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opinião

“Estou a viver um episódio de ‘Black Mirror’ em Londres”

O cronista da NiT passou uma semana de cama com todos os sintomas de coronavírus, mas não lhe fizeram o teste.
O futuro é uma incógnita em Londres.

Sou fã da série “Black Mirror”. Um dos meus filmes favoritos é o “The Quiet Earth”— onde (quase) toda a população do mundo desaparece repentinamente — e adoro o “The Dead Flag Blues”, dos Godspeed You! Black Emperor — a representação mais poética do apocalipse que já ouvi (“the sky was beautiful on fire, all twisted metal stretching upwards”). Acho que perceberam a ideia: eu tenho um gosto mórbido por fantasias de cenários apocalípticos. Só nunca pensei estar a viver um episódio assim em Londres de 2020.

Nesta cidade nada se fecha. O governo de Boris Johnson acredita na teoria da imunidade de grupo (herd immunity), em que 60% a 70% da população é infetada com o vírus com o objetivo de proteger a faixa etária mais vulnerável da sociedade. Os fundamentos desta teoria são, em linhas gerais: forçar os maiores de 70 anos a quarentena obrigatória no domicílio; deixar o resto da população exposto ao vírus e criar-lhes barreiras no Serviço Nacional de Saúde, recebendo apenas os casos mais severos e de maior risco; depois de os tais 70% apanharem o vírus (dentro de 4 meses), com a imunidade de grupo instalada, os idosos já podem sair da sua quarentena em segurança.

Esta teoria é extremamente arriscada na perspetiva da saúde pública, mas (convenientemente) a mais segura face aos efeitos catastróficos que este vírus pode causar na economia. Os riscos são muitos e começam logo na impossibilidade de escolher quem apanha o vírus, face à sua enorme transmissibilidade. Também há os casos de risco na população abaixo dos 70, nomeadamente os asmáticos (como eu), que ficam expostos à inevitabilidade de apanharem o vírus.

Eu que acabei de sair de uma gripe super agressiva que me deixou uma semana de cama e que não sei se foi o Covid-19 porque, imaginem, não fui testado. Quando informei o médico e as linhas de apoio dos meus sintomas, só me perguntaram se tinha saído do país. Como não saí, então não houve teste para ninguém. E aí está a outra maneira de o governo aqui manter o número de casos baixo — não realizar testes. Se não há um teste positivo, não há um caso de Corona. Simples.

É brincar com o fogo. Noutras alturas, com outros vírus, talvez a teoria da imunidade de grupo resultasse. Mas estamos em 2020. Por muito que o Boris gostasse, o Reino Unido não é um sistema fechado. Há sempre gente a entrar e a sair e informação a circular. Todos estamos ligados à Internet e sabemos o que se passa lá fora, quais os riscos que corremos. Estamos com medo.

Ir ao supermercado este fim de semana foi dar de caras com um cenário dantesco. Não era só a falta de papel higiénico (ainda estou para perceber a lógica de levar 4 volumes de 36 rolos de papel). No Sainsbury’s também não havia arroz, nem massa; não havia atum, salsichas, nem a maioria dos enlatados; não havia batatas, nem cenouras, nem cebolas. Senti-me num episódio de “Black Mirror”. É fixe, mas preferia ver a sexta temporada na televisão.

Com o país aberto e ainda a todo o gás, contra a lógica do momento, amanhã vou trabalhar. Com um commute de uma hora de tube, onde é bar aberto para os germes e ladies night para os vírus. Estou assustado, obviamente.