Televisão

Sacha Baron Cohen, o pior pesadelo dos racistas e supremacistas está de volta

Acusado de abusar dos estereótipos, diz que toda a vida combateu a intolerância. E quer voltar a fazê-lo.
Ele ajuda os xenófobos a saírem do armário.

Ele fê-lo outra vez. Quando subiu ao palco de jardineiras e chapéu de cowboy, nenhum elemento da milícia de extrema-direita pró-Trump desconfiou das intenções daquele que parecia ser apenas um dos animadores do evento. O convidado sabia exatamente o que dizer para puxar pela audiência.

“Quem usa máscaras, o que lhes vamos fazer? Injetá-los com a gripe de Wuhan”, grita. A plateia faz o mesmo. Depois, a letra repete-se, mas o alvo muda. Jornalistas, Obama, Clinton, Fauci. E os membros da Organização Mundial da Saúde? “Cortá-los aos bocados como fazem os sauditas”.

Escondido por debaixo das barbas falsas estava um homem habituado a estes golpes: o humorista britânico Sacha Baron Cohen. A organização do evento, contactada uma semana antes por uma organização que se propôs a pagar o evento e levar o músico sulista Larry Gatlin, disse que sim. Para sua surpresa, foi outra banda que atuou.

Rapidamente perceberam que se tratava de um embuste e tentaram arrastar Cohen do palco. Protegido pela própria equipa de seguranças, fugiu numa ambulância alugada que estava estacionada a poucos metros. Voltou mais tarde, disfarçado de jornalista, para sondar os participantes sobre o que tinha acontecido.

Nem outra coisa seria de esperar do homem que viveu a sua vida na pele das personagens que criou durante duas décadas para satirizar e fazer rir. É também com alguma estranheza e timidez que fala em nome próprio, naquela que é “provavelmente a minha personagem menos popular, Sacha Baron Cohen”, revelou numa conferência em 2019.

Há precisamente vinte anos, quando o humorista londrino de origem judaica se tornava famoso como Ali G — que retratava um homem branco com maneirismos roubados à comunidade negra e jamaicana da capital britânica —, as críticas amontoavam-se. Ofensivo, racista, degradante, que “serve todos os clichés e linguagem estereotipada”, escreveu-se à época.

Influenciado pelo comediante britânico Peter Sellers, toda a sua carreira assenta em personagens estereotipadas. A primeira, ainda antes de Ali G, foi Borat — Kristo na sua primeira versão —, o jornalista cazaque que transborda machismo, xenofobia e antissemitismo.

Seguiu-se o apresentador de programas de moda Brüno, um gay extravagante. Em 2012 criou o General Aladeen, um ditador imaginado à imagem de Muammar Khadafi. E mais recentemente, Erran Morad, um militar antiterrorista israelita; Billy Wayne Ruddick, um conspiracionista de extrema-direita; ou Nira Cain-N’Degeocello, um professor ultra-liberal.

Todas as personagens têm um propósito: servir de fachada para enganar os entrevistados e, claro, encaixar uma ou outra piada que faria qualquer adolescente roncar de tanto rir. Baron Cohen reconhece que nem sempre as suas sátiras são inteligentes. Por vezes — muitas vezes — o humor é assumidamente nonsense. Mas nem sempre.

Cohen admite que “provavelmente metade” da sua comédia é “absolutamente juvenil” e “a outra metade é completamente pueril”. “Admito que não havia nada de particularmente elucidativo em correr completamente nu, no papel de Borat, no meio de uma conferência de corretores”, confessou em 2019.

“Como adolescente no Reino Unido, marchei contra o fascismo da Frente Nacional e contra o Apartheid. Como estudante, viajei pela América e escrevi uma tese sobre os movimentos civis”, revela

Isso não significa que as personagens não tenham servido para outros fins mais didáticos. Numa era em que os programas de humor como “The Daily Show” ou “Late Night with John Oliver” servem, para muitos, como primeira fonte de notícias, o valor da comédia como ferramenta política sai reforçado. Baron Cohen sabe-o.

“A verdade é que durante toda a minha vida lutei contra o fanatismo e a intolerância. Como adolescente no Reino Unido, marchei contra o fascismo da Frente Nacional e contra o Apartheid. Como estudante, viajei pela América e escrevi uma tese sobre os movimentos civis. Como comediante, tentei usar as minhas personagens para baixar a guarda das pessoas, de forma a que revelem no que realmente acreditam — incluindo os seus próprios preconceitos”, revelou em 2019 como convidado para discursar num evento da Anti-Defamation League, uma organização que luta contra a disseminação de discursos de ódio.

Curiosamente, alguns dos momentos mais hilariantes e mais famosos da carreira de Cohen são precisamente aqueles em que as máscaras dos entrevistados caem, sem que eles percebam. O ridículo é exposto sem margem para contraditórios.

Aconteceu precisamente com Borat, numa visita do falso jornalista a um bar no meio de nenhures no estado do Arizona. Subiu ao palco, agarrou no microfone e colocou uma multidão a cantar “atirem o judeu para o poço”. Para que serve uma personagem antissemita? Precisamente para revelar “a indiferença das pessoas perante o antissemitismo”, nota Cohen.

