Televisão

“This is Us”: como a nova trilogia de episódios nos fez voltar a amar a série

A segunda parte da Big Three Trilogy passou esta quinta-feira, 6, na televisão portuguesa. E agora foi tudo sobre Kevin.
"A Hell of a Week: Parte 2".

Quando “This is Us” surgiu em 2016, o sucesso foi enorme e relativamente fácil de perceber. A série vivia de três grandes pilares: uma história de amor incrível; a adoração de uma família por um homem, pai e marido que, sem ser perfeito, o era; e a ligação direta entre passado e presente, entre infância e vida adulta, como que a construir um puzzle onde tudo, ou quase tudo o que somos e sentimos está, de certa forma, relacionado com o que vivemos ou aprendemos em miúdos.

Ainda que um pouco romanceado e exagerado, todos nos revimos naquilo: por um lado em toda aquela nostalgia e saudosismo de infância, por outro no impacto que certos momentos tiveram em nós. Bons ou menos bons.

Ao contar a história da família dos Pearson, as tais ligações diretas, construídas por flashbacks, mostravam-nos como um fim de semana onde tudo correu mal mas depois Jack e Rebecca arranjaram maneira de criar uma nova tradição de família impactou os seus três filhos; como uma conversa sobre a importância de seguir os sonhos entre pai e filhos os influenciou; como um dia na piscina, em que três crianças começam a ser adolescentes e a ignorar quem mais os adora, termina com um discurso de “nada nos salva como cercarmos-nos das pessoas que amamos” — e isso pode, décadas mais tarde, ter um impacto em várias vidas. E claro, como a perda do pai mudou as três pessoas que são o centro da série.

A quarta temporada voltou da sua pausa de inverno em janeiro — em Portugal estreou a 16 — e trouxe uma trilogia que me fez reapaixonar por “This is Us” — quando, muito francamente, já me estava a preparar para desistir dela. Não era por mal: o mistério da morte de Jack Pearson, que nos prendeu durante os primeiros episódios, estava mais do que esclarecido; a história de amor entre Jack e Rebecca, ainda que incrível, também explorada quase ao limite; houve muito enfoque no tio deles, perdendo um pouco o fio à meada. E sobretudo a tal nostalgia de infância que mexe tanto connosco, estava menos presente. 

Em The Big Three Trilogy seguimos um episódio em três partes. Ele chama-se “A Hell of a Week” (qualquer coisa como “uma semana infernal”) e acompanha, de cada vez, uma mesma semana vivida na perspetiva dos “Grandes Três”, os filhos de Jack e Rebecca: Randall, Kevin e Kate.

Com um gancho, logo de início; a tal ligação à infância. O primeiro episódio da trilogia começa aliás — e só mais tarde vamos perceber a importância disto — no passado, com Jack a deitar os três filhos pequenos (terão uns três anos) pela primeira vez nas suas camas de “crescidos”. Entende-se que terão largado as camas de grades e passado para um quarto novo e o pai explica-lhes tranquilamente para encararem o momento com calma: pede-lhes para descansar, tentarem dormir, que não tenham medo.

Claro que, como qualquer pai, Jack sente que vai acontecer precisamente o contrário, e prepara por isso uma ceia e uma maratona televisiva para estar disponível para o quase inevitável facto de um dos filhos — ou os três — precisarem dele nessa noite.

No tempo presente, os três irmãos vivem também momentos cruciais e definidores nas suas vidas: Randall, que luta constantemente por controlar tudo, sente-se de novo no limite da exaustão, ao tentar gerir a aparente demência da mãe — e a perceber que no fundo pouco ou nada controla. Kevin decidiu ficar sóbrio, assentar, viver uma história de amor igual à dos pais e ter filhos tudo no prazo de um ano — pois claro, porque não? E Kate tem o seu casamento com Toby em crise, a tentar sobreviver ao impacto de uma criança pequena com problemas de saúde, aos diferentes rumos que cada um segue. Praticamente tudo coisas com as quais muitos nos podemos identificar: daí o this is us.

Na primeira parte da trilogia, seguimos então a semana infernal de Randall. É ele quem primeiro aparece ao pai na sala, no flashback do passado. Diz-lhe que tem medo do escuro e não consegue dormir. Acompanhamos depois a ligação entre um medo de dormir, do escuro e insónias que estiveram presentes em toda a sua vida, e percebemos que ainda lá estão na vida adulta — o medo, que tentou combater como o pai lhe ensinou e recusando por isso terapia; as insónias, a ansiedade.

Na passada semana, a série não deu em Portugal porque a Fox terá decidido antecipar uma pausa nos Estados Unidos causada pelo debate do Estado da Nação. Superada a paragem, vamos poder ver o que resta da trilogia (e da quarta temporada) de fiada. E o que seguimos nesta quinta-feira, 6, foi a versão de Kevin desta semana infernal.

