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Alimentação Saudável

Spud Fit Challenge: o desafio do homem que emagreceu 53 quilos a comer batatas

O australiano Andrew Flinders Taylor pesava 151,5 quilos. Agora, partilha o seu método com o mundo.
Começou o desafio aos 36 anos.

A batata é um dos alimentos que quase toda a gente dispensa quando quer emagrecer. Contudo, Andrew Flinders Taylor não faz parte desse grupo. Em janeiro de 2016, o australiano pesava 151,5 quilos e decidiu perder peso — mas não escolheu os métodos mais tradicionais. A sua dieta consistia em comer batata todos os dias e em todas as refeições. Achamos melhor reforçar isto: apenas e só batata. Muita batata. A 31 de dezembro desse ano já tinha menos 53 quilos.

Ao longo dos últimos quatro anos, foi partilhando o seu método, que batizou como Spud Fit Challenge, com o mundo, sobretudo através do YouTube, onde tem mais de 13 de mil seguidores. Em fevereiro, voltou a fazer um mês só à base deste alimento, o que fez com que se tornasse novamente notícia na imprensa internacional.

Atualmente, Taylor não come apenas batatas, mas garante que foi essa dieta exclusiva que o ajudou a tornar-se um homem mais saudável.

“O desafio foi concebido apenas como uma intervenção de curto prazo para tratar o meu próprio vício em comida”, disse ao site “yahoo!” numa entrevista em novembro de 2019. “O meu comportamento com a comida refletia o de um alcoólatra com a bebida, então decidi abandonar todos os alimentos, exceto as batatas”, acrescentou.

Durante o desafio, o australiano, que agora tem 40 anos, comeu todos os tipos de batata, incluindo a doce, que é conhecida por trazer vários benefícios para uma alimentação saudável. Para dar sabor às refeições, costumava pôr um pouco de ervas, pimenta ou molho barbecue. Quando fazia puré de batata, só acrescentava leite de soja sem óleo.

Outra das regras — ou não regra — imposta por Andrew é que não havia limites na quantidade consumida. Podia comer as batatas que quisesse, desde que a sensação de fome ficasse satisfeita. Durante o primeiro mês de desafio, sem atividade física, perdeu logo dez quilos. 

Além disso, bebia, preferencialmente, água. De vez em quando, abria uma exceção e consumia cerveja. 

No ano seguinte à dieta da batata, começou a incluir outros ingredientes vegetais no plano alimentar, como frutas, legumes e grãos integrais.

Além de ter saído do nível de obesidade, Andrew garantiu à mesma publicação que a sua saúde mental está muito melhor, já que sofria de depressão e ansiedade antes de iniciar o Spud Fit Challenge. 

As fotografias do antes e depois do australiano, assim como a transformação que foi partilhando diariamente em vídeo, são realmente impressionantes. Porém, a mesma dieta não funciona de forma igual com toda a gente. 

A opinião de uma nutricionista portuguesa sobre este desafio

“Para Andrew, este método resultou, uma vez que as calorias que consumia ao longo do dia eram ao seu gasto energético diário e inferiores às que consumia anteriormente. Como em todas as estratégias e/ou dietas (como vegan, dieta do paleolítico, omnívora, entre outras), para que se verifique uma perda ponderal é necessário que exista défice calórico, ou seja, o gasto energético tem de ser superior às calorias consumidas diariamente”, alerta Mafalda Rodrigues de Almeida, autora do blogue NiT “Loveat”.

Segundo a especialista, é importante ter noção de que a adoção deste tipo de dieta pode trazer alguns problemas, já que se trata de uma dieta muito restritiva, sem variedade e com pouco equilíbrio nutricional.

Vamos à teoria: a batata é um tubérculo e cozida fornece (por cada 100 gramas) 87 calorias, 20,2 gramas de hidratos de carbono, 2,4 gramas de proteína de 1,6 gramas de fibra. É um alimento com baixo teor proteico e isento de gordura — a não ser que junte azeite. No que diz respeito a micronutrientes, a batata tem um baixo teor de vitamina A, E, B2 e vitamina B12, cálcio, sódio, zinco e selénio. 

Para que se obter, através do consumo de batata, uma ingestão calórica diária de duas mil calorias — a dose de referência para um adulto médio — seria necessário o consumo de 2,344 quilos de batata, o equivalente a cerca de 34 batatas cozidas, do tamanho de um ovo. 

O antes e depois.

A nutricionista destaca, ainda, que a distribuição de macronutrientes com esta dieta não seguiria a recomendação da Organização Mundial da Saúde, que diz que cerca de 15 a 30 por cento da ingestão calórica deve ser fornecida pelos lípidos, e 55 a 75 por cento pelos hidratos de carbono. Com este padrão alimentar, a ingestão de hidratos de carbono corresponderia a cerca de 85.

A longo prazo, esta dieta pode trazer carências ao nível de vários nutrientes. Se não contemplar nenhuma fonte de gordura, a absorção de vitaminas lipossolúveis fica comprometida, uma vez que só são absorvidas na presença de gordura. A vitamina A é importante os órgãos, a visão, o sistema imunitário e o sistema reprodutor. A vitamina E é essencial para o sistema reprodutor e uma das consequências da sua deficiência é a neuropatia periférica”, alerta à NiT.

E continua: “A deficiência de vitamina K pode comprometer a coagulação do sangue. Adicionalmente às vitaminas lipossolúveis, outras que estão comprometidas nesta dieta são a vitamina B12 e a B2. A primeira, que se encontra sobretudo em alimentos de origem animal, também estará em défice num regime alimentar baseado no consumo de batata e, uma vez que é uma vitamina essencial para a síntese de ADN e manutenção das células nervosas, pode originar, entre diversas condições patológicas, alterações ao nível neurológico. Já o défice de vitamina B2 está associado à perda de cabelo e aparecimento de edemas na boca.”

Além dos problemas que podem surgir pelo défice de vitaminas, Mafalda Rodrigues de Almeida recorda que alguns sistemas e/ou órgãos podem ficar comprometidos devido ao facto de a batata não fornecer em quantidades suficientes outros micronutrientes. São eles, por exemplo, o selénio (essencial para o funcionamento da tiróide), o cálcio (importante para o metabolismo ósseo), o zinco (exerce um papel importante no sistema imunitário e na síntese proteica) e o sódio (em quantidades recomendadas é essencial para a função neuromuscular.

A autora do blogue NiT “Loveat” destaca uma meta-análise feita em 2018 que concluiu que, a longo termo, quanto maior o consumo de batata maior será o risco de aparecimento de Diabetes tipo 2. Portanto, não siga este nem outros tipos de dietas sem pedir ajuda a um profissional.

A perda de peso também se nota no rosto.