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Saúde

Pedimos a um médico para analisar a polémica série de Gwyneth Paltrow

André Casado, especialista de medicina interna e intensiva no Hospital da Luz de Lisboa, viu os seis episódios de “The Goop Lab”.
É uma série polémica e que está a alertar os especialistas de saúde.

A Netflix é famosa por realizar documentários de propaganda a “realidades alternativas” em saúde, onde se lança o pânico face a todas-as-coisas-não-vegetais. Depois do sucesso de “The Game Changers”, a produção em que se propagandeiam as maravilhas do estilo de vida vegan na performance atlética (spoiler: não tem vantagem) e de “What the Health”, onde os alimentos de origem animal são demonizados (spoiler: não são assim tão maus), aguardava-se com ansiedade a nova aventura New Age da produtora.

Como era previsível, e até esperado, a colaboração com gurus do wellness-natural-ecofriendly acaba de juntar a rainha-de-todas-as-coisas-naturais ao pay-per-view-do-pânico. O resultado é “The Goop Lab”, o novo empreendimento da Netflix com Gwyneth Paltrow (GP, como é conhecida entre amigos) como anfitriã, que estreou a 24 de janeiro.

“O que é a Goop?”, perguntam os felizes ignorantes da cultura New Age. Trata-se da empresa criada por GP para promover estilos de vida naturais, anti-aging, wellness, mindfull e tudo o que combate as angústias existenciais de uma classe média/alta americana, privilegiada e sugestionável com bastantes dólares para desperdiçar em “curas alternativas”. 

A face mais visível da Goop é o blogue gerido pela própria Gwyneth Paltrow e que oferece informação sobre as mais modernas práticas meditativas na prevenção da doença, dietas de rejuvenescimento, detox para todo o órgão do corpo humano e conselhos de saúde — apesar de o staff permanente não contar com qualquer médico. 

O verdadeiro negócio é, no entanto, a venda de merchandising. Desde os famosos ovos de jade para usar na vagina, às velas “Isto Cheira como a Minha Vagina” (spoiler: cheiram a gerânio e limão) e mini-saias de mais de dois mil euros, entre centenas de outros produtos que o levam viver a vida ao máximo. 

Com este portfólio de bondade, todos esperávamos que a série “The Goop Lab” trouxesse novidades estrondosas para o bem-estar da Humanidade. Afinal, em cada um dos seis episódios, o staff da Goop sujeitou-se a seis experiências transformadoras, propostas por outros tantos gurus New Age, para trazer a última novidade em cura e reconexão a uma vida natural. O resultado, devo dizer, é um pouco menos impressionante do que a promessa: um filme comercial de três horas a promover a Goop, assim como a sua filosofia e produtos associados. Resumindo, diria que a melhor frase para esta série é: “Acredite quem quiser, fuja quem puder!”

Leia a minha análise aos seis episódios da série polémica da Netflix, que está a ser acusada de ser um perigo de saúde pública.

Episódio 1: “The Healing Trip” (a viagem curativa, em português)

Começamos em grande. O staff da Goop vai à Jamaica para uma experiência terapêutica com cogumelos psicadélicos. A premissa é a de que existem efeitos terapêuticos potencialmente gigantescos nas drogas psicadélicas que nos estão a ser sonegados pela indústria dos psicofármacos e pelos governos que as mantêm ilegais. Neste episódio, a equipa toma umas infusões de cogumelos alucinogénios e consegue, numa trip guiada por especialistas vagamente hippies, resolver os seus maiores traumas. Ficamos a saber que todos carregamos imensos traumas que nos atrofiam a vida quotidiana, ainda que não o saibamos. Como um dos especialistas convidados afirma: “Em anos de prática (de psicologia) nunca encontrei ninguém saudável”.

Numa nota mais séria, devo dizer que a leviandade com que ali se aborda o tema dos psicotrópicos é assustadora. Depois de meia hora de choradeira curativa (há muito choro em todos os episódios do “The Goop Lab”) e louvores às benesses dos psicotrópicos, ficamos com a impressão de que há todos os benefícios e nenhum risco no uso de LSD, psilocibina e MDMA (denominada popularmente como Ecstasy).

É muito provável que estes fármacos alucinogénicos tenham potencial benefício na saúde mental humana. Depois de décadas de má fama causadas pelos abusos recreativos do psicodelismo nos anos 60 e 70, alguma investigação de relevo tem sido levada a cabo desde o início dos anos 90. Doenças como a depressão, estados de ansiedade, stress pós-traumático e perturbação obsessiva-compulsiva, são alvos interessantes para substâncias com estas características farmacológicas. 

