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Saúde

Ortorexia, a “obsessão” pela vida saudável

O treino e as dietas rigorosas são uma das boas tendências atuais. Mas há casos em que essa opção de vida se pode transformar numa doença. A NiT diz-lhe quais são os sinais a que deve estar atento.

Ortorexia. É uma palavra esquisita, não é? É bem possível que nunca a tenha ouvido porque é um termo relativamente recente e sobre o qual só se começou a discutir há pouco tempo. Ele está na origem da cultura fit, que se tem vindo a propagar a uma velocidade enorme e que coloca o exercício e alimentação saudável no topo das prioridades. Mas antes de falarmos sobre a origem, é importante definirmos este termo.

A ortorexia é um transtorno alimentar, muito diferente da anorexia nervosa ou da bulimia. Traduz-se numa “relação neurótica, entre alimentos ‘bons’ e ‘maus’, que é o reflexo da preocupação com uma alimentação saudável levada ao extremo”. No fundo, “é uma relação não saudável com a comida saudável, que está no centro das atenções diariamente”, explica Marta Mourão, nutricionista do Holmes Place, com quem a NiT falou para perceber tudo sobre a ortorexia: a sua origem, sintomas, perigos e formas de tratamento.

Apesar de, atualmente, surgirem cada vez mais casos, o médico norte-americano Steven Batman já tinha descrito este transtorno em 1996. “No entanto, no manual oficial de doenças psiquiátricas, esta doença ainda não se encontra descrita”, conta Marta Mourão.

A tendência da vida saudável trouxe coisas muito boas, mas, como acontece com todas as atividades levadas ao extremo, levou também a outras menos positivas. Exemplo disso é a “captação desmedida e não filtrada de informação” que aparece nas redes sociais, blogues ou outros sites.

Quais são as possíveis consequências disto? Uma preocupação crescente em praticar uma alimentação super saudável e pura, “a procura incessante por uma aparência fit” — à qual a nutricionista se refere como “ditadura da beleza” — e outras questões de saúde e bem-estar, como “ter uma digestão mais rápida’, ou “melhorar os níveis de energia.’”

“Alimentação saudável é isto mesmo: incluir todos os alimentos, de uma forma equilibrada, completa e variada, não descurando o papel da alimentação a nível emocional e social”

Ao contrário de pessoas que sofrem de anorexia ou bulimia — que são transtornos alimentares gravíssimos, que podem colocar a vida em risco —, as pessoas que sofrem de ortorexia não tentam esconder o seu problema, até porque numa primeira fase nem sabem que o têm: “Enquanto nos caso de transtornos alimentares, focados nas quantidades e peso, como na anorexia e bulimia, éperceptívelo controlo alimentar queestá a ser feito, neste caso, os ortóxicos, num primeiro impacto, aparentam apenas ter alguma preocupação com a alimentação”, explica.

E acrescenta: “Apenas com o tempo, é possível perceber que algo não está bem — que as restrições alimentares estão a ser excessivas”.

É natural cairmos no erro de pensar que ser ortorexico não é assim tão mau — afinal, conseguem aquilo que a maior parte das pessoas quer: levar uma dieta só à base de produtos saudáveis, com muita determinação, disciplina e sem fast food. Isto até pode ser verdade, mas as consequências negativas deste problema são muito superiores aos ganhos, sobretudo a nível do foro social e psicológico.

Socialmente, porque estas pessoas são inflexíveis no tipo de alimentos que escolhem consumir e, por isso, acabam por se isolar. Não vão jantar fora, não lancham numa pastelaria e não bebem um copo à noite. Além disso, e de acordo com o que explica a especialista, como a prioridade é sempre a comida — e a

preocupação constante com o que comer, quando comer e como combinar os alimentos — a produtividade fica condicionada, já que este problema interfere com”outras atividades diárias, como estudo ou tarefas no trabalho”.

“A nível mental”, as pessoas que sofrem de ortorexia vão sentir uma enorme frustração e uma perda na autoestima pelo simples facto de terem comido qualquer coisa que não está no grupo que corresponde “aos alimentos saudáveis”.

“Quando cometem algum “deslize”, o comportamento obsessivo-compulsivo reflete-se num sentimento de culpa que poderá levar a auto-punições” nas refeições seguintes ou na intensidade do próximo treino, por exemplo.

A nutricionista diz que, apesar de ser uma doença pouco explorada, o tratamento para a ortorexia passa pelo acompanhamento “de um profissional da área de psicologia e um nutricionista.”

De acordo com a especialista, estes são os principais sintomas de pessoas que sofrem de ortorexia.

— Estão constantemente preocupadas com a alimentação;

— A alimentação saudável é a sua principal prioridade ao longo do dia;

— Só escolhem alimentos biológicos;

— Tudo que contenha aditivos, como corantes conservantes, agrotóxicos, sal, gordura, ou açúcar, é considerado impuro;

— Só confiam nas refeições que elas preparam pessoalmente;

— Criticam as pessoas que recorrem a alimentos considerados “impuros”;

— Observam, minuciosamente, a escolha e preparação de alimentos por parte dos outros;
— Têm um sentimento de frustração e punição quando cometem um deslize;

— Percorrem longas distâncias à procura do alimento “ideal”.