Ginásios e outdoor

Escolas de dança indignadas com o governo: “O ensino da dança merece respeito”

A NiT falou com uma professora de dança que faz parte das mais de cinco mil assinaturas da petição criada pelo setor.
O setor propõe uma adaptação.

A chegada do novo coronavírus a Portugal mudou toda a dinâmica do País, obrigando depois ao encerramento temporário de vários espaços, incluindo as escolas de dança e similares. Após dois meses e meio de portas fechadas, o setor pensou receber um manual de orientações específicas para a reabertura, mas isso não aconteceu e a gerou-se uma onda de indignação.

Com reabertura autorizada a partir de 1 de junho, estes espaços foram obrigados a retomar a atividade de acordo com as medidas de segurança que o governo e as autoridades de saúde definiram para as atividades desportivas. Porém, não compreendem como é que uma aula de grupo de um ginásio pode ser comparada a uma aula de grupo de dança. 

Foi por isso que no domingo, 31 de maio, a Plataforma de Escolas de Dança de Portugal criou uma petição pública online para que haja regras e apoios adequados ao setor. Conta já mais de cinco mil assinaturas.

Ninguém nos ouviu nem fomos considerados na elaboração das recomendações para o setor”, pode ler-se no documento dirigido a vários membros do governo, que funciona como uma espécie de carta aberta. “O ensino de Dança tem várias especificidades e merece orientações específicas e adaptadas à realidade”, defende.

Com a certeza de que a prática de dança ajudou muitos portugueses a ultrapassar o confinamento e poderá ser uma peça chave na fase de voltar à normalidade, proporcionando uma melhoria na qualidade de vida dos portugueses, o setor quer reabrir com todos os cuidados necessários.

“O ensino da dança merece respeito! O articulado, o integrado, o supletivo, o extra-curricular, o profissional ou amador, nas associações, federações, conservatórios ou empresas, o ensino da dança deve ser resguardado”, diz a Plataforma de Escolas de Dança de Portugal.

“Espero que se consigam traçar medidas que nos façam sentir seguros, a nós e aos nossos alunos”

Uma das milhares de assinaturas desta petição pertence a Joana Duarte, 27 anos, licenciada em dança com mestrado em educação pré-escolar. “No meu caso em particular, assim como no de tantos outros colegas, trabalho como professora a full time, não em escolas de dança mas em duas coletividades, e a situação é exatamente a mesma: viemos para casa a 13 de março, e desde aí ficámos completamente ‘às cegas’, sem saber o que fazer, quando poderíamos regressar e muitos sem receber ordenado e a contar com apoios mínimos da segurança social. Eu deixei a preparação de um espetáculo a meio e mais de 100 alunos sem aulas”, conta à NiT.

Confessa que, quando o governo finalmente começou a implementar medidas para vários setores de atividades, percebeu, assim como os restantes profissionais da sua área, que não só a cultura estava a ser ainda mais desvalorizada do que já é, como a dança em particular estava completamente esquecida. 

“Como justificam que um avião possa ir lotado sem distanciamento social, mas uma sala de espetáculos, com espaços mais amplos, tenha de ter distanciamento entre cadeiras?”, questiona a professora, que estava a dar aulas de hip hop, dança contemporânea e dança criativa.

E continua o desabafo: “Para nos ‘calar’, lá afirmaram que poderíamos retomar a atividade no início de junho, mas sem conhecimento de causa, colocando-nos no mesmo patamar que os ginásios.”

Não considerando as escolas de dança melhores ou piores, afirma que a prática das aulas de grupo é completamente diferente. Joana Duarte considera muito imprudente por parte do governo ter autorizado este regresso.

“Há muitos estilos de dança mas, na sua grande maioria, lidamos com o toque, a proximidade física, a exploração espacial e de níveis, entre outros fatores a ter em consideração, como por exemplo, muitos de nós terem alunos que são crianças”, refere à NiT.

“Tudo neste momento tem de ser feito com prudência e conhecimento de causa”

O que o setor precisa, acima de tudo, garante, é que o governo se eduque sobre a prática da dança, dos métodos de ensino e dos objetivos, “que vão muito para lá de entreter e despejar coreografias”. A partir daí, a professora espera que “se consigam traçar medidas que nos façam sentir seguros, a nós e aos nossos alunos”. 

“Muitos dos profissionais da área abdicaram da reabertura das escolas e das aulas na data permitida (eu incluída), mesmo saindo lesados economicamente, precisamente por termos como maior preocupação a segurança de todos. Tudo neste momento tem de ser feito com prudência e conhecimento de causa, caso contrário estaremos a dar três passos para trás depois de todos os esforços e consequências da quarentena e do estado de emergência.”

Na petição pública, a Plataforma de Escolas de Dança de Portugal sugere uma adaptação dos procedimentos de prevenção e controlo da Covid-19 específicos para o ensino de dança no nosso País. Pode ler a proposta online.

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