NiTfm live

Saúde

Tudo o que precisa de saber sobre as polémicas máscaras de proteção

A OMS e a DGS continuam a não recomendar o uso alargado do equipamento, mas há vários dados de discórdia que deve ter em conta.
As autoridades de saúde internacionais discordam.

Este domingo, 5 de abril, a ministra da Sáude anunciou em entrevista à “RTP” que a Direção-Geral da Saúde (DGS) está a equacionar um uso mais generalizado das máscaras para evitar a propagação da Covid-19. Apesar do uso deste equipamento de segurança individual ser alvo de alguma discórdia, os principais argumentos contra apontam para um receio de que as populações “baixem a guarda” e acabem por correr outros riscos de contágio.

Segundo Marta Temido, a posição da DGS mantém-se inalterada, mas a verdade é que a generalização das máscaras permitiria “que algumas coisas que não temos estado a fazer, em termos de contacto social, em termos de utilização de certos serviços, possam recuperar algum enquadramento”.

Até que sejam impostas novas medidas ou recomendações, o contexto em Portugal mantém-se o mesmo: não é necessário usar máscara em locais públicos e é importante saber que há medidas mais eficazes para travar a propagação da pandemia, mas todos aqueles que escolham usá-las podem fazê-lo. No entanto, há várias coisas que deve saber sobre o equipamento para que possa usá-lo em segurança.

As recomendações da OMS

A Organização Mundial da Saúde (OMS) continua a insitir que apenas as pessoas infetadas com o novo coronavírus as deverão usar, mas há países onde o uso do equipamento foi imposto em locais públicos.

Alguns dos argumentos principais das organizações são de que o uso de máscara pode dar uma falsa sensação de segurança e levar a que as populações tenham menos cuidado e acabem por acreditar que, por estarem protegidas, não precisam de cumprir as outras medidas, como respeitar o distanciamento social, lavar as mãos e ficar em casa, sendo esta última, na realidade, aquela que se tem mostrado mais eficaz a travar o vírus.

Mike Ryan, diretor do programa de emergência da OMS, voltou a insistir na semana passada que “não há provas de que o uso em massa de máscaras pela população tenha algum benefício”. No entanto, as autoridades de Saúde de vários países parecem discordar: Áustria, Eslováquia, Japão e República Checa são exemplos dos locais em que o uso de máscara nos espaços públicos é mesmo obrigatório.

Esta segunda-feira, 6 de abril, a OMS voltou a recomendar o seu uso apenas para grupos específicos: doentes infetados, pessoas com sintomas, cuidadores e profissionais de saúde. “Não existe, até ao momento, evidência científica de que usar uma máscara por pessoas saudáveis possa impedir a infecção por vírus respiratórios, incluindo pela Covid-19”.

No entanto, isto pode estar prestes a mudar: segundo um estudo norte-americano divulgado a 2 de abril, o vírus pode viajar através da tosse uma distância de seis metros. No caso dos espirros, pode chegar mesmo até aos oito. Estes resultados levaram mesmo a que a OMS tenha informado que poderia reavaliar as recomendações sobre o seu uso.

A falta de stock

No final de março, Graça Freitas afirmou em conferência de imprensa que a DGS não ensina os portugueses a usarem máscaras e luvas, porque estes equipamentos não estão disponíveis para toda a população. A diretora-geral da Saúde chegou mesmo a admitir que, existindo material para todos e seguindo medidas pedagógicas, esta poderia “ser considerada uma medida útil”.

O problema é que o stock disponível não chega para toda a população portuguesa, uma vez que não existe “material de proteção para dez milhões de pessoas, todos os dias, várias vezes ao dia, utilizados corretamente”. Assim, a posição da autoridade pretende também proteger “cuidadores, profissionais de saúde, bombeiros e as pessoas que prestam serviços a outros e que podem estar infetados” — essencialmente, todos aqueles que trabalham na linha da frente e a quem o equipamento não pode mesmo faltar.

Se todos comprassem máscaras, deixaria de existir stock suficiente para quem mais precisa delas. Na conferência de imprensa de 20 de março, Graça Freitas insistiu que a principal medida para travar o surto continua a ser “o isolamento e o distanciamento social, muito mais do que as máscaras”, as quais podem dar “um efeito demasiado tranquilizador”.

As vantagens das máscaras

Os argumentos a favor do material apontam para uma contradição principal na posição tomada pelas autoridades: apesar do seu uso ser recomendado para os pacientes infetados, também se sabe que há casos assintomáticos, em que as pessoas têm o vírus e não revelam quaisquer sintomas, acabando por contaminar os outros sem o saber.

