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Saúde

As aranhas podem afetar o desenvolvimento dos bebés — mas continuam à venda

A médica Sara Faustino explica como se pode estimular a marcha do bebé de forma segura.
Pense duas vezes antes de dar isto ao seu filho.

Os primeiros passos do bebé são não só uma etapa importante no seu desenvolvimento, como um momento marcante na memória dos pais. Um dos métodos vendidos como mais eficaz para estimular a marcha é o andarilho (mais conhecido como aranha). Porém, acredite ou não, é também um dos mais perigosos.

Os andarilhos infantis são projetados para o uso de bebés entre os cinco e os 15 meses, antes de desenvolverem a capacidade de andar de forma independente. O aparelho tem rodas, um assento regulável e, normalmente, uma barra de brinquedos.

Segundo um estudo publicado na revista “Pediatrics” no ano passado, mais de duas mil crianças deram entrada nos hospitais dos Estados Unidos por causa de lesões relacionadas com este aparelho. A partir de números idênticos a este, em 2004, o governo do Canadá proibiu mesmo o uso de andarilhos. E mais: quem for apanhado a vendê-los, pode ser multado ou até enfrentar uma pena na prisão. Em Portugal, não há dados conhecidos sobre este tipo de acidentes, nem legislação que proíba a sua venda.

“Embora o andarilho continue a ser uma opção utilizada com o intuito de ‘o bebé aprender a andar’, esta não é uma boa opção. Várias investigações já demonstraram que os bebés que utilizam este aparelho começam a andar mais tarde do que aqueles que não o usam”, alerta à NiT a médica Sara Faustino, de medicina geral e familiar na USF Conde Saúde.

Porque é que o andarilho provoca acidentes? De acordo com a médica, ele mantém o bebé estável na posição em pé. Resultado: não estimula o gatinhar e impede o seu desenvolvimento cerebral de competências de equilíbrio e coordenação essenciais à marcha sem apoio.

“Também é prejudicial no que diz respeito à postura do bebé, uma vez que induz uma posição incorreta da anca e joelhos. Isto pode trazer alterações a longo prazo na marcha da criança”, acrescenta.

Há mais um problema: o bebé tende a caminhar em pontas de pés, o que altera o balanço muscular do membro inferior e, consequentemente, aumenta o risco de formar alterações na zona do pé e do tornozelo.

Também está provado que o andarilho é o culpado de vários acidentes. Como permite o deslocamento da criança a uma velocidade e distâncias pouco normais é, de acordo com Sara Faustino, motivo frequente de traumatismos evitáveis, como quedas de escadas. Além disso, uma vez que a criança tem acesso a áreas que naturalmente não chegaria, pode dar origem a acidentes como queimaduras.

“No fundo, o andarilho não é uma boa compra já que não só não potencia o desenvolvimento do andar, como ainda pode dar origem de acidentes”, conclui.

Este aparelho é o culpado de vários acidentes.

Como deve ser o desenvolvimento do bebé?

Há alguns marcadores que pode ter em conta. Vamos por partes.

A partir dos nove meses: nesta altura, com apoio, o bebé deve ser capaz de se levantar e permanecer de pé. Mas atenção: é normal que não seja capaz de se baixar.

Aos 12 meses: com um ano já conseguirá gatinhar, ficar de pé e baixar-se com o apoio de uma ou duas mãos.

Aos 18 meses: nesta fase o bebé já deve andar.

“Mas é claro que estas idades são indicativas e cada bebé é diferente, pelo que devemos guiar-nos por elas e não utilizá-las como marcadores fixos. O mais importante é estar atento aos sinais, como o bebé não ser capaz de ficar de pé aos 18 meses ou não andar com dois anos”, explica à NiT Sara Faustino.

Então, como é que se deve estimular o bebé?

Já percebemos que o andarilho não é de todo uma boa alternativa. No entanto, de acordo com a médica, sentar o bebé num tapete de atividades ao pé do sofá com brinquedos à sua volta a uma distância que o obrigue a posicionar-se para alcançá-los será naturalmente mais estimulante (e seguro).

Também pode colocar o bebé sentado no chão junto do sofá, pôr os brinquedos em cima do mesmo e incentivá-lo a levantar-se com apoio no sofá.

“Contudo, deve garantir sempre a segurança em caso de queda — tapete no chão e espaço livre à volta”, recomenda a médica.