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Saúde

Confissão de um médico inglês: “Estão a mandar-nos para o matadouro”

O relato da linha da frente do combate ao Covid-19 no Reino Unido é dado por um médico anónimo que relata a falta de equipamento.
Falta equipamento de proteção no SNS britânico

“Não parece existir qualquer plano. Tivemos semanas para nos preparamos e continuamos a esgotar stocks de equipamento de proteção. E, claramente, os médicos são dispensáveis. Porque é que nos sacrificam quando sabem que já somos poucos? Quantos de nós estarão capazes de trabalhar quando o momento chegar? Estão a mandar-nos para o matadouro — é isso que eles estão a fazer.”

O relato dramático é o de um médico anónimo que está na linha da frente de um dos maiores hospitais do Reino Unido, precisamente no tratamento das doenças infecciosas, que hoje são “zonas vermelhas” para os infetados com Covid-19.

“Nós sabemos que alguns dos pacientes vão morrer”, confessa num texto publicado esta segunda-feira, 16 de março, no jornal britânico “The Guardian”.

As preocupações com a sobrevivência dos infetados não é, de todo, a única que atormenta os profissionais de saúde ingleses.

“Há uma semana, trabalhava com todo o equipamento de proteção vestido (…) Agora dizem-nos para não nos preocuparmos com isso. ‘Lidem com isso como se fosse uma simples gripe sazonal’, dizem-nos. Esperam que usemos apenas uma máscara cirúrgica normal, um par de luvas e um avental de plástico que nem sequer nos cobre totalmente. Assisto pacientes por todo o hospital na mesma roupa protetora — e essa roupa pode ter coronavírus”, diz das regras implementadas que contrariam as indicações da Organização Mundial de Saúde.

“Estou seriamente a ponderar se devo continuar a trabalhar. Provavelmente ficarei bem, sou jovem e saudável, mas não suporto a ideia de estar a infetar outros pacientes com uma doença que os pode matar.”

O relato desesperado continua: “Será que desistiram? Decidiram simplesmente apostar na imunidade coletiva enquanto nos deixam morrer? Este governo desistiu, não é?”

Apesar de as primeiras indicações dadas pelo governo de Boris Johnson terem sido no sentido de apostar precisamente nessa imunidade coletiva — isto é, deixar que a infeção atravesse a sociedade para que os britânicos, na sua maioria, ganhem anticorpos —, os riscos começaram a ser evidentes. As críticas também. E o governo acabou por dar o dito por não dito, negar que tenha sido essa de todo a sua intenção e, finalmente, apostar em medidas de isolamento social, à imagem dos restantes países europeus.

Tudo mudou esta segunda-feira, 16 de março, com Johnson a dirigir-se publicamente ao país para sublinhar a necessidade de reduzir a interação social. Uma tomada de posição que possivelmente assenta nos estudos mais recentes e nos números assustadores que se adivinhavam para a população britânica. O Imperial College London revelou que, em caso de inação, mais de 80% da população ficaria infetada, com um número de mortes a rondar os 500 mil.