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Saúde

“Trabalhamos com medo todos os dias, mas não baixamos os braços”

Chama-se Ana, é enfermeira e lida diariamente com doentes infetados com a Covid-19. A NiT falou com ela.
Ana é enfermeira há sete anos e este tem sido o maior desafio da sua carreira.

Ana recorda o dia em que um doente, já com alguma idade, foi à unidade hospitalar em que trabalha. Dirigiu-se diretamente à urgência, acompanhado de um familiar, e fez a triagem. Perguntaram-lhe se tinha viajado nos últimos 14 dias ou estado em contacto com infetados por Covid-19. Respondeu que não a ambas as coisas. Aguardou na sala da urgência, juntamente com outros doentes, mantendo contacto com profissionais de saúde. Poucas horas depois, testou positivo ao novo coronavírus. Foi a partir desse momento que Ana passou a trabalhar com medo todos os dias.

Antes desse episódio, existia receio, mas não era uma realidade. A enfermeira, que trabalha num hospital de Lisboa e Vale do Tejo, conta numa entrevista à NiT que, inicialmente, pensou que a doença não iria afetar Portugal.

“Comecei por achar que seria possível controlar até chegar até cá. Quando foram confirmados casos na Europa, percebi que não, embora tivesse demorado algum tempo a chegar ao nosso País. O maior erro que cometemos foi não fechar logo fronteiras. Tivemos dois meses de avanço para preparar e deixou-se chegar pessoas de sítios com casos, como Itália e Espanha”.

Os primeiros infetados em Portugal foram confirmados a 2 de março. Nessa altura, os profissionais de saúde usavam o equipamento de proteção normal. Ana apenas reforçou, por iniciativa própria, assim como os restantes colegas, a higienização das mãos — uma das fontes de propagação do novo coronavírus.

“Parece um bicho fantasma. E isso é o pior de tudo: lidar com uma coisa desconhecida”

“Naquele momento, o Equipamento de Proteção Individual, o EPI, só era usado em procedimentos mais invasivos. Não estávamos preparados para a chegada de uma doença como esta, nem tínhamos tanto material como agora. Com o alarmismo, houve também uma corrida geral ao gel desifentante e às máscaras, o que não ajudou”, recorda.

Nos primeiros dias de março, decidiram manter o distanciamento o mais possível, lavar mais as mãos e ter especial cuidado com os sítios onde tocavam. Nessa fase começaram, também, a usar máscaras cirúrgicas — pouco ou nada resistentes à Covid-19.

“Quando o novo coronavírus chegou ao País, ainda antes de ser declarado estado de emergência, já evitávamos o contacto social. Lembro-me que houve ali duas semanas em que dizia: ‘Portugal tem de parar, se não a contaminação será grande, e corremos o risco de ficar na mesma situação de Itália e Espanha’.”

O momento em que o medo passou a fazer parte do dia a dia

Vamos voltar à história do doente que chegou à urgência do hospital sem saber que estava infetado com o novo coronavírus. Dada a ausência desse dado, foi triado normalmente, para o balcão geral, e ficou no meio dos restantes doentes. Enquanto estava na urgência, recebeu um telefonema que deixou toda a gente alerta: recentemente, tinha visitado uma pessoa com Covid-19 positivo.

Ana conta à NiT que, automaticamente, o utente foi isolado e foi realizado o teste de despiste, que deu positivo. Os profissionais de saúde que estiveram em contacto com o doente ficaram de quarentena e as pessoas que estavam na mesma sala foram identificadas. Felizmente, ninguém foi infetado. No entanto, esse episódio marcou o dia em que o medo passou a fazer parte da rotina desta profissional de saúde, assim como dos seus colegas. 

“Ia trabalhar com medo que qualquer pessoa pudesse ser Covid positiva e não soubesse, ficando também eu infetada. Os testes não são automáticos, demoram algum tempo — alguns até demoram 48 horas. Além dos sintomas levarem tempo a surgir, naquela altura, para se fazer o teste era preciso ligar para a Linha SNS 24 e falar com um delegado de saúde. Era muito complicada essa gestão”, revela.

Após esse episódio, Ana e os restantes colegas daquele hospital passaram a usar máscaras cirúrgicas na rotina hospitalar. Quando houve uma divisão das urgências — com uma sala para infetados ou suspeitos de infeção — é que tiveram acesso às FFP2 (proteção contra aerossóis), que usam para métodos invasivos em contacto com os doentes de Covid-19 positivos, como recolhas de sangue e utilização de zaragatoas.

“Questionamos tudo, se o puxador da porta foi limpo corretamente e até se respirar o mesmo ar que os doentes não nos contamina”

Embora tenha acesso a material, a enfermeira diz que é bastante racionado. As máscaras cirúrgicas, que são usadas apenas para circulação nos corredores do hospital, duram até quatro horas — antes disso, se ficarem molhadas ou húmidas, também deixam de ter o devido efeito. Já as FFP2 duram entre seis a oito horas — têm direito a uma por turno, sendo que sempre que fazem intervenções invasivas a infetados devem trocar logo mudar de máscara. 

“Em termos de profissionais de saúde, desde enfermeiros a auxiliares, sei que temos mais de uma dezena de pessoas infetadas nos pisos. Houve mais gente que fez testes nos últimos dias, mas ainda não se sabem os resultados”.

