Ginásios e outdoor

“The Biggest Loser”: Ex-concorrentes revelam os horrores do programa

Fome, drogas, mentiras e ainda corrupção. As revelações foram todas feitas ao "New York Post" por participantes do reality show americano, no seguimento da polémica de um estudo que explica porque é que eles recuperam todo o peso perdido.

“O ‘The Biggest Loser’ não salva vidas. Destrói vidas. Mentalmente, emocionalmente e financeiramente — voltamos pessoas diferentes. Metade das pessoas da minha temporada divorciaram-se. O efeito não dura semanas ou meses. Dura anos”, descreve ao “New York Post” Suzanne Mendonca, ex-concorrente da segunda temporada do programa.

Lezlye Donahue sobreviveu ao furacão Katrina, em 2010. Mesmo sendo testemunha de uma das maiores catástrofes naturais dos últimos anos nos Estados Unidos, a ex-concorrente da quarta temporada do reality show considera que o seu maior pesadelo foi ter participado naquele programa: “É o meu maior pesadelo”, confirma ao “New York Post”. “E está comigo até hoje”, acrescenta. De acordo com o que relata ao mesmo jornal, a sua dieta chegou a consistir em sete espargos e menos de cem gramas de peru por dia.

Estas são apenas duas das testemunhas e ex-concorrentes de “The Biggest Loser” — um programa de televisão onde pessoas com excesso de peso perdem drasticamente dezenas de quilos — que entraram em contacto com o jornal para revelarem os pormenores de bastidores chocantes que aconteceram ao longo das 17 temporadas em que o programa foi transmitido pelo canal NBC.

“Mente e diz que estavas a seguir a diretiva de ingestão de 1500 calorias diárias — mas quero que consumas 800 calorias.”

As revelações publicadas num artigo da mesma publicação surgem na sequência de um estudo realizado pela National Institute of Health (NIH) e tornado público a 2 de maio pelo “New York Post”. Esta investigação vem afirmar que o metabolismo dos concorrentes do “The Biggest Loser” sofre alterações drásticas após a participação no programa, sendo essa a principal causa que leva à recuperação do peso, um fenómeno que se tem registado em muitos dos ex-participantes.

“As pessoas estavam a desmaiar no consultório do Dr. H [Rob Huizenga, médico residente do programa]”, diz ao “New York Post” Suzanne Mendonca. “Na primeira temporada, cinco pessoas tiveram de ser enviadas para o hospital. Ele sabia exatamente o que estava a acontecer e não fez nada”, acrescenta, referindo-se ao mesmo médico.

Além dos concorrentes, há ainda fontes próximas da produção do reality show a admitirem a promiscuidade de “The Biggest Loser”: “O programa é tão corrupto.”A mesma fonte conta que o personal trainer Bob Harper e um dos seus assistentes deram aos concorrentes Adderall [um estimulante que inclui sais de anfetamina] e “yellow jackets”, uns comprimidos que contêm ephedra, um extrato banido pela própria FDA (Food and Drug Administration), em 2004, que promove a perda de peso e aumenta os níveis de energia.

Este facto ganha ainda mais força quando uma das ex-concorrentes vem fazer a mesma revelação: “Ele [Bob Harper] foi-se embora e o seu assistente entrou. Ele tinha um saco castanho de papel empacotado na mão e disse: ‘Toma esta droga, vai ajudar-te imenso’. Era amarela e branca. O meu pensamento foi: ‘Que merda é esta?'”. Quem conta isto ao “New York Post” é Joelle Gwynn, uma das concorrentes da sétima temporada do programa, que treinava com o personal trainer Bob Harper.

Nervosa, Gwynn explicou a situação ao “tipo da medicina desportiva [Rob Huizenga]”. A resposta não foi aquilo que esperava: “No dia seguinte, Dr. H deu uma justificação sem sentido sobre o motivo pelo qual aqueles comprimidos tinham sido adicionados ao nosso regime.”

Confrontado com a situação, o médico negou, via email, ao “New York Post” estas acusações: “Nada poderia estar mais longe da verdade. É dito aos concorrentes, logo no início do programa, que há uma política de tolerância zero em relação a qualquer droga de perda de peso”, disse, referindo ainda que são efetuados testes antidoping ao longo das temporadas.

