Saúde

Ele cria posts virais para a Control — e sabe tudo sobre sexo

Rui Simas fez filmes pornográficos, foi dono de um clube erótico e é o sex coach que quer ajudar os portugueses a serem felizes.
Ele tem resposta para todos os fetiches.

Quando o crocodilo gigante do Douro se transformou numa inofensiva lontra, a equipa criativa da Bang Bang Agency apresentou-se ao serviço para tentar criar um post viral. Mais um. Rui Simas, criativo a cargo da Control há cerca de um ano, é o homem que escreve e imagina muitos dos posts que correm as redes sociais.

Aos 39 anos, o casamento com a empresa de preservativos parece ter sido feito no céu. É que Rui não é um criativo comum. Formado em design da comunicação, interrompeu a carreira na publicidade em 2009, para aceitar o cargo de diretor do canal pornográfico Hot Gold, ele que já tinha trocado os sites obscuros da Internet pelos livros científicos sobre sexualidade.

Foi a oportunidade certa para perceber que queria ir mais longe. Ir além do sexo explícito e perceber que desejos e fetiches esconde a nossa mente. O que é que nos excita. Formou-se em saúde sexual, área em que fez uma pós-graduação, e juntou-lhes um curso de coaching. Mas foi na direção de um clube erótico onde aprendeu muito sobre os desejos dos portugueses.

Hoje, usa os conhecimentos para tentar despertar a atenção dos potenciais clientes da Control — e para responder às perguntas de todos os que se sentem inseguros na sua sexualidade. E pela frente surge um novo desafio: fazer uma longa metragem. Está para breve.

Como é que cria uma publicação viral?
Os posts que têm mais sucesso são os que são criados em cima de um acontecimento. Estamos atentos à atualidade e esperamos que as coisas caiam na altura certa.

Esta da lontra e do crocodilo, foi obra sua?
Esta por acaso não. Surgiu numa conversa entre a equipa da agência. Foi uma coisa um bocado óbvia e depois chegamos à canção do Marco Paulo.

Não estavas à espera, pois não?#vaificartudobem

Publicado por Control Portugal em Terça-feira, 9 de junho de 2020

Qual é a parte mais difícil do processo?
Encontrar alguma coisa que tenha humor, que é a nossa linguagem desde que pegámos na Control há dois anos. Usamos a vertente do humor com atualidade e tentamos falar de coisas que sejam comuns à vida das pessoas — e que promovam a sexualidade positiva.

Não é só um criativo. É sex coach e até já produziu filmes pornográficos. Isso ajuda-no neste trabalho?
Faz todo o sentido para mim trabalhar esta marca. Dedico-me também à área do erotismo e da sexologia, que é uma mais-valia para mim e para o cliente.

E já sabiam que o Rui era um especialista em sexo?
Não. Foi uma casualidade gira.

Como é que um criativo vai parar à direção de um canal pornográfico?
Formei-me em design da comunicação e criei uma agência com colegas. Um deles tornou-se diretor da empresa Hot Gold e convidou-me para ser diretor de programação, porque já nessa altura adorava estudar e debater a sexualidade.

Interessa-me o porquê dos desejos, porque é que as pessoas gostam de determinada coisa, os desejos, os fetiches, as fantasias

E como é que a curiosidade adolescente se transforma num interesse mais académico?
Acho que teve a ver com a forma como fui educado neste campo. Nunca fui ostracizado, era algo que abordava com os meus amigos, a minha família, nunca escondi nada. E hoje não tenho problemas em dar entrevistas, em falar sobre sexo com quem quer que seja. A minha perspetiva é abrangente, descomprometida e muito curiosa. É a curiosidade que me move.

Mas qual foi o o ponto de viragem?
O primeiro livro que li e que me despertou para todo um universo que desconhecia foi o “Fantasias Eróticas: Segredos das Mulheres Portuguesas”, onde a autora relata os resultados de um questionário feito a mulheres dos 18 aos 80 anos, onde descreviam as suas fantasias e o que elas as faziam sentir. Abriu todo um espetro de imaginários e fantasias que estão fechadas na sociedade portuguesa, que me fizeram pensar que poderia contribuir para que essas pessoas pudessem ver os seus desejos representados num filme, num livro…

A palavra certa faz toda a diferença. #ficaemcasa #vaificartudobem

Publicado por Control Portugal em Quinta-feira, 23 de abril de 2020

E foi fazer filmes pornográficos, que não são conhecidos pelo seu realismo. Como é que se passa disso para um estudo científico da coisa?
Queria conseguir descobrir o que é erótico e o que é pornográfico. Este último é muito fácil: são coisas pragmáticas, muito explícitas, é muito fácil ir por aí. Os filmes pornográficos são como os filmes de ação, são um ficcionamento da realidade. Apesar de ter trabalhado muito tempo nessa área, por curiosidade, descobri muita coisa que para mim não fazia sentido. Criar uma cena em que a única preocupação é se o sexo vai ser bem feito, por quanto tempo ou em que posições, não é isso que me interessa na sexualidade. Interessa-me o porquê dos desejos, porque é que as pessoas gostam de determinada coisa, os desejos, os fetiches, as fantasias. Só assim é possível criar histórias eróticas, criar um enredo que mexe com algo mais íntimo do que apenas a sexualidade genital.

