NiTfm live

Ginásios e outdoor

World Dance Day: o dia em que perdi a vergonha e fui dançar pelas ruas de Lisboa

A repórter da NiT participou na maior silent party realizada ao ar livre em Portugal.
Participaram cerca de 40 pessoas em Lisboa.

Sábado, dia 13 de abril. Eram 17 horas quando perdi a vergonha e comecei a dançar no meio da rua. Não, não enlouqueci — apesar do olhar pasmado de quem me via sugerir o contrário. Estava a participar no World Dance Day, um evento mundial que pretende pôr toda a gente a dançar na rua, ao som da mesma música, com headphones nos ouvidos.

Dizem que dançar traz alegria e felicidade. Coincidência ou não, o ponto de encontro desta iniciativa estava marcado para a Praça da Alegria, em Lisboa. Qualquer pessoa podia inscrever-se e receber a faixa de áudio do evento. Apesar de todos dançarem no mesmo dia, cada local escolhia a sua hora. Em Lisboa, o host Pedro Dias definiu que o evento teria início às 17 horas. Se ele decidiu, nós cumprimos.

Além do telemóvel e dos headphones, a organização pedia que usássemos roupas coloridas. Portanto, quando cheguei à Praça da Alegria, às 16h40, foi fácil identificar o pequeno grupo de participantes. “Somos tão poucos, se calhar vai ser um fiasco”, pensei ao ver apenas umas dez pessoas. Cerca de 20 minutos depois já éramos perto de 40. Segundo a organização, estavam inscritas para a a iniciativa em Lisboa 50 pessoas, mas pelas minhas contas o número não chegou a tanto. 

Para que todos estivéssemos em sintonia, a faixa de áudio também estava disponível na aplicação Rave, uma plataforma de streaming. Quando o host carregou no play, todos começámos a ouvir a música ao mesmo tempo. E a dançar, claro.

Segundo a organização, esta é a “maior festa de dança de discoteca silenciosa ao ar livre”. Por isso, a maioria das músicas da faixa de áudio enquadrava-se nos estilos de dança que habitualmente passam numa discoteca. Ouviram-se hits mundiais, como “Love Generation” ou “Who Let the Dogs Out?”, e músicas étnicas de alguns países participantes.

De headphones nos ouvidos, descemos da Praça da Alegria até à Avenida da Liberdade. Sempre a dançar. Fizemos um tuk-tuk parar no meio da estrada para nos deixar passar e foi na Avenida que começaram os olhares mais desconfiados dos portugueses e dos turistas. Não tivesse deixado os complexos para trás e teria morrido de vergonha com tantas câmaras apontadas na minha direção.

Em Lisboa, dançou-se da Praça da Alegria à Ribeira das Naus.

Ao longo da faixa de pouco mais de uma hora, foram ainda surgindo várias indicações pela voz do australiano Peter Sharp, fundador do World Dance Day. Quando passávamos pela estação do Rossio, ele disse-nos para distribuir high fives com quem nos cruzássemos. Na Rua Augusta lançámos beijos ao ar e dissemos adeus a quem assistia. Ainda fizemos o limbo, dançámos como galinhas, comboios, saltámos e entoámos cânticos. Pelos gestos de quem nos via, a maior parte das pessoas percebia rapidamente que todos ouvíamos a mesma coisa.

Enquanto dançávamos e gritávamos com as roupas e cartazes coloridos cruzámo-nos com um grupo vestido de preto e com autocolantes a tapar a boca. Estavam a formar um círculo assustador, todos virados para fora. Eram ativistas a segurarem cartazes com imagens e frases contra a exploração animal. Eles ficaram, nós continuámos.

Passámos por artistas de rua, por uma tuna e por um vendedor de slime que durante longos segundos ficou de boca aberta, literalmente, ao olhar para nós. Quando chegámos ao Terreiro do Paço ainda faltava praticamente meia hora para a faixa terminar e já estávamos quase no nosso destino.

Aproveitámos o espaço daquela praça para dançar de forma ainda mais efusiva. E foi precisamente aqui que surgiram as indicações mais engraçadas. Dançar a pares, soprar bolhas de sabão e abanar freneticamente um lenço colorido (outros dois itens que tínhamos de levar). Foi também ali que tirei os meus headphones por alguns segundos para perceber como era olha para nós a partir do silêncio. Sim, parecíamos mesmo um grupo de loucos.

A festa terminou passado pouco tempo, nas escadas da Ribeira das Naus. De um lado, uma banda de rua a tocar; do outro nós, um grupo de pessoas a dançar outra música. Fizemos uma roda e demos um abraço coletivo. Foi emocionante.

Ali, em frente ao rio, com a música a terminar sentiu-se uma energia difícil de descrever em palavras. Tínhamos acabado de partilhar um momento especial e único. Havia gente quase a chorar. E toda a gente estava mais feliz.