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“This is Us” lembra-nos de não deixar nada “para a próxima”

O episódio desta quinta-feira levou-nos a Nova Iorque e teve um final incrível e simbólico, ainda mais num momento como o que vivemos.

Nos tempos que correm, não há quem duvide que a esperança é essencial, crucial e necessária para tentarmos manter alguma serenidade. Mas no meio de tanta informação, de tantos receios, e de Portugal ter chegado a uma fase de uma pandemia mundial em que todos os que consigam devem mesmo ficar em casa, podemos também aproveitar para pensar no que faremos quando a vida voltar à normalidade — ou à maior normalidade possível, dependendo do que passarmos até lá chegar. 

Será, talvez, altura de dar mais valor a pequenos luxos e gestos, como conviver, passear, abraçar, estar com amigos e viajar. E será, muito provavelmente, ocasião para escolhermos algumas coisas que sempre dissemos que faríamos um dia, mas que fomos sempre adiando. Dizemos muitas vezes “fica para a próxima”, ou “talvez para a próxima”, mas a próxima chega e repetimos o mote e a desculpa, até ao dia em que percebemos que estamos a adiar demais, e pode simplesmente não haver tempo ou ocasião para resolver tantos “para a próxima”.

Sendo ou não deliberado — é possível que de certa forma até seja, já que os episódios são escritos relativamente perto da realidade e também nos EUA se vive o surto de coronavírus — a verdade é que o último episódio de “This is Us“, que passou na Fox Life esta quinta-feira, 12 de março, termina a lembrar-nos isso: que os “para a próxima vez” são para viver e fazer, para parar de adiar. Assim que for possível, claro.

Esta semana, a produção de Dan Fogelman leva-nos a “New York, New York, New York”. Assim mesmo, três vezes, como o título do episódio e como as visitas que acompanhamos dos Pearson, em várias fases das suas vidas, à cidade que nunca dorme.

São-nos mostradas três viagens da família Pearson: primeiro quando as crianças estão na escola e, a caminho de um clube de debate (claro) de Randall, têm apenas 24 horas para conhecer Mahattan. Para Jack, o pai, é uma estreia; já Rebecca declara, ainda antes da partida, a sua adoração pela cidade e as viagens que lá fazia em criança com a sua família, cheias de tradições e rituais.

Jack dá a cada elemento o direito a escolher algo para ver e visitar nessas 24 horas mas assim que chegam a Nova Iorque a coisa começa a correr mal, quando, num erro no metro, se perdem. O pai dos “Três Grandes” mostra-se frustrado com a situação e com toda a experiência, até que confessa a Rebecca não ter meios para proporcionar aos seus filhos o que o pai dela, por exemplo, lhes fez. Claro que Becca o consola explicando que com o bom do pai havia também muito mau — o que, já sabemos, com Jack não acontece — e ao longo do episódio, sempre que voltamos a essa visita, vamos percebendo como o casal mais uma vez deu a volta e conseguiu criar momentos inesquecíveis.

Na segunda visita, Jack já morreu e Rebecca, Randall e a já namorada Beth vão a Nova Iorque ter com Kevin e Sophie, para assistir a uma apresentação das aulas de representação de Kevin, entretanto já ali sediado.

Kevin tenta juntar a mãe com um professor seu de representação mas Rebecca, apenas um ano após a morte de Jack, reage mal; e depois melhor, dando até uma oportunidade ao professor; e finalmente muito mal, quando percebe que Kirby, o tal do arranjinho do filho, desdenha sem saber o gesto de Jack que a emocionara anos antes: andar de carruagem junto ao Central Park.

Na terceira visita, a do tempo atual, Randall e Kevin juntam-se à mãe em Manhattan para assistir finalmente à estreia do filme de Kevin.

Randall continua cada vez mais obcecado em resolver tudo sozinho, tudo à maneira dele, e tudo no imediato (a terapia que víamos ter iniciado, aparentemente não parece estar a surtir grandes efeitos); e insiste em pôr a mãe num ensaio experimental em St. Louis, durante nove meses, para tentar travar o Alzheimer.

Kevin, que tem passado tempo com a mãe e percebido que ela está mais preocupada em viver a vida do que curar a perda de memória, pede ao irmão que espere para o dia seguinte para conversar e assim aproveitem a passadeira vermelha da estreia do seu filme: até porque a Becca Carpe Diem, num vestido incrível, faz questão de ser o par do filho e o centro das atenções.

Mas Randal simplesmente não resiste, fala mesmo com a mãe, ainda discute com o irmão e Rebecca acaba por desaparecer, até que chegamos ao ponto final, crucial e mágico do episódio: aquele que, como sempre, une tudo e explica tudo.

É que na primeira viagem a Nova Iorque, Rebecca elegera como a sua coisa das 24 horas ir ao MET (Museu Metropolitano) ver um quadro específico, mas com os atrasos acabou por não conseguir.

Na sua segunda viagem, tentou ir ao MET ver de novo um quadro específico, mas depois do desgosto de se lembrar do passeio de carruagem com Jack, acabou por não ir.

Na terceira viagem, do tempo presente, Rebecca ia quase adiando novamente a visita ao MET para ver um quadro específico, mas depois da pequena discussão com os filhos, é mesmo lá que vai.

Quando Randall e Kevin a encontram, explica-lhes que em criança tinha lá ido com os seus pais e ficara fascinada com uma senhora que durante horas, literalmente horas, ficou a olhar para um certo quadro, aparentemente comum.

Diz ter prometido então a si mesma que, quando crescesse, seria essa senhora, cheia de estilo, serenidade e sobretudo tempo, a olhar para um quadro sem pensar ou se preocupar com mais nada, horas a fio, sem pressa, a aproveitar a arte e contemplar.

Só que, já o percebemos então, acabou por nunca conseguir lá ir, numa cadeia dos tais “talvez para a próxima” que decidiu, ali, começar a eliminar. E explica aos filhos que não quer tratamentos, só quer aproveitar e tratar de todos os “talvez para a próxima” que ficaram no caminho.

Já fora do MET, Kevin e Randall voltam a conversar e Randall explica que vive há anos obcecado com a ideia do “e se” mais importante da sua vida: e se, na noite do incêndio que causaria a morte de Jack, tivesse gritado ao pai, como quase fez, para não ir buscar o cão; e ele teria à partida ficado ileso e vivido todos estes anos com eles.

Fica criada a ponte para um dos episódios mais antecipados, porém mais temidos, de sempre de “This is Us”. É que a penúltima parte da quarta temporada vai, já se sabe, refletir sobre esse gigante “e se” e acompanhar, não sabemos bem em que moldes, a vida dos Pearson numa realidade paralela em que Jack tinha-se salvado, e está lá, vivido todos esses anos.

Nas redes sociais, anda tudo em modo entusiasmo versus receio, com muitos fãs a dizerem que talvez nem tenham coragem de ver. Alguns explicam: “não sei se consigo lidar com a verdade”-

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