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Qual é o segredo de “Rick and Morty”, a série animada que é um fenómeno mundial?

A série de culto já deu origem a motins às portas da McDonald's e a uma legião de fãs obcecados. Por cá, é uma das mais vistas na Netflix.
Bem-vindo ao multiverso de Rick e Morty.

Algures em 1998, a McDonald’s resolveu criar um molho asiático especial, dedicado a “Mulan”, o filme da Disney inspirado numa lenda chinesa. A edição limitada chegou aos restaurantes tão depressa quanto desapareceu — e nunca mais ninguém se lembrou da versão fast-food do molho teriyaki. Pelo menos até 2017, quando dois argumentistas acharam que seria hilariante passar para a série que produziam a obsessão de um deles pelo molho Szechuan.

Entretanto, no gabinete de marketing da cadeia norte-americana, avistou-se uma oportunidade ideal para fazer ainda mais dinheiro. Os dólares foram canalizados para uma campanha e depois de muitos pedidos dos fãs, anunciou-se que o molho voltaria a ser vendido apenas por um dia. O problema? Subestimaram os fãs de “Rick and Morty”, não só na quantidade mas na volatilidade da sua personalidade. Milhares de fãs raivosos invadiram os restaurantes a exigir mais molho, que esgotou em poucos minutos.

A paciência de quem esperou horas a fio em filas esgotou-se e houve lugar a invasões, gritos, insultos. Autênticos motins formaram-se às portas de diversas filiais do McDonald’s, que obrigaram à intervenção da polícia. O caso polémico oficializou a passagem da série de animação para adultos de objeto de culto a, finalmente, um caso sério de popularidade nacional e mundial.

Sete anos depois da estreia, é difícil contabilizar as críticas elogiosas e os aplausos que a série animada tem recebido, além de um valioso Emmy para Melhor Programa Animado, em 2018. Com a quarta temporada prestes a terminar — o último episódio fica disponível a 31 de maio, na Netflix —, é já um fenómeno mundial.

Os números não explicam tudo, mas ajudam a desvendar parte do puzzle. A estreia da última temporada, a 10 de novembro, juntou nos Estados unidos mais de 2,3 milhões de pessoas, o que fez de “Rick and Morty” a série transmitida na televisão por cabo mais vista desse dia — à frente de “The Walking Dead”. Na versão nacional da Netflix, tem estado presente na lista dos 10 conteúdos mais vistos diariamente.

Não só atrai milhões de espetadores como também é uma moderna e eficiente máquina de fazer dinheiro: deu origem a bandas desenhadas, videojogos e jogos de tabuleiro, já para não falar das centenas de objetos de merchandising, vendidos a bordo de uma carrinha especial inspirada numa das personagens. 

Outra forma de medir o sucesso de uma série? Se o episódio do molho se Szechuan não foi suficiente, basta observar o impacto na cultura pop. Depois de verem um tema usado na banda sonora de um episódio, os Blonde Redhead voltaram aos tops da Billboard, vinte anos depois do lançamento da música.

O que é “Rick and Morty”?

A série acompanha a vida da família Smith, disfuncional quanto baste sem a presença do avô Rick Sanchez, um cientista genial com problemas de alcoolismo. Ao seu lado está Morty, o neto bem intencionado e pouco dado a raciocínios complicados. O resumo da insanidade familiar da criação de Dan Harmon e Justin Roiland está bem patente num dos episódios preferidos dos fãs, “Total Rickall” — a referência a filmes e marcos da cultura pop é recorrente.

Quando Rick chega à mesa de família para o pequeno-almoço, é surpreendido com a presença de uma personagem nunca vista, o tio Steve, imediatamente alvejado pelo avô. Tratava-se de um extraterrestre parasita que invade mundos ao implantar memórias falsas nos habitantes, o que lhes permite infiltrarem-se de forma discreta. São vinte minutos de flashbacks, confusão e humor, uma espécie de impressão digital presente em quase todos os episódios.

Harmon e Roiland nunca esquecem as referências e “Total Rickall”, revelam, foi inspirado em “Buffy, a Caçadora de Vampiros”, por estranho que pareça. Quando na quinta temporada é surpreendentemente anunciado que a protagonista tem uma irmã — que nunca apareceu ou foi sequer mencionada —, uma luz acendeu-se nas cabeças dos dois criadores.

