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Saúde

Como é que se contam os mortos por Covid-19? Ninguém se entende

Os critérios mudam de país para país e tornam difícil perceber o cenário real ou calcular uma taxa de mortalidade.
As taxas de mortalidade variam de país para país

Afinal, quão mortal é o novo coronavírus? Essa é a pergunta do milhão de euros, precisamente porque é tão difícil encontrar a resposta. O problema não está apenas na altura em que está a ser feita: é que para aferir este valor é necessário calcular a taxa de mortalidade, uma conta difícil de fazer quando ainda estamos no meio da epidemia. Pior: as percentagens são tão díspares que começam a dar origem a inúmeras teorias da conspiração. Na verdade, o problema pode estar simplesmente na forma de contar os mortos — é que cada país faz a contagem de acordo com os seus próprios critérios.

Em teoria, parece tudo muito simples — basta calcular a proporção de mortos por número de confirmados. O problema é que o número está longe de espelhar a realidade global. Mike Ryan, da Organização Mundial de Saúde (OMS), revela que existem quatro fatores que podem resultar em diferentes taxas de mortalidade: quem é infetado; qual a fase da epidemia em que se encontra cada país; quantos testes são efetuados; e, por fim, de que forma é que os diferentes sistemas de saúde estão a lidar com o problema.

Numa declaração a 3 de março, a OMS estabeleceu uma taxa de mortalidade global de 3.4%, uma subida dos 2% estimados em janeiro. Só que contas feitas a meio da pandemia e sem critérios uniformes na recolha de dados são, naturalmente, pouco fiáveis. Basta, por isso, olhar para as taxas verificadas atualmente nos diferentes países mais afetados: dos 11% em Itália aos 0,8% da Alemanha; dos 8,6% de Espanha aos 2,2% de Portugal. 

Outros fatores têm gerado desconfiança no que toca a estas contas das taxas de mortalidade. Os últimos relatos que chegam da China indicam que os números oficiais de mortes podem estar bem abaixo dos reais. Em muitos outros países, reclama-se que são feitos poucos testes, o que leva a uma baixa confirmação de infetados e um número real de mortos — uma receita natural para uma taxa de mortalidade elevada, porém desfasada da realidade.

Qual é, no entanto, o número real de mortos? Como é que se estabelece quem foi realmente vítima da Covid-19? O “El País” fez a análise para chegar à conclusão de que cada país segue uma regra de contabilidade diferente, o que se torna num enorme obstáculo à contabilização de estatísticas reais. É essa, alias, a opinião de muitos epidemiologistas consultados pelo jornal espanhol.

Em Espanha, mortes em casa ou em lares de pessoas que não foram testadas, não estão a ser incluídas nos relatórios. É nos lares de idosos que está um dos mais sérios problemas do país, com pelo menos 352 mortes, um número avançado pelo “El País” — o Ministério da Saúde não revelou quaisquer dados.

Em França, as autoridades também estarão apenas a registar as mortes por Covid-19 que acontecem nos hospitais e nas clínicas de referência para o tratamento do vírus. De fora têm ficado os que morrem em residências privadas ou nos lares de idosos.

Itália, o país com o maior número oficial de mortos em todo o mundo, coloca na contabilidade todos os que testaram positivo para Covid-19 e que morreram, o que pode também levar a outro problema: terão todos eles morrido em virtude da doença ou de outro problema de saúde grave?

O Reino Unido é outro caso paradigmático. Revela o “El País” que nos hospitais britânicos, a causa de infeção respiratória que resulte em morte só tem que ser registada se for provocada por uma das doenças que figuram numa lista que inclui botulismo, malária, tuberculose ou antraz. Ou seja, só a partir de 5 de março, data em que a Covid-19 foi adicionada à lista, é que as mortes começaram a ser devidamente registadas.

Por fim, a Alemanha e o estranho caso da baixíssima taxa de mortalidade. Perante esta disparidade, os números divulgados pelo Instituto Robert Koch têm sido colocados em causa. “Todas as mortes relacionadas com a Covid-19 são registadas: aqueles que morrem por causa da doença e aqueles com doenças graves que foram infetados, sempre que é impossível provar que a morte não foi causada pelo coronavírus”, revelou fonte do instituto ao jornal espanhol.

Uns pecam por excesso, outros pecam por defeito e tudo isso torna muito difícil chegar a um número real de vítimas mortais da Covid-19, pelo menos enquanto não forem adotados critérios uniformes. Quanto à taxa de mortalidade, essa é uma conta que só poderá ser feita de forma fidedigna no final da pandemia.

Ausente desta lista está Portugal, cujos critérios de contagem das vítimas por Covid-19 não foram divulgados. A NiT pediu mais informações à Direção-Geral de Saúde, que não chegaram a tempo de publicação deste artigo.