Saúde

Covid-19: O que já se sabe (e ainda falta descobrir) sobre os doentes assintomáticos

Nunca nenhum vírus gerou tantos estudos publicados em tão pouco tempo.
O Covid-19 propagou-se em poucos meses.

Já conhecemos muitos dos sintomas mais comuns do Covid-19. Já sabemos que máscaras, higiene das mãos e distanciamento social ajudam a contrariar a propagação do coronavírus. Mas há muito ainda por descobrir e uma das maiores dúvidas atuais é sobre os assintomáticos.

Afinal, quem não tem sintomas pode contribuir para propagar a doença? Mais do que isso, será que não ter sintomas agora quer dizer que não se vai ter nenhum problema mais tarde? Com o aumento dos testes feitos há cada vez mais pessoas a descobrirem que tem o vírus sem nunca ter tido uma razão de queixa. Porquê?

Especialistas de todo o mundo estão em contrarrelógio a analisar o vírus e a publicar estudos sobre as mais diversas matérias mas apesar do esforço coletivo convém não esquecermos que a ciência precisa de tempo. Esse é um dos maiores desafios de tentarmos perceber um vírus que continua a propagar-se. Temos centenas de anos de estudos acumulados da gripe. Já “nesta doença só temos seis meses”, como chamava a atenção o pneumologista Filipe Froes numa entrevista recente à “Sábado”.

O que são assintomáticos?

Há uma diferença a ter em conta: assintomáticos e pré-sintomáticos. No caso destes últimos, falamos de pessoas que têm o vírus mas a razão pela qual ainda não têm sintomas, independentemente da gravidade, é porque ainda estão no período de incubação, que pode durar dias. Os tais 14 dias de quarentena de que tem ouvido falar? É devido a este período de inbucação.

Como explicava a bióloga Natália Pasternak ao portal “G1”, “assintomáticos são aqueles que testam positivo, mas nunca chegam a desenvolver sintomas. E como sabemos isso? Porque os testamos repetidas vezes e eles continuam positivos, mas sem sintomas”. Esta diferença pode parecer simples mas em muitos casos só com uma análise detalhada é possível distinguir. Já explicamos de seguida.

Se não tenho sintomas agora já não vou ter?

Não. Em janeiro, um empresário alemão contraiu o vírus pós reunir com uma colega vinda de Xangai que não teria sintomas. Na verdade, como dá conta o “The Verge”, percebeu-se depois que nas reuniões de negócios que tinham tido juntos a colega já havia sinais de fadiga e ligeira febre. Como se pode fazer esta distinção? Com mais testes.

Em certos casos, há estudos vindos a público em que os pacientes terão sido testados uma vez. O ideal é que sejam acompanhados e testados ao longo de pelo menos os tais 14 dias.

casos
Há mais de 10 milhões de casos em todo o mundo.

Os assintomáticos podem contagiar outros?

Acredita-se que sim, há estudos nesse sentido e é um risco público assumir que não. O que não se sabe é “o papel exato dos assintomáticos na transmissão”, como reconhecia a médica de saúde pública Teresa Leão na última edição do “Expresso”. A dificuldade em saber ao certo é culpa do que falávamos antes, dos casos que serão pré-sintómaticos, mas não só. O facto de o vírus já estar na comunidade dificulta a descoberta da origem de cada novo contágio.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) não tinha dito o contrário?

Sim e não. Em junho, Maria Van Kerkhove, especialista da OMS, afirmou que era “muito raro” os assintomáticos transmitirem a doença. A afirmação teve impacto, valeu críticas de colegas e até correção da própria. A mesma especialista justificou que se estava a referir a poucos estudos e que era um “mal-entendido”. E acrescentou: “Esta é continua a ser uma grande questão em aberto”.

Não tive sintomas, nunca vou ter sequelas?

Não necessariamente. E esta é uma das maiores dúvidas a longo prazo e que não é possível responder agora. Na mesma entrevista à “Sábado”, Filipe Froes dava o exemplo da varicela: “Hoje sabemos que uma das sequelas da varicela tardia é o envolvimento neurológico que se traduz em zona”, uma infeção viral.

Ainda agora estamos a conhecer as primeiras sequelas de pessoas que tiveram o vírus, com sintomas mais severos, e sobreviveram. Pulmões, coração, fígado e rins são só alguns dos órgãos que poderão ter ficado a funcionar pior para os sobreviventes. E ainda estamos no início. Recentemente, a “BBC” lembrava que milhões de sobreviventes do vírus da pandemia de 1918 (a letal Gripe Espanhola) manifestavam sinais de exaustão nos anos a seguir.

Por ser recente, este coronavírus ainda tem muito por onde estudar. A urgência do momento leva a que o foco da atenção se centre em travar a pandemia. Mas um vírus é complexo, tal como o impacto e a reação que poderá ter em diferentes pessoas. E isso vai levar anos a estudar.

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