Já no episódio de Randall, o irmão tinha tido um ponto central: a saga do vereador fez um desvio para acompanharmos um pouco da procura de Kevin pelo amor, até que conhece uma rapariga que parece perfeita, Lizzie, mas tudo acaba mal. Criando já a ponte para o que iríamos ver de seguida, essa primeira parte terminou com Kevin a receber uma chamada de Sophie, o seu grande amor de infância e adolescência, com quem já esteve casado — e com quem, no fundo, todos queremos que ele acabe. Percebemos também que Kevin dormiu com alguém no final da sua semana, que pensamos ser Sophie.

Na parte 2 da trilogia, que vimos agora, o Kevin criança de três anos aparece ao pai, que finalmente deitou Randall, naquela primeira noite das camas de crescidos. Não consegue dormir porque tem saudades do móbil de animais que tinha na cama de grades (alerta nostalgia incontrolável) e o pai vai tentar encontrar o brinquedo.

No presente, o ator está a gravar um filme com M. Night Shyamalan (que aparece a fazer dele próprio), quando fala com Sophie e descobre que a sua mãe morreu. Como os dois namoraram basicamente durante décadas, a sogra teve um impacto muito forte na vida de Kevin, que por impulso, e mesmo sabendo que a ex está noiva, decide voltar a casa, à sua terra natal de Pittsburgh para o funeral.

Kevin a despedir-se da sogra.

O episódio é depois uma ode à nostalgia e ao amor: enquanto Kevin se recorda dos tais momentos chave que teve com a mãe de Sophie e que o marcaram — como o ela dizer-lhe repetidamente que acreditava nele como ator e que ele seria alguém — revivemos a história de amor dos jovens, percebemos que sempre foram o porto de abrigo um do outro, mesmo quando afastados. Pelo meio, Kevin regressa à adolescência e ao momento em que perdeu o pai, um acontecimento que fez querer fugir da cidade onde cresceu.

Tudo isto se desenrola com um incrível detalhe: o símbolo da ligação entre Kevin e Sophie é expresso num ritual que os dois têm, sobre um filme que nunca viram até ao fim: “O Bom Rebelde“, escrito e protagonizado por Matt Damon e Ben Affleck. Em adolescentes, os namorados estavam no cinema quando um problema técnico interrompeu o filme. Como percebemos que sempre se entenderam no improviso e no transformar o mau em bom, vão para o meio da natureza e fazem um pacto de nunca acabar de ver a história, já que provavelmente qualquer final será melhor do que o do real.

Entendemos depois que passaram o resto da vida, nos tais bons e maus momentos, no funeral de Jack Pearson ou mesmo quando afastados, com uma piada privada que tudo parece melhorar: as dezenas de finais possíveis que vão inventando para o personagem principal de “O Bom Rebelde”, Will.

Na ressaca da morte da mãe de Sophie, acabam por ver finalmente o filme até ao fim e cada vez é mais clara a incrível ligação dos dois, quando Sophie decide subitamente regressar a casa — e Kevin, de volta a Los Angeles, acaba então na cama com Madison, a melhor amiga de Kate. Numa nota à parte, escreve-se na imprensa norte-americana que houve um verdadeiro tumulto dos fãs da série com este momento, porque o criador do programa, Dan Fogelman, tinha basicamente jurado que ele nunca chegaria. Por um motivo simples: a atriz que interpreta Madison, Caitlin Thompson, é a mulher de Dan Fogelman na vida real e o escritor já explicara meio a brincar, meio a sério, que teria de ser louco para a envolver com o galã Justin Hartley, ou Kevin.

Só que não, envolveram-se, não importa, mundo: Kevin e Sophie vão acabar juntos, ponto final, não se fala mais nisso porque não há outra opção. Em criança de três anos, a mãe afinal já tinha dado o móbil e o moral da história era que quando perdemos um brinquedo ou algo de que gostamos afeiçoamo-nos rapidamente a outra coisa, mas não será esse o caso aqui — ou será?

Preparamos-nos assim para a parte 3 da trilogia já com um piscar de olhos à história de Kate, que também se avizinha complicada: em momentos passados, percebemos que teve uma relação difícil e possivelmente abusiva com o namorado da adolescência, Marc, o que poderá ter tido um forte impacto na sua vida —  e até na crise de casamento que atravessa agora.

E claro, para concluir, no flashback entra a Kate de três anos na sala onde o pai via televisão. Ainda não sabemos qual foi o seu motivo, ou o seu medo, mas uma coisa é certa: vai estar, como sempre, relacionado com o que viveu depois.

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