Sucede que ainda sabemos muitíssimo pouco acerca da sua utilidade terapêutica. Falta definir que doses são eficazes, quais as doses seguras, qual a incidência de efeitos secundários (quadros psicóticos não são raros) e quais os doentes que mais podem beneficiar — os mais graves e resistentes à terapêutica convencional? Ou os mais ligeiros e virgens de terapêutica? A investigação disponível é escassa e de baixa qualidade, embora com resultados promissores. A maior parte dos estudos em humanos envolve escassas dezenas de voluntários, com elevada incidência de consumo prévio de psicadélicos e com elevada expectativa de resultados (o que aumenta o benefício auto-reportado). Segundo os maiores peritos médicos na área, serão necessários anos para que a terapêutica com psicadélicos possa ser devidamente validada para uso corrente. Ir atrás da Goop, neste caso e noutros, pode ser uma bad trip.

Atentas e intrigadas.

Episódio 2: “Cold Comfort” (frio saudável)

A história de Wim Hof é a clássica do guru moderno. Perdeu a mulher de forma trágica e teve de criar sozinho quatro filhos. Salvou-se espiritualmente com meditação e exercícios respiratórios que adaptou da cultura Tummo tibetana. Tornou-se famoso pela elevada tolerância ao frio, fazendo proezas para o Guinness Book, como correr maratonas descalço no gelo e mergulhar em água gelada. E, então, resolveu montar um negócio. O “método Wim Hof” promete transformar, com meia dúzia de treinos, qualquer pessoa num super-herói resistente ao frio. Contudo, como ficar pelo frio parece pouco, Wim também promete melhorias da imunidade, curas psicológicas e “reconexão à natureza”, usando uma mistura de vocabulário pseudocientífico e espiritualidades genéricas. 

Os voluntários Goop submetem-se a um treino de dois dias em busca da promessa de robustecimento do sistema imunitário, controlo das funções biológicas, reconexão à natureza e – como esperado – resolução de traumas. Ao que parece, alguns minutos de hiperventilação, além de soltarem a habitual lágrima do staff da Goop, preparam o indivíduo para uma espécie de ioga da neve, ao qual se chama a “posição do cavalo” – passo intermédio para um mergulho em água gelada. No segundo dia de treino há um mergulho de dois minutos em água a três graus. Acompanhado, claro, de mais choro. Todos passam com distinção o teste de transformação espiritual.

Haverá algum racional científico para esta prática? Ou é sofrimento que apenas melhora a auto-confiança do praticante? Valerá a pena arriscar a paragem cardíaca por choque térmico para melhorar a imunidade? A auto-promoção de Wim Hof já o levou a um teste clínico em voluntários que demonstrou os efeitos da hiperventilação na resposta a um estímulo inflamatório.  Resumindo as conclusões, os voluntários treinados por Hof em hiperventilação meditativa toleraram melhor a provocação inflamatória com uma toxina bacteriana do que o grupo de controlo não treinado. Porém, o efeito pode ser atribuído à hiperventilação sem qualquer distinção para a de Hof ou de outra qualquer. Bem desenhado, esse estudo teria permitido ao grupo de controlo hiperventilar (não foi o caso) e o grupo de teste deveria ter sido testado sem hiperventilação (e não foi). Suspeito que, nessas condições, as diferenças entre “treinados” por Hof e “não treinados” desapareceria. 

A hiperventilação de Hof também aumenta a geração de calor e alcaliniza temporariamente o sangue, o que facilita a tolerância ao exercício no frio. Não é, pois, a meditação nem a “posição do cavalo” que evitam que Hof bata o dente. É a exploração de fenómenos fisiológicos bem conhecidos e que se obtêm, provavelmente, sem a ajuda de um guru, já que estão em todos nós. E será que curam doenças? Bem, disso não temos a mínima prova. 

Uma imagem deste episódio.

Episódio 3: “The Pleasure Is Ours” (o nosso prazer)

O terceiro episódio, aquele em que surge a guru do orgasmo feminino (Betty Dodson), não levanta grande polémica. Já foi repetido vezes sem conta em inúmeras reportagens e a abordagem da série “The Goop Lab” não traz nada de novo.