“Ele tinha um saco castanho de papel empacotado na mão e disse: ‘Toma esta droga, vai ajudar-te imenso.'”

O testemunho de Joelle Gwynn não acaba aqui. De acordo com o que relata ao “New York Post”, o PT Harper chegou a pedir-lhe que mentisse relativamente ao seu consumo diário de calorias: “Mente e diz que estavas a seguir a diretiva de ingestão de 1500 calorias diárias — mas quero que consumas 800 calorias ou o mínimo que conseguires.”

Segundo Suzanne Mendonca, era normal as pessoas tomarem anfetaminas e outro tipo de comprimidos e vomitarem nas casas de banho. A ex-concorrente descreve ainda outro tipo de cenário: “Levávamos as bicicletas de spinning para as saunas para treinarmos e transpirarmos. Eu vomitei todos os dias. Bob Harper encorajava as pessoas a vomitarem: ‘Boa’, dizia. ‘Assim perdes mais calorias’.”

Dr. Rob Huizenga volta a desmentir estes testemunhos: “Eu educo os concorrentes com a noção de que uma correta ingestão calórica é essencial para a perda de peso tanto a curto como a longo prazo.” Também o personal trainer Bob Harper desmente tudo aquilo que é dito, classificando-as como “absolutamente falsas”.

“Entram em direto conflito com a minha dedicação de uma vida inteira para com o fitness e a saúde”. E acrescenta: “A segurança é a prioridade nos meus planos de treino e a minha abordagem tem sido sempre focada no bem-estar dos concorrentes.”

Apesar da NBC, que já transmitiu 17 temporadas, não se ter manifestado sobre o assunto, os produtores enviaram um comunicado ao “New York Post”, onde se pode ler: ”A segurança e bem estar dos concorrentes é, e sempre será, essencial. […] É proibida a utilização de quaisquer substancias ilegais.”

Mas para Mendonca, o pesadelo começou mesmo antes do programa: “No processo de seleção disseram-me que eu não era gorda o suficiente e que precisava de engordar”, conta. Ela tinha 109 quilos, o que de acordo com os dados da National Institute of Health (NIH) já corresponde a obesidade mórbida.

Além das formas perigosas de levar os concorrentes a emagrecerem, houve ainda outras humilhações relatadas ao “New York Post”, desde “concorrentes que eram obrigados a tomar banho em conjunto, sem cortinas ou qualquer tipo de barreira”, ou ainda, segundo recorda Donahue, colocar 12 concorrentes obesos num quarto aquecido:

“Estava um calor do inferno e o cheiro era horrível”, recorda a ex-concorrente.

“Havia concorrentes que eram obrigados a tomar banho em conjunto, sem cortinas ou qualquer tipo de barreira.”

Desde que saiu do reality show, Donahue recuperou todo o peso que perdeu. Conta ao “New York Post” que ficou sem trabalho, sofre de depressão e que gastou milhares de dólares em médicos como resultado do trauma a que o corpo dela foi sujeito. Ali Vincent, a primeira mulher a vencer o formato, também revelou recentemente ter recuperado as suas antigas rotinas.

A verdade é que muitos concorrentes que entraram em contacto com o “New York Post” sofrem do mesmo: estão deprimidos, muitos passaram por divórcios e outros ficaram desempregados.

“Nós não temos noção do quão perturbados estamos até à altura em que se torna incrivelmente óbvio”, disse Jen Watts, concorrente da segunda temporada. “Eu pensei que não podia trabalhar oito horas por dia porque tinha de treinar oito horas por dia. Comecei a tomar Zolof e Xanax para a ansiedade e depressão. O meu casamento precisou de poucos anos para se desintegrar”, diz, referindo-se à altura em que saiu do programa.

De acordo com o que relata o “New York Post”, os ex-concorrentes exigem que o reality show termine, de vez: “O programa tem de acabar, ser cancelado, destruído”, diz Mendonca. “Devia ter sido cancelado há dez anos”, diz Kai Hibbard, concorrente da terceira temporada do programa. No entanto, e apesar de tudo isto, multiplicam-se as versões em países por todo o mundo, incluindo Portugal, que vai também ter o primeiro hotel de “The Biggest Loser”.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

NiTfm

AGENDA NiT