Como é que correu a experiência como produtor de filmes porno?
Queríamos profissionalizar o mercado nacional, que era muito amador. Uma das coisas que fizemos foi recusar pessoas que vinham fazer aquilo só por dinheiro. Para isso podiam fazer em casa. Queríamos pessoas com vontade profissional para lá do dinheiro. Quando o foco é o dinheiro, não há relações, não há bom ambiente. Os homens têm que ter uma ereção e não conseguem, têm que tomar coisas, é uma grande confusão. Tivemos, por exemplo, a sorte de apanhar a Érica Fontes [atriz pornográfica portuguesa conhecida internacionalmente] que queria ser estrela pornográfica e não apenas atriz. Consegui compreender o que leva uma pessoa a fazer uma coisa e outra, perceber que quem faz esses filmes vêm de todos os estratos sociais e não das casas de strip. Havia pessoas de todas as faixas etárias e sociais.

Não sei se me orgulho de alguma história porno escrita por mim

Qual é a história que escreveu de que mais se orgulha?
(gargalhada) Não sei se me orgulho de alguma.

Mas as pessoas gostavam?
Aquilo foi na altura dos DVD e vendemos imensos. Fazíamos produções só à pala da venda de DVD.

Então e qual foi o best seller?
Entre o “Mangalhos Com Açúcar” e o “Arquiteto Tavares”, a gozar com o Taveira… Também houve um sobre a Troika que teve algum impacto.

Acabou por sair. Porquê?
Percebi que não havia mais por onde evoluir. Nem conseguíamos encontrar um realizador para um filme, ninguém queria dar a cara. E eu senti que o que me interessava era contar histórias onde as pessoas sintam prazer e o erotismo, não apenas fazer a papinha toda. Quero dar mais visões daquilo que é a sexualidade, ao contrário de pensar se é só feito com duas o três pessoas, se é por trás ou pela frente.

O irrealismo da pornografia não faz bem à sexualidade e a educação?
Mais ou menos. Essa é uma visão um bocado datada. A pornografia hoje tem milhões de fórmulas. Os jovens hoje em dia já não encontram as quatro cassetes dos pais, mas sim milhares de possibilidades, com o lado bom e o lado mau. Têm acesso a muita informação que, para quem está a começar, pode baralhar um bocado sobre o que é ou não real.

Nos filmes portugueses só há sexo quando há violações ou alguém está loucamente apaixonado e rebenta a pessoa. O sexo não tem que ser só isso

Há uma solução melhor?
Pessoalmente, quero focar-me em temas de sexualidade e erotismo, uma visão positiva do sexo e não uma visão negativa, que é a que prolifera no cinema português. É tudo muito deprimente e mau. Só há sexo quando há violações ou alguém está loucamente apaixonado e rebenta a pessoa. O sexo não tem que ser só isso. Tenho falado com muitas pessoas ligadas às artes e há muito essa visão de que o sexo lúdico não é para ali chamado. Só interessa o sexo para matar ou morrer ou para quebrar alguma regra. Tenho uma visão mais ligeira e luminosa da coisa.

O sexo vende?
O sexo vende sexo, nem sequer vende produtos. Quando as pessoas se interessam por uma campanha ou produto que tenha sexo, estão interessados no sexo e esquecem-se do produto, do filme (…) o que interessa é entrar pelo outro lado, entrar pela cabeça e emoções ao invés de entrar pelos genitais.

Mas há bons exemplos do uso do sexo?
Sim, mas estamos no meio de uma convulsão social global que é complicada de gerir. Imensas reivindicações, ativismos. Está toda a gente a pensar a que questões se devem dedicar.

É um campo de minas.
É. Esta nova vontade de abordar os mais diversos temas da sexualidade está a ser principalmente motivada pelas mulheres, dá outra perspetiva de uma coisa que até hoje tinha sido muito abordada pelos homens. E dá uma nova visão do que pode ser erótico, positivo, inclusivo.

O público feminino é a nova fronteira?
Notei logo isso quando estava no Hot Gold. O público feminino começou a ser muito mais exigente na qualidade dos filmes, a verbalizar mais as suas exigências.

