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Saúde

Os ovos aumentam mesmo o risco de doenças cardíacas e o colesterol? Não é bem assim

Um estudo recente afirmou que sim e lançou o pânico. Mas os dados são pouco consistentes.
Leia com atenção.

Durante muitos anos, os ovos foram considerados vilões por aumentarem o risco de colesterol e de doenças cardíacas. Depois, vários estudos acabaram com esta ideia e ainda revelaram que a ingestão moderada deste alimento podia trazer benefícios em termos nutricionais. Mais recentemente, a 15 de março, uma outra investigação voltou a dizer que o consumo de ovos era um perigo. Afinal, qual é a teoria em que devemos acreditar?

estudo da Universidade de Northwestern, nos Estados Unidos da América (EUA), publicado no jornal “JAMA” — aquele que veio lançar o pânico relativamente ao consumo de ovos —, diz que os adultos que ingerem mais ovos (logo, mais colesterol) correm um risco significativamente maior de sofrer uma doença cardiovascular.

“A mensagem a reter é realmente sobre o colesterol, que acontece ser rico nos ovos, especialmente nas gemas”, explicou Norrina Allen, professora de medicina preventiva da Faculdade de Medicina Feinberg, da Universidade Northwestern, e uma das autoras do artigo.

Para chegar a estas conclusões, os investigadores analisaram cerca de 30 mil adultos americanos durante 31 anos. Mas isto pode não querer dizer nada. É que, ao longo desse período, os participantes foram questionados apenas uma vez sobre os seus hábitos alimentares.

“São dados que não traduzem necessariamente a alimentação ao longo do tempo, já que muitos dos indivíduos podem ter mudado os seus padrões alimentares e influenciado os resultados finais”, alerta à NiT a nutricionista Bárbara de Almeida Araújo.

O jornal “El País” refere exatamente o mesmo e dá outro exemplo: imagine que as pessoas que tomam banho antes de um exame tiram melhores notas. O culpa é do banho? Desta forma, a conclusão seria que tomar banho faz com que se saia melhor nos exames. No entanto, antes de fazer esta associação, é importante colocar outra hipótese sobre a mesa: talvez esse grupo de pessoas seja mais cuidadoso e estude mais.

No novo estudo, os próprios investigadores põem esta questão em causa, embora a maioria dos meios de comunicação a tenha ignorado.

“Temos uma única informação de como era o padrão alimentar de cada pessoa. Mas achamos que ela representa uma estimativa da ingestão alimentar de uma pessoa. Ainda assim, as pessoas podem ter mudado a sua dieta e não podemos explicar isso”, destaca a investigadora Norrina Allen.

Portanto, este é um forte indicador de que não podemos basear a nossa opinião apenas nesta nova teoria, segundo declarações do médico Robert H. Eckel ao “El País”.

As quantidades diárias de ovo

De acordo com o mesmo estudo, ingerir 300 miligramas de colesterol por dia — o limite recomendado pela American Heart Associaton — foi associado a um risco 17 por cento maior de doença cardiovascular incidente e a um risco 18 por cento maior de mortes por todas as causas. O colesterol foi o fator determinante, independentemente do consumo de gordura saturada e outras gorduras na dieta.

Comer três a quatro ovos por semana também foi associado a um risco seis por cento maior de doença cardiovascular e a um risco oito por cento maior de qualquer causa de morte.

“Estas associações tornaram-se não significativas após o ajuste para consumo de ovos e carne vermelha. Na população dos Estados Unidos, os ovos e carnes contribuem com 25 e 42 por cento do colesterol total da dieta, respetivamente”, explica à NiT a nutricionista.

O estudo não distingue a forma como os ovos são consumidos.