Os alvos não são apenas pessoas comuns. Cohen também aponta a mira para cima. Isso aconteceu em 2008, num encontro com um congressista republicano do Texas e então candidato à corrida presidencial. Como Brüno, encurralou o político no quarto e tentou seduzi-lo. Ron Paul perdeu as estribeiras quando Cohen tirou as calças e sai de rompante. “Este gajo é uma bicha”, gritou.

Noutra cena do filme lançado em 2009, Brüno decide converter-se à heterossexualidade e convence um professor de artes marciais a ensiná-lo a defender-se de homossexuais. A resposta foi clara: “bate-lhes se eles se aproximarem”. E ainda deixa uma dica para os detetar no meio de uma multidão: “Eles são extremamente simpáticos. E alguns nem sequer se vestem de forma diferente de mim e de ti”.

De volta à América rural, um heterossexual Brüno volta a agitar o caldeirão homofóbico e decide beijar um homem no local mais repleto de testosterona que encontrou: um combate numa jaula no meio do Arkansas. E no papel de um empreendedor liberal, arriscou propor a uma comunidade a construção da maior mesquita no mundo a seguir a Meca — uma reunião municipal onde foi preciso tirar as armas aos participantes e armar Cohen com um painel à prova de bala.

Alguém confessou para a câmara ser “racista apenas com muçulmanos”. “Isso demonstrou o potencial violento da homofobia (…) e a aceitação da islamofobia”, explica.

Perante o reacender dos movimentos civis, sobretudo nos Estados Unidos, Cohen tem estado estranhamente ausente da comédia. Protagonista da minissérie “The Spy” da Netflix, é um dos protagonistas de “The Trial of the Chicago 7”, que conta a história de sete americanos acusados pelo governo de incitarem motins anti-guerra no final da década de 60.

Não se sabe se a mais recente onda de censura será um obstáculo ao regresso das personagens do humorista, embora os seus programas tenham, até ao momento, escapado incólumes. Talvez nem todos. A última incursão na comédia aconteceu em 2018 com “Who Is America”, uma série de sete episódios que apresentou novas caras ao bizarro mundo de Baron Cohen. As críticas não foram brilhantes, embora tenha cumprido o prometido: gerou ondas de choque que provocaram demissões em altos cargos governativos. E quando isso não aconteceu, os momentos de pura vergonha alheira bastaram.

Transfigurado no papel o Coronel Erran Morad, engendrou um plano para acabar com os tiroteios em massa nos Estados Unidos: ensinar crianças a usarem armas de fogo. E consegue sentar-se frente a frente com dois congressistas republicanos, Dana Rohrabacher da Califórnia e Joe Wilson da Carolina do Sul. De forma inacreditável, ambos aceitam patrocinar a ideia. Wilson até participa no vídeo promocional que impinge armas disfarçadas com peluches.

A principal vítima — e estrela do momento mais hilariante — foi o congressista da Geórgia, Jason Spencer, que se demitiu 48 horas depois do segmento ir para o ar. Nele, o Coronel Morrad convence o político a apoiar a proibição do uso da burqa, a gritar várias vezes a palavra negro, a imitar sotaques asiáticos — e finalmente a usar as nádegas para intimidar terroristas do ISIS. Que ele fez vezes sem conta, tentando encostar o rabo a Morrad enquanto gritava “USA, motherfucker!”.

As habilidosas armadilhas — como Ali G, muitas vezes simulava ser um membro da equipa de filmagem, até ao momento em que se sentava frente ao entrevistado — não lhe valeram só críticas, mas também inúmeros processos em tribunal. Quase todos mal sucedidos. Os que não foram rejeitados pelos juizes, foram resolvidos em acordos extrajudiciais, pagos pelas produtoras.

O impacto de “Who Is America” pode ter-se revelado decisivo. No final de 2018, o próprio Cohen revelou que não haveria espaço para uma segunda temporada. “Nunca mais vou conseguir colocar um político com o rabo de fora a gritar que Deus abençoe a América e a gritar negro”, explicou ao “The Hollywood Reporter”. Ainda assim, a produtora Showtime recusou sempre afirmar que a série não regressaria.

O recente ataque em personagem pode indicar que afinal, dois anos depois, os alvos voltaram a baixar a guarda e que a sátira do humorista pode voltar a atacar. É que Cohen tem uma ambição além de nos fazer rir e declarou-a na pele da sua personagem menos famosa: “O objetivo de uma sociedade deve ser o de se certificar que ninguém é atacado, assediado ou assassinado por ser quem é, por vir deste ou daquele sítio, por amarem este ou aquele ou pela forma como rezam. Se esse for o nosso objetivo — se dermos prioridade à verdade sobre as mentiras, à tolerância sobre o preconceito, à empatia sobre a indiferença e aos peritos ao invés dos ignorantes — talvez sejamos capaz de salvar a democracia. Talvez consigamos encontrar um lugar para a liberdade de expressão e, mais importante, fazer com que as minhas piadas continuem a funcionar”.

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