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Saúde

“Acho que faleceu. Ninguém vos ligou?” O inferno dos lares de Madrid

Uma chamada de uma neta é o espelho do caos em que mergulhou Espanha, onde os mortos não são mais do que estatísticas.

O caos em que Espanha mergulhou devido ao descontrolo da epidemia de Covid-19 tem afetado violentamente os mais vulneráveis. Os lares da capital estão em pânico: não há meios para cuidar de todos e já morreram idosos em centenas de residências. Numa vistoria macabra, o exército espanhol chegou mesmo a encontrar cadáveres ao abandono nas camas.

Durante esta pandemia, quase tudo é explicável através de estatísticas. Curvas, fórmulas exponenciais, percentagens de infetados, taxas de mortalidade. É difícil combater a frieza dos número e começamos a entrar num campo onde a empatia começa a escassear. É um desses casos dramáticos que relata o jornal “El País” esta quinta-feira, 26 de março, depois de ter tido acesso a uma chamada telefónica que espelha o estado do país.

Com 90 anos de idade e internado num gigantesco lar de Madrid, a cidade mais afetada no país, José era um dos espanhóis em alto risco de contágio. Mas José era apenas um de mais de 600 residentes. A ligação com os filhos e netos foi cortada logo a 9 de março, data em que foi decretado o isolamento obrigatório nos lares.

O cenário complicou-se quase duas semanas depois, com os primeiros sintomas a fazerem-se sentir. José, que ainda mantinha contacto telefónico com os filhos, avisou-os de que se começara a sentir mal e acabou por ser transferido para uma zona restrita no segundo piso, destinada a possíveis infetados.

As chamadas de José pararam e preocuparam a família que continuava a tentar ligar-lhe. Sem sucesso. Os telefonemas para o lar também não confortavam os filhos, que pediam informação que não lhes era passada. Foi preciso esperar por quarta-feira, 25 de março, para que uma chamada da neta de José fosse atendida com sucesso.

“Queria saber como está o meu avô, que foi transferido para o segundo piso”, pediu imediatamente. Depois de várias confirmações sobre o apelido, lançou-se ao computador. “Um momento, vou ver o que posso saber”. Silêncio.

Do outro lado, uma operadora teclava enquanto acedia aos processos. “Um momento, que estou só a terminar uma coisa que estava a fazer, senão esqueço-me”, avisou. Uma interjeição de aborrecimento depois, lá voltou a responder, como quem consulta uma agenda de consultas de rotina: “Um segundinho que já respondo. Bem, pesquisar… Boa, pois, sim. Bem, sabe que ele estava em isolamento…”

Recordaram por segundos uma chamada do dia anterior, feita também pela neta. Mais um período de silêncio. “Deixe ver, só um bocadinho… Eh, o que posso dizer, e sinto muito dar esta má notícia, é que acho que faleceu. É o que está aqui anotado. Ninguém vos comunicou o falecimento?”

“Não, claro que não”, atirou a neta. “Pois, é a última nota que está no processo. Vou confirmar porque a mim não chegou a informação, mas lamento dar-lhe esta notícia. Vamos contactá-la novamente, pode ser?”. Depois de um sim seco da parte da neta, terminou a chamada com um “Pronto, então até logo, cumprimentos”.

A frieza com que foi tratada mais uma morte é apenas um de muitos exemplos de como o surto descontrolado tem afetado o funcionamento normal dos países mais afetados como Espanha e Itália, onde as vítimas raramente se podem despedir dos familiares, os cadáveres são cremados sem acompanhamento e os funerais limitados à família mais próxima.

Só na região de Madrid registam-se mais de 17 mil infetados, dos quais 1221 são pacientes críticos. Mais de duas mil pessoas já morreram na região, vítimas do vírus.