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Saúde

Quando é que chega finalmente uma vacina para a Covid-19? Vai demorar

A investigação é mais rápida do que nunca e traz vacinas inovadores. Mas os fundos, os longos testes e a segurança são entraves.
Vamos ter que esperar

Chamavam-lhe a peste vermelha e durante muitos séculos devastou e aterrorizou sociedades e comunidades por todo o mundo. Altamente contagiosa, desfigurava doentes e provocava a morte a 30% dos infetados. Os vestígios das primeiras vítimas remontam aos tempos dos faraós egípcios, mas uma campanha de vacinação da Organização Mundial de Saúde iniciada em 1959 e reforçada em 1967, permitiu combater a doença. A vacina foi tremendamente eficaz e em 1978, a britânica Janet Parker tornou-se na última vítima registada da doença. Em 1980, declarou-se erradicada a varíola.

Este não e o único e estrondoso caso de sucesso de uma vacina, com casos bem-sucedidos registados no combate de doenças como o sarampo, tétano ou poliomielite. Este registo pode muito bem ser o horizonte de esperança para um mundo que se debate com um novo vírus, o Sars-CoV-2, que provoca a Covid-19.

Nunca a humanidade esteve tão bem preparada para lidar com uma pandemia e existem atualmente novas tecnologias que podem ajudar a criar vacinas de diferentes tipos — e possivelmente mais eficazes no combate à doença. O problema? A rápida disseminação da Covid-19 torna uma vacina numa solução inviável a curto prazo e, portanto, a contenção e controlo da propagação torna-se na única e mais eficaz arma que temos para a combater já.

Ciência a alta velocidade

Ao fim de poucas semanas do surgimento do surto, o genoma do vírus já tinha sido analisado por cientistas chineses, que rapidamente o fizeram chegar aos colegas de todo o mundo. Estava dado o primeiro passo do processo que pode dar origem a uma vacina eficaz ou a um medicamento que consiga combater a doença.

O facto de se tratar de um coronavírus — a configuração do vírus que dá origem à Covid-19 é praticamente igual à da SARS, sendo que os vírus receberam nomes semelhantes, Sars-CoV-1 e Sars-CoV-2 — dá também uma vantagem aos investigadores.

Um dos problemas que atrasa o desenvolvimento das vacinas é o financiamento, normalmente escasso quando as doenças e os surtos se espalham apenas em pequenas regiões ou países em desenvolvimento. Com a disseminação global da Covid-19 e o impacto nas economias mundiais, é contudo provável que esses fundos sejam angariados.

O CEPI, uma parceria público-privada que atribui bolsas para desenvolvimento de vacinas, pediu esta terça-feira dois mil milhões de euros, o valor estimado necessário para avançar o mais rapidamente possível no desenvolvimento.

Desde o surgimento do novo coronavírus, o final de 2019, várias dezenas de laboratórios e empresas anunciaram estar ativamente a trabalhar numa vacina, alguns com resultados bastante avançados e já em fase de preparação dos testes em humanos.

Além das vacinas, estão a ser testadas novas drogas que podem combater o vírus, usadas em doenças como a SARS ou o HIV

É o caso da norte-americana Inovio Pharmaceuticals, que já possuía uma vacina para a MERS; do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, há vários anos a estudar a preparação contra os coronavírus, que está a produzir uma vacina numa fase ainda mais avançada; e da alemã CureVac ou a Janssen da Johnson & Johnson’s.

Além das vacinas, estão a ser testadas novas drogas que podem combater o vírus — e até se recorre a drogas eficazes contra outras doenças, como a SARS ou o HIV. Essencialmente, esta poderá ser uma solução a curto prazo, sejam elas antivirais ou potenciadoras do sistema imunitário. É preciso, no entanto, que se prove que são um tratamento eficaz contra a Covid-19. Se assim for, a sua aplicação pode ser imediata.

Que vacinas estão a ser preparadas?

O princípio de uma vacina é simples: colocam no nosso sistema uma amostra da doença, já completamente inerte e desativada ou numa dose tão baixa que se torna inofensiva, de forma a que o nosso corpo crie e ative defesas naturais contra a doença, que depois serão usadas em caso de infeção.

A abordagem tradicional não é a única a ser testada. Atualmente, há novas e eficazes técnicas para combate.

A Novavax, por exemplo, está atualmente a desenvolver uma vacina com base na extração do código genético do espigão do vírus — isto é, a parte do vírus que lhe permite invadir as células humana.

Algumas das novas vacinas usam técnicas inovadoras

Por que demoram tanto tempo?

Quase todos os laboratórios apontam para o mesmo prazo: 12 a 18 meses até que seja possível obter uma vacina capaz de ser distribuída comercialmente. Uma meta demasiado longínqua, dada a rapidez de disseminação da Covid-19.

A verdade é que, segundo alguns especialistas, hoje poderíamos ter uma espécie de vacina muito próxima da que seria necessária. O surgimento da SARS deu também início a uma corrida à vacina. Só que oito meses e mais de oito mil casos depois, o vírus subitamente desapareceu de circulação — o que levou ao abrandamento e eventualmente à paragem dos trabalhos na produção de uma vacina eficaz.

Perante o cenário atual, partindo do princípio que os fundos necessários são angariados e que os laboratórios completam uma ou mais vacinas, têm forçosamente que percorrer todo o processo de experimentação que garanta que ela é segura — e que não poderá ter o efeito contrário ao pretendido.

“É preciso ter fortes provas de que as vacinas experimentais previnem a infeção, ainda que signifique esperar semanas ou meses”

Em 1966, foi testada um nova vacina que combatia o vírus sincicial respiratório (VSR). Os testes falharam redondamente e acabaram por potenciar os sintomas da doença, que resultou na morte de duas crianças a quem foi administrada a vacina. Episódios como este sublinham a importância de uma fase de testes bem executada, para evitar que a solução se torne em mais um problema para resolver.

Shibo Jiang, especialista no desenvolvimento de vacinas e de tratamentos para coronavírus, explica que antes de avançar para uma vacina em humanos, “é preciso avaliar a segurança em várias estirpes e em mais do que um animal”, explica na revista “Nature”. “É também preciso ter fortes provas de que as vacinas experimentais previnem a infeção, ainda que isso signifique esperar semanas ou meses para que esses modelos fiquem disponíveis.” E conclui: “isso é tempo bem gasto”.

Com muitas das vacinas experimentais a entrarem já na fase dos testes clínicos em humanos, Jiang mostra-se preocupado. “Temo que isto signifique que sejam administradas antes de que a sua eficácia e segurança sejam completamente avaliadas em experiências animais”.

Estes testes clínicos são normalmente divididos em três fases: a primeira é realizada num pequeno grupo de voluntários saudáveis para testar a segurança da vacina; a segunda que aplica a vacina em centenas de voluntários infetados; e a terceira limita-se a aumentar a amostra de participantes.

Algumas agências afirmam que os riscos de atrasar irremediavelmente a produção de uma vacina são muito maiores do que os riscos de provocar a doença nas cobaias saudáveis.

Ainda assim, mesmo recorrendo a todos os atalhos, dificilmente veremos uma vacina eficaz contra a Covid-19 durante 2020.