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“The Pharmacist”: overdoses, homicídio e uma história real que está na Netflix

A série documental estreou no início de fevereiro e tem apenas quatro episódios. Foca-se num pai em busca de justiça.
A série conta uma história real passada há 20 anos.

Danny Jr. tinha apenas 22 anos quando foi assassinado a tiro em abril de 1999 num bairro problemático de Nova Orleães, nos EUA. Estava a tentar comprar crack, droga em que era viciado, quando foi atingido.

Como tantas outras séries sobre crimes da vida real, “The Pharmacist” começa com uma investigação pobre da polícia, que não obteve quaisquer resultados. A produção documental estreou na Netflix a 5 de fevereiro e tem apenas quatro episódios — num total de 3h35 de duração.

Esta é a história de um herói improvável, um farmacêutico chamado Dan Schneider — o pai de Danny Jr.. Viviam na pequena comunidade de St. Bernard Parish, no estado do Louisiana. A polícia não tinha pistas sobre o homicídio do seu filho, muito por causa da cultura daquele bairro de não se falar com as autoridades.

Schneider, que antes tinha tido uma vida comum de família de classe média com dois filhos, decidiu fazer o trabalho de detetive para tentar perceber o que tinha acontecido a Danny Jr.. Durante semanas, tentou falar com as pessoas que viviam perto do local onde o crime tinha acontecido, numa tentativa de chegar a alguém que pudesse ter testemunhado o ato.

A polícia, que ainda investigava o caso, disse que tinham encontrado uma testemunha ocular chamada Jeffery Hall, o que fez com que Schneider tivesse alguma esperança. Mas as declarações de Hall não foram consideradas como fiáveis, pois a pessoa que ele supostamente tinha identificado como o assassino estava detida na noite em que Danny Jr. morreu.

Schneider continuou de forma paciente a sua investigação — e tinha um método minucioso. Gravava as conversas que tinha com todas as pessoas, fosse ao vivo ou por telefone, para registar todos os detalhes que pudessem ser pistas. O pai da vítima acabou por conhecer Shane Redding, uma vizinha que disse ter visto o crime a acontecer. Redding revelou que o assassino era, na verdade, Jeffery Hall (a testemunha original).

Ao depor contra Hall (que era filho do seu melhor amigo, tinha na altura apenas 15 anos e vivências ligadas às drogas), Shane Redding teve de ser colocada num programa de proteção de testemunhas. Jeffery Hall assumiu a culpa e foi condenado a 15 anos de prisão — serviu 13 deles.

A história de um pai de luto e à procura de justiça pelo filho poderia acabar por aqui. Mas não foi esse o caso para Dan Schneider. Em “The Pharmacist”, este é apenas o início que despoleta tudo o resto. A produção mostra como este pai — farmacêutico desde 1975 —, que tinha um ótimo equipamento de som e um renovado sentido de justiça, começou a aperceber-se da crescente onda de vício de opióides.

Muitos clientes, sobretudo entre os 18 e 25 anos, iam à sua farmácia com receitas médicas para OxyContin, uma dessas substâncias analgésicas poderosas e viciantes ligadas a milhares e milhares de overdoses nas últimas décadas nos EUA, que se tornou um verdadeiro flagelo social, diminuindo mesmo a esperança média de vida nalgumas zonas do país — o estado do Louisiana era um dos mais afetados.

O problema mantém-se. Segundo a revista “Time”, só em 2017 morreram 50 mil pessoas por causa de opióides nos EUA. “The Pharmacist” mostra o início desta crise de saúde nacional, da perspetiva de Dan Schneider, que começou a gravar conversas com alguns dos clientes da farmácia e a fazer questões sobre como tinham aquelas receitas.

Schneider queria de alguma forma redimir-se, depois de admitir que não se tinha apercebido sequer da adição do filho ao crack, e tentar melhorar a comunidade em que estava envolvido. A sua investigação levou-o a perceber que a maior parte das receitas vinham de uma médica chamada Jacqueline Cleggett, que tinha uma clínica em Nova Orleães.

O farmacêutico dizia que as receitas costumavam ser muito parecidas, com as mesmas quantidades, e além de OxyContin incluiam muitas vezes Xanax e Soma (que resultava numa combinação de drogas famosa para muitos toxicodependentes). Cleggett era uma de vários especialistas médicos pelo país que vendiam receitas deste género para pessoas que apenas se queriam drogar.

A luta de Schneider continuou de forma persistente, mesmo que com dificuldades em avançar, mas ele acabou por colaborar com o FBI, a DEA e outras autoridades policiais que tentavam investigar os casos. Cleggett acabou por se declarar culpada do crime, mas não foi condenada a uma pena de prisão, apesar de a sua licença para exercer a profissão ter sido suspensa.

“The Pharmacist” mostra como um único homem conseguiu enfrentar um sistema muito maior do que ele e conseguiu provas que levaram a que as coisas mudassem — tanto no caso da morte do filho como no problema sistemático das drogas por receita médica. Num momento de luto, Schneider encontrou uma forma de se ajudar a si próprio: tentar salvar os outros (que, como o filho, estavam mergulhados em dependências complicadas).

A série aproveitou as horas e horas de gravações captadas por Schneider para contar a narrativa. O farmacêutico é o principal entrevistado, mas Jeffery Hall e Jacqueline Cleggett, entre outros intervenientes, também dão os seus depoimentos na produção.

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