O que é que elas gostam mais, contrariamente aos homens?
É uma pergunta difícil. No canal quis criar uma maior diversidade e estava a aparecer pornografia feita por mulheres. Havia essa vontade de criar um novo mercado feminino, mas havia sempre debates sobre se as mulheres deviam ou não ter celulite, se deviam ser ou não bonitas. Não era fácil agradar a toda a gente. Havia mais debate do que excitação. O debate é positivo, mas o meu objetivo é criar excitação, não é criar o debate.

O sexo vende sexo, nem sequer vende produtos

Coisas como “As Cinquenta Sombras de Grey” ou como este último êxito da Netflix, o “365 Dias”?
É outra coisa. (risos) Há um livro que se chama “A História do Desejo Feminino”, que faz um apanhado das histórias que mais impactaram o desejo das mulheres, que heróis, atores ou histórias mais as excitaram, e há uma fórmula que se vem reproduzindo desde sempre, que é a fórmula usada nas “Cinquenta Sombras de Grey” e no “Twilight”: a mulher inocente que conhece um homem poderoso e que tenta dar-lhe a volta, ele resiste e ela ganha no fim. O que houve de mais impactante no primeiro foi a cena da BDSM, não foi inovadora mas foi inesperada. De repente, o debate entras mulheres era: já experimentaste? Gostavas? E qual é a linha entre o BDSM e a violência doméstica?

Acender o debate é o mais importante nestes filmes?
Sem dúvida. Se os filmes que fizer ou coisas que concretizar tiverem o mesmo impacto que “As Cinquenta Sombras de Grey” ou que o “Emanuelle” teve… Quero criar histórias que mexam com o quotidiano das pessoas, não que seja algo que veem no quarto, escondidos, às três da manhã.

O que faz um sex coach?
Não sou psicólogo nem trabalho traumas. Ajudo as pessoas que têm dúvidas sobre se são normais, se fazem as coisas bem, se devem e como devem experimentar coisas novas, como falar com o marido ou mulher de uma forma que não seja impositiva. Ajudo pessoas nas suas caminhadas de autodescoberta.

A comunicação é um dos grandes problemas?
Os dois grandes problemas são a comunicação entre casais e a autoestima, acharem que não têm direito a ter prazer, não experimentarem coisas novas por causa da vergonha, da culpa. Também há muita gente que está a lidar com a sua própria sexualidade porque gosta de coisas fora do comum.

Quero criar histórias que mexam com o quotidiano das pessoas, não que seja algo que veem no quarto, escondidos, às três da manhã

O que é uma coisa fora do comum?
Não é. As pessoas é que consideram que são. A pergunta que mais vezes me fazem é: “serei normal?”. E eu penso: nem imaginas o quão normal tu és. Aquilo que eu já vi na minha vida, há coisas mesmo incríveis. Fui dono de um clube erótico durante cinco anos, onde conheci imensas pessoas e imensas visões da sexualidade.

Como é que foi parar a um clube erótico?
Li um livro que falava de casais swingers e era uma área que gostava de explorar. Fiquei fascinado com aquela visão do mundo, que seria perfeito se fosse assim, muito positivo relativamente ao altruísmo da outra pessoa do casal, manter uma relação apesar de estarem com outras pessoas, porque existe esse amor superior pela pessoa com quem se está. Conhecia um casal e quando lhes falei deste meu interesse, levaram-me ao clube, onde conheci o dono, que me propôs tornar-me sócio.

Como foi a experiência?
O que li nos livros foi exponencialmente alargado. Há pessoas para tudo, coisas que correm bem e mal. Não há uma visão única e perfeita do que é uma relação. Foi aí que comecei a fazer consultas de forma casual. Acabei por fazer o curso de coaching para tornar a coisa mais oficial.

Disse que tinha a ambição de criar algo. O que é que tem em mente?
Quero e estou a meio do processo de uma longa metragem. O guião já está escrito. Vou fazer um filme erótico sobre sexualidade com pessoas com deficiência física. Quero fazer filmes eróticos positivos e não dramáticos ou depressivos. Fiz pesquisa durante dois anos. Espero que tenha impacto não só erótico nas pessoas, mas também impacto social, que faça as pessoas pensar um bocadinho nestes casos. Pode acontecer a um de nós, amanhã vamos no carro e ficamos paralisados.

E quando é que vamos poder ver o filme?
Se conseguir ter financiamento…. Bem, eu vou fazê-lo de qualquer maneira, só dependerá da rapidez com que será feito. A principal questão é que muitos filmes portugueses têm cenas eróticas, nus, e só o facto de eu designá-lo como filme erótico é que muda alguma coisa. Poderá causar um dilema, se a distribuição será feita nos cinemas como um filme normal que mostra maminhas; ou porque é um filme erótico não vai ser distribuído. Se não for, faço-o sozinho. Até porque não faço isto por dinheiro. Tenho uma menagem que quero passar e vou usar todos os meios que puder.

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