Segundo o diretor do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças do governo dos Estados Unidos, Robert Redfield, até 25 por cento das pessoas infetadas podem não revelar quaisquer sintomas, além de existirem indícios de que os sintomas poderão demorar cerca de duas semanas a revelarem-se — e este é apontado como um dos principais fatores de propagação do vírus. Por não saberem que estão infetadas, as pessoas acabam por propagar o vírus “silenciosamente”.

Sabendo que até um quarto da população pode estar infetada com a Covid-19 e não sentir sintomas, além das limitações sistemáticas da realização generalizada de testes para o controlar, torna-se óbvia a principal contradição: se apenas os infetados devem usar máscara para protegerem os outros e se é certo que muitas pessoas não foram testar a presença do vírus por não terem sintomas, não seria mais seguro todos usarem o equipamento?

O objetivo fundamental das máscaras é impedir que as gotículas saiam das vias respiratórias e se espalhem no ar ou atinjam os outros — por mais que a sua eficácia seja questionável, a verdade é que o seu uso por parte de um potencial infetado pode proteger as pessoas saudáveis ao colocar uma barreira física que impede que estas partículas se alastrem.

As máscaras caseiras são eficazes?

A Associação Médica Alemã foi das primeiras a sugerir que os cidadãos usassem máscaras de tecido, feitas em casa, para quando saíssem a locais públicos, deixando assim os materiais médicos para os profissionais de saúde e todos os outros que trabalham na linha da frente, resolvendo assim o problema de falta de stock.

Também nos Estados Unidos as recomendações agora são essas — há muitos estados no país onde se recomenda que a população recorra a alternativas caseiras para tapar o nariz e a boca. Apesar de a sua eficácia não ser a mesma que a de um equipamento profissional, há algumas instruções que se pode seguir para fazer uma máscara em casa e criar, assim, uma barreira protetora entre as vias respiratórias e o mundo exterior.

Nas últimas semanas, foram muitas as pessoas que decidiram partilhar nas redes sociais tutoriais onde mostram como fazer uma alternativa caseira no caso de vir a precisar do material e não o encontrar à venda — ou preferir deixá-lo para quem realmente precisa.

A portuguesa Lurdes Sousa é um exemplo de alguém que utilizou o Facebook para divulgar as máscaras caseiras. Depois de encontrar o equipamento descartável vendido em packs de três por 10€, ficou indignada com a situação e decidiu informar-se com uma médica sobre a melhor maneira de fazer as suas próprias máscaras de tecido em casa.

As instruções são simples: é importante que assuma a forma de um bico de pato, para que não haja folgas à volta da cara; mas também colocar por dentro algum tipo de material impermeável como, por exemplo, um penso higiénico, filtro de café, saco de aspirador ou guardanapo, substituindo-o a cada quatro horas de uso.

Depois de a usar, deve colocar a máscara de tecido a lavar e seguir todas as recomendações de segurança que teria com uma máscara médica.

Como colocar e descartar a máscara

No caso de ter acesso a máscaras cirúrgicas, as direções da Organização Mundial da Saúde indicam que, em caso de precisar de a usar, há várias normas que deve seguir para o fazer em segurança. Antes de colocar o equipamento, deve desinfetar as mãos com uma solução hidroalcoólica ou lavar bem com água e sabão. 

De seguida, cubra o nariz e a boca com o material e certifique-se de que não há quaisquer aberturas entre a sua cara e a máscara. É muito importante evitar tocar-lhe enquanto a usa — se o fizer, volte a limpar as mãos com gel desinfetante ou a lavá-las com água.

Assim que terminar o uso, é importante deitá-la fora e não voltar a usar, especialmente se se tratar de uma máscara descartável.

Para a remover em segurança, retire-a por trás, tentando apenas tocar nos elásticos: não toque a parte da frente. Deposite-a num caixote do lixo com tampa e lave as mãos com água e sabão ou gel desinfetante, sem nunca tocar na cara antes de o fazer.

As máscaras mais (e menos) eficazes

Segundo uma tabela divulgada pela organização farmacêutica Varsoy Health Care, os vários tipos de máscaras no mercado têm diferentes níveis de eficácia. O equipamento mais eficaz é o do tipo N95, com uma proteção de 95 por cento contra o vírus e de 100 por cento nos outros indicadores avaliados — bactérias, poeira e pólen. Seguem-se as máscaras cirúrgicas e as FFP1.

De seguida, estão as de carbono ativo (apenas 10 por cento de eficácia contra o vírus), as de tecido (quando não lhes é colocada uma proteção impermeável, como recomendado) e, em último lugar, estão as de esponja. Esta tabela é uma referência útil para compreender todos os tipos de material disponíveis no mercado e a sua eficácia na proteção contra a Covid-19.

Ainda assim, é importante reforçar que o uso de máscara deve sempre vir acompanhado de todos os cuidados recomendados pelas autoridades. Lave as mãos frequentemente, evite tocar na cara, mantenha-se em casa e, acima de tudo, respeite o distanciamento social.