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IronMena: a portuguesa de 49 anos que vai fazer uma das provas mais difíceis do mundo

A triatleta fez sete Ironman completos nos últimos nove anos. Esta é a história incrível de Filomena Gomes.
Filomena Gomes dedica grande parte da sua vida ao desporto.

Nunca foi muito ligada ao desporto nem tinha incentivo familiar nesse sentido. Na verdade, ninguém à sua volta fazia exercício. Portanto, nada indicava que a maior paixão de Filomena Gomes, 49 anos, ia ser o Triatlo. Mas aconteceu e agora pode ser a primeira mulher portuguesa a acabar um dos Ironman mais difíceis do mundo.

Nasceu em Lisboa mas viveu toda a sua infância em São João da Talha, concelho de Loures. Durante o ensino secundário, recorda-se que a Educação Física era uma disciplina muito pouco valorizada — mais um motivo para o desporto não fazer parte das suas prioridades.

“Na maioria das vezes nem tínhamos essa aula. E lá em casa eram todos atletas de sofá. Por isso, era pouco provável vir a relacionar-me com qualquer modalidade”, conta à NiT a triatleta.

Na altura, como não havia televisão, era com as brincadeiras de rua que ocupava o seu tempo fora das aulas. As bonecas também não eram algo em que tivesse interesse. Na verdade, Filomena Gomes via-se como uma maria rapaz. Bicicletas e trotinetes era os objetos de que mais gostava. Algumas vezes, ia ajudar na empresa familiar no ramo do mobiliário.

Ainda assim, entre os seis e os dez anos, frequentou ginástica desportiva — também não durou muito tempo, tal como a natação.

Cresceu e licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas na Faculdade de Letras, em Lisboa, onde chegou a dar aulas. Mas não se via a fazer isso o resto da sua vida. Solução: ser uma das primeiras mulheres a ir para o exército. Alistou-se em 1994, onde permaneceu até 2003 já como oficial (por ter formação académica). Além das tarefas militares, Filomena tinha uma especialização em tradução que exerceu durante a recruta em Tavira, no Algarve.

“Foi uma opção profissional. Sabia que aquilo teria um fim e fui completamente à aventura. Medo é uma coisa que normalmente não tenho e achei que aquilo me ia desafiar. Além disso, no meu lar sempre imperou a disciplina e as regras. Portanto, não era algo que me assustasse”, revela à NiT.

Quanto à parte física, embora soubesse que seria difícil e intenso, tinha a noção de que era capaz. E mais: queria ser uma das primeiras mulheres a ter essa experiência. Ao longo da recruta, nunca sentiu distinção. O tratamento era igual para homens e mulheres.

“Quando tínhamos de correr, corríamos todos. Quando tínhamos de nos atirar para a lama, atirávamos todos. E quando tínhamos de pintar a cara de camuflado, pintávamos todos.”

No início, a intensidade física custou. Relembra à NiT que percebeu ali que nem correr sabia (sem ser para apanhar o autocarro). No fundo, não tinha preparação física suficiente. Por isso que estava sempre com entorses e tendinites.

“Sofreu até chegar à meta mas, no final, o sentimento de realização fez com que esquecesse todas as dores”

A parte de que menos gostou foi ter de vestir a T-shirt de algodão de manga curta e os calções para ir fazer os exercícios (como manda o regulamento). Quanto à parte favorita, adorou a carreira de tiro, em que aprendeu a montar e desmontar uma G3.

Durante este percurso, houve apenas uma vez em que quase desistiu. O avô morreu enquanto Filomena estava na recruta e ir ao funeral significava ter de desistir. Com o apoio da família, acabou por não ir e concluir aquilo que tinha começado.