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Saúde

Habituou-se a estar em casa e custa-lhe voltar à normalidade? Não é o único

A NiT falou com uma psicóloga para tentar perceber como o lar passou de prisão à zona de conforto da qual não se quer sair.
Muitos deixam o teletrabalho.

Vivemos tempos de exceção em todo o mundo, devido à pandemia do novo coronavírus. Uma grande parte dos portugueses permaneceu em casa durante o período do estado de emergência — que durou 45 dias — e entrou em regime de lay-off, ou em teletrabalho. 

Os miúdos deixaram de ir à escola, as visitas nos lares terminaram, e a dinâmica das famílias alterou-se. Para uns, a adaptação foi mais fácil e mais rápida, mas certamente ninguém ficou indiferente à situação que se vive ainda atualmente.

Com a economia a retomar o seu curso habitual, nas últimas duas semanas, e com muitos empregadores a pôr fim ao teletrabalho no mês de junho, vários portugueses preparam-se para retomar as suas rotinas diárias, que o novo coronavírus roubou por dois meses.

Várias são as publicações que se podem ver nas redes sociais que abordam um fenómeno considerado pelos próprios autores, como estranho. O confinamento, que ao início aparentava ser o pior cenário nunca imaginado, tornou-se agora o dia a dia, transformando o lar na zona de conforto da qual não querem sair.

“Ficar em casa permitiu a muitas pessoas evitar deslocações, transformando em tempo útil, aquele que passariam nos transportes. Assim, para alguns de nós, não é difícil encontrar uma ou várias razões para permanecer em casa, sentindo que esta nova rotina nos faz sentido, sendo por isso compreensível que muitas pessoas possam ter dificuldade em regressar aos hábitos antigos”, explica à NiT Mara Chora, mestre em Psicologia Comunitária e Proteção de Crianças e Jovens, a exercer funções numa Instituição Particular de Solidariedade Social.

De acordo com a especialista, este foi um “grande e repentino processo de mudança” que alterou rotinas, afastou famílias e amigos, impossibilitou muitas atividades e viagens. Porém, não terão sido apenas estas alterações que poderão ter levado a um aumento dos níveis de stress, também o “motivo que nos levou ao confinamento, tornou-se gerador de stress para muitas pessoas”.

Não existe uma regra universal, e cada indivíduo arranja mecanismos de adaptação diferentes. Houve quem optasse pela “dedicação a atividades prazerosas como a leitura, a prática desportiva ou tocar um instrumento musical, por conversar com outras pessoas sobre aquilo que estão a sentir, no sentido de encontrar alguma identificação, ou por procurar ajuda profissional. De uma forma menos adaptativa, temos, ainda, as pessoas que consomem mais tabaco ou álcool que o habitual”.

Mas porque é que muitos de nós não querem agora sair de casa? “Ora, se passamos a estar mais tempo em casa, necessariamente, este será́ o local que iremos adaptar e moldar às nossas necessidades atuais e a uma nova rotina que acaba por se criar.”

Várias famílias tiveram oportunidade de se aproximar ainda mais, realizar programas em conjunto, “fomentando as suas relações”. Vários são os testemunhos de pessoas que aproveitaram o isolamento social para se dedicarem a hobbies para os quais normalmente não tinham tempo, explorar a culinária, ler os livros ou ver as séries que tinham em atraso, investir em cursos online, ou praticar mais exercício físico.

Em situações onde a ansiedade, o medo, a frustração, a tristeza ou a incerteza imperam, são estas mesmas atividades que se tornam importantes para cuidar da nossa saúde mental.

Por outro lado, “o facto de as famílias permanecerem juntas durante um longo período de tempo, poderá́ gerar mais conflitos interpessoais, havendo a necessidade de realizar uma maior gestão ao nível da comunicação e do espaço pessoal de cada elemento. Num outro prisma, temos as famílias unitárias, de pessoas que vivem sozinhas, e que também encontram dificuldades como, por exemplo, não poderem receber ou fazer visitas, podendo sentir-se mais sós e desacompanhadas”, destaca a psicóloga quando questionada sobre os principais desafios do confinamento.

O medo é também uma das grandes razões que levam à vontade de permanecer em casa. Para alguns, sair apenas para o estritamente necessário confere “uma maior sensação de controlo, tendo em conta que sabem exatamente quem frequenta o seu espaço, têm um maior poder de previsibilidade relativamente aos seus contactos e sabem que as medidas de higiene foram adequadas. Esta eventual perda de controlo, na hora de sair de casa e ter de frequentar locais públicos, pode ser gerador de sentimentos de insegurança ou ansiedade”.

“Contudo, em algum momento, teremos de regressar a uma rotina que implique mais deslocações e contactos pessoais. Para que esta transição não motive situações ansiogénicas de maior gravidade, as pessoas deverão começar a pensar de que forma poderão geri-las e acautelá-las, mesmo que para isso tenham de recorrer a ajuda profissional”, explica a especialista.

Para Mara Chora, “a situação atual tornará algumas pessoas mais resilientes, dando-lhes ferramentas para lidar com eventos futuros”.