Inicialmente, os doentes que chegavam à unidade em que trabalha eram encaminhados para o Hospital Curry Cabral, Lisboa. “Mas, agora, já não têm vagas. Ficam aqui internados”, acrescentando que tem neste momento utentes suspeitos que aguardam resultados laboratoriais, e que tem recebido pessoas de todas as idades.

“Sempre que estão confirmados, sobem para o piso de pneumologia. Na semana passada, sei que tínhamos casos confirmados e outros suspeitos”, revela. Além dos doentes que surgiram com sintomas, conta que houve pessoas internadas que já contraíram a infeção no hospital.

“Parece um bicho fantasma. E isso é o pior de tudo: lidar com uma coisa desconhecida. Sentimo-nos impotentes.”

O material tem de ser bastante racionalizado.

Os momentos mais emocionantes que já viveu com doentes Covid-19

“Aquele primeiro caso no hospital marcou-me e deixou-me com medo. Acho que é aquele que destaco como o pior momento. Sabia que tinha de ir trabalhar e dar o corpo às balas, mas o medo que surgiu depois disso foi muito grande, uma vez que lidamos com os outros doentes e até mesmo profissionais constantemente”, conta.

Ana recorda com especial emoção o caso de uma doente com a infeção a quem teve de prestar cuidados. Uma senhora que, além de não estar bem, estava muito ansiosa.

“Tinha o filho em casa e ninguém para cuidar dele. Quando lhe disse que tinha de ficar internada, ela desatou a chorar e eu própria tive de gerir as minhas emoções, ser mesmo muito forte, e tentar acalmá-la, sem saber o que lhe ia acontecer futuramente”, recorda.

“O hospital é uma mina de contágio”

Com a necessidade de manter a distância, o toque com que normalmente reconfortam os doentes, antes da chegada desta pandemia, não é possível. 

“Tem de haver distanciamento e máximo de cuidado ao entrar na sala, assim como em tudo o que tocamos. Questionamos tudo, se o puxador da porta foi limpo corretamente e até se respirar o mesmo ar que os doentes não nos contamina.”

A enfermeira conta à NiT mais um momento que relembra com felicidade: recentemente, aquele doente que lhes apareceu nas urgências, tendo sido o primeiro caso Covid positivo com que estiveram em contacto, foi para a enfermaria e já não precisa de ventilador, após vários dias ventilado no Curry Cabral. “Ficámos todos super contentes ao receber esta notícia”, diz.

A necessidade (e a dor) de estar afastada da família

A partir do momento em que a Covid-19 chegou a Portugal, a profissional de saúde deixou logo de sair com os amigos. Quando considerou que o risco tinha aumentado, também deixou de estar com a família.

“Já são alguns dias separados. Tenho uma pessoa idosa na minha família, que tem mais de 90 anos, em casa, e neste período já teve algumas doenças em que era eu que dava apoio.  Agora tem de ser via videochamada, dando algum tipo de orientação à minha mãe para o fazer. O que me deixa com medo é que se ela precisar de alguma coisa urgente, eu não posso lá ir ter com ela”, desabafa.

Nas duas primeiras semanas de março, Ana ia ter com a família mas já evitava o toque e mantinha algum distanciamento. Depois, deixou mesmo de ir.

“Sempre que ia lá despedia-me a dizer: ‘Não sei se é a última vez que vos vou ver e não sei quando voltarei’. E a verdade é essa, que não sabemos quanto tempo esta situação vai durar. Poder ser mais uma semana, duas semanas, dois meses. O mais difícil é não podermos estar com os nossos.”

O apelo a todos os portugueses

Segundo esta enfermeira, que já está na profissão há sete anos, uma das coisas que toda a gente deve ter noção é que “o hospital é uma mina de contágio”. 

“Todas as pessoas podem ser suspeitas e o facto de irem ao hospital apenas fazer um teste, porque têm sintomas ligeiros, não vai ajudar nada. Podem ir e dar negativo, mas contrariem a infeção lá. “

O medo é natural, garante, sobretudo quando surge algum sintoma, seja uma tosse ou dor de garganta. “É importante que nos sintomas ligeiros a pessoa possa ficar em casa, em vez de ir ao centro de saúde. Ficar em casa, tomando Benuron em caso de febre ou dores, assegurando a hidratação e fazendo uma alimentação com muitas frutas e legumes, é o melhor para combater o vírus”, diz Ana.

Em caso de sintomas, ou sem sintomatologia tendo estado com alguém com Covid-19, a enfermeira diz que deve haver isolamento social mesmo dentro de casa: distanciamento, usar talheres e utensílios próprios, com uma boa limpeza posterior, e ter cuidado com os equipamentos que usa em casa; limpar maçanetas; desinfetar a casa de banho depois de usar ou ficar com uma se houver duas casas de banho; manter-se no quarto e evitar passar tempo nas outras divisões. “Se os sintomas piorarem, a pessoa deve contactar a Linha SNS 24 ou ligar para o centro de saúde da sua zona de residência”, acrescenta.

“Todos temos de ter calma, manter a esperança e ter a noção de que a única forma de não nos contaminarmos é ficar em casa. O meu apelo é este: não sabemos se o vírus pode estar à porta da nossa casa. Portanto, vamos evitar sair ao máximo. Este tem sido o maior desafio pelo qual já passei. Os outros problemas, à partida, conhecemos e sabemos como lidar, este não. Temos medo, mas baixar os braços está fora de questão. Estamos na linha da frente para o que der e vier.”