Saúde

Agente da PSP: “Não querem que usemos máscaras para não causar alarme social”

Com o País em estado de emergência, as autoridades continuam a fazer patrulhamento sem equipamento de proteção.
Sentem-se desprotegidos.

A população foi aconselhada a ficar em isolamento em casa, mas há profissões nas quais isso não é possível. Além dos profissionais de saúde, as forças de segurança continuam a cumprir o seu dever. No entanto, temem pela própria saúde e dos seus familiares.

“Amanhã vou trabalhar e levo o meu equipamento normal. Vou com o estado de espírito de que quero cumprir o meu dever, e fazer cumprir também, em prol do cidadão, mas sempre com receio de que em alguma intervenção possa contrair a infeção. O medo de não fazer ideia se chego ao final do turno com ou sem o novo coronavírus, levando-o ou não para casa, onde está a minha mulher e bebé, é grande”, conta à NiT um Agente do Comando Metropolitano de Lisboa, que prefere manter o anonimato.

Antes do estado de emergência, que está em vigor desde a meia-noite de 18 de março, a rotina da PSP continuava igual, sem quaisquer cuidados adicionais, embora já houvesse vários casos de infeção no nosso País.

Nesta altura, na esquadra deste agente, o desinfetante começou por ser facultado por civis. A maioria sentia necessidade de ter acesso a este produto durante o trabalho, assim como de equipamento de proteção individual. Porém, este último só é usado em situações excecionais.

“O que nos dizem é que não usamos para não causar alarme social. Mas isso não faz sentido quando estamos em pleno estado de emergência”

“Este equipamento, o EPI, é utilizado em equipas de intervenção rápida. Por exemplo, há oito packs — uma equipa é composta por oito elementos —, mas são seis equipas. Mas não há para todos. Só depois de um pack ser usado é que é resposto. Portanto, não existe disponível em grande número”, revela.

Este pack é apenas composto por luvas e máscaras de proteção cirúrgica, ou seja, dois equipamentos que pouco protegem contra o novo coronavírus. Neste momento, as forças de segurança têm a indicação de que apenas pode ser usado em situações específicas: numa intervenção com alguém infetado com a Covid-19; ou numa situação em que estão perante uma pessoa com fortes indícios de infeção. Porém, tem sempre de ser autorizado pelos superiores.

A rotina e a falta de proteção em pleno estado de emergência

A partir do momento em que foi anunciado o estado de emergência em Portugal, houve algumas regras, mas nenhuma delas relacionada com o uso de máscara, algo que acontece com as forças de segurança de Itália e Espanha, por exemplo.

“O que nos dizem é que não usamos para não causar alarme social. Mas isso não faz sentido quando estamos em pleno estado de emergência”, diz à NiT o agente do Comando Metropolitano de Lisboa.

“A minha opinião pessoal é que não há equipamento para todos e para não haver uns a usar e outros sem nada, ninguém tem acesso. Mas é claro que nos sentimos desprotegidos. Devíamos estar a usar as máscaras FFP2, com filtro”, acrescenta.

Se decidir comprar uma máscara para usar durante o horário de trabalho,  ainda se arrisca a uma sanção disciplinar. Conta, ainda, que tem ido sempre de carro para a capital, mas por iniciativa própria, já que “esse conselho não se ouviu por parte de ninguém”. 

Contudo, foram estabelecidas algumas regras. Na sua esquadra, assim como nas restantes a nível nacional, quem entra de serviço em patrulhamento nas viaturas, deve levar o desinfetante, entretanto disponibilizado nas divisões, para desinfetar, ou pelo menos tentar, os puxadores e volantes. 

Numa altura em que têm de realizar mais patrulhamento na rua, verificando se há ajuntamentos, consumo de álcool e se os estabelecimentos, nomeadamente supermercados, bares e restaurantes, estão a cumprir as medidas do estado de emergência, foram também estipuladas algumas normas.

As novas regras internas para evitar o contágio

Dentro da esquadra de divisão, houve regras e normas internas para não haver contágio, como manter a distância e evitar o cruzamento de turnos. Existe também uma sala só para pessoas detidas que estejam infetadas ou com sintomas de Covid-19, uma espécie de sala de quarentena. 

“Em alguns casos, foram reduzidos e alterados os horários — trabalha-se mais dias, mas também se está mais dias em casa. Alguns serviços não estão mesmo a funcionar, como ir a casa das pessoas notificá-las para comparecer em tribunais, por exemplo”, conta à NiT o agente da PSP.

Houve também já várias detenções por incumprimento por desobediência, como consumir dentro de estabelecimentos e pessoas em isolamento que não o cumprem. “Os idosos e os habituais transgressores locais, já conhecidos da polícia, são aqueles com quem mais nos cruzamos”, garante.

Neste momento, a esquadra da PSP de Queluz, no concelho de Sintra, está a trabalhar com o apoio de esquadras vizinhas, após a confirmação de que um agente está infetado com o novo coronavírus, fazendo com que os restantes 14 colegas fossem para casa de quarentena.

Sobre isto, o agente com quem a NiT falou diz que, “embora haja casos confirmados nas  forças de segurança, a proteção continua a ser muito escassa”. E mais: que, apesar de todo este cenário, “esta profissão continua a não ter subsídio de risco e essa tem sido a nossa luta”.

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