeciosas no Hospital Johns Hopkins, acredita que esta solução possa ser mais eficaz quando usada em fases mais iniciais da doença, antes que o vírus provoque danos mais graves — e que, potencialmente, este plasma convalescente possa mesmo proteger os imunizados durante várias semanas.

“Se olharmos para a história, há uma boa hipótese de que tudo isto funcione. Mas é um vírus novo e com vírus novos, não sabemos nada até sabermos. Os chineses têm usado esta estratégia e têm revelado bons resultados, mas tudo precisa de ser testado. Isto não é uma cura milagrosa; é algo que estamos a tentar implementar para ver se conseguimos estancar a epidemia”.