“Estavam todos a tratar a nova personagem como se sempre tivesse estado lá, mas tu, como espectador, sabes que a Buffy nunca teve uma irmã. Por isso acabas por encontrar uma explicação sobrenatural para a coisa”, revela Ryan Ridley, um dos argumentistas de “Rick and Morty”.

Dan Harmon, um dos criadores, descreve-a como uma espécie de cruzamento entre “Os Simpsons” e “Futurama”, na medida em que entrelaça a vida familiar e uma forte componente de ficção científica.

Dan Harmon, um dos criadores, descreve-a série como um cruzamento entre “Os Simpsons” e “Futurama”

A série teve origem numa pequena paródia da saga “Regresso ao Futuro”, criada por Roiland para um festival de curtas, intitulada “The Real Animated Adventures of Doc and Mharti”. Harmon, que trabalhou depois como argumentista em “Community”, foi convidado pela produtora Adult Swim a criar uma série animada. O convite chegou a Roiland e formou-se uma dupla de sucesso.

“Rick and Morty” é um cocktail explosivo de diversão e drama, de piadas feitas à custa de conceitos científicos complexos, arredondadas com humor escatológico. Nada acontece por acaso e a atenção ao pormenor e às referências da cultura deram origem a um embrulho peculiar que fez nascer um verdadeiro culto de fãs. Só que, contrariamente ao que costuma acontecer com estes nichos, as personagens saltaram para o circuito comercial e viciaram mesmo aqueles que olhavam de esguelha para séries animadas.

Há mais para lá do vernáculo e da aparente e superficial futilidade das personagens. Rick é o exemplo paradigmático: um génio que balança entre o alcoolismo e a depressão. “Wubba lubba dub dub”, a expressão que usa recorrentemente e que parece não ser mais do que mais um disparate é, na verdade um grito por ajuda — revelam-no os próprios criadores na primeira temporada, cuja tradução numa língua alienígena é “estou mergulhado numa enorme dor, por favor ajudem-me”.

“Não é realista pedir que assistam a um programa durante tanto tempo sem que consigam ver nele algo que também têm no seu íntimo, algo que nos liga a todos”, revelou Dan Harmon.

Os fãs tóxicos

Os motins à porta dos restaurantes da McDonald’s tornou-se no primeiro indício de que algo de estranho se passava com a base de fãs inveterados de “Rick and Morty”. A imprensa apelidava-os de “tóxicos”, na sua maioria millenials que encontravam na série um escape para uma sociedade que os atirava para sucessivas crises.

Os protestos de 2017 não se ficaram pelas palavras de ordem gritadas nas ruas. A obsessão levou a que alguns fãs mais fanáticos gastassem pequenas fortunas para agarrar amostras do molho com quase vinte anos e que ainda se encontravam no Ebay. Um deles chegou a pagar mais de 14 mil dólares. 

Foram feitos apelos a boicotes nacionais à marca e houve até quem pretendesse avançar com uma ação em tribunal. Perante a pressão, a McDonald’s foi forçada a emitir um pedido de desculpas.

O ano não terminou sem nova polémica, desta vez ainda mais inesperada. Perante as notícias de que a equipa de argumentistas havia sido remodelada — o que levou à inclusão de mais mulheres num grupo composto apenas por homens — para repor um equilíbrio de géneros, alguns fãs reagiram mal. Do bullying no Twitter à partilha de dados e informações pessoais dos novos membros, as reações ofuscaram as boas críticas que a terceira temporada recebia.

“Abomino estas pessoas”, disse Harmon após o episódio, referindo-se aos fãs responsáveis pela onda de críticas que visaram as argumentistas. “Parte deste comportamento explica-se com uma espécie de subcultura assente na testosterona, onde tipos se congratulam entre si por atormentarem estas mulheres (…) acho tudo isto nojento. Estes idiotas, que querem proteger o conteúdo de que se acham donos — e de alguma forma combinam isso com a sua necesidade de se sentirem orgulhos por algo, normalmente a sua raça ou género”, tentou explicar, antes de voltar ao ataque.

“Falo por mim, que não quero que a série tenha uma posição política. Ao mesmo tempo, estes tipos não são políticos e não representam a política. Representam apenas uma merda qualquer que eu acreditava quando tinha 15 anos”.

Fanatismos tóxicos à parte, o génio louco de Rick e a inocência de Morty vieram para ficar. O final da terceira temporada trouxe uma garantia: haverá mais 70 episódios para ver, dez deles lançados já na quarta temporada, que termina a 31 de maio. Mais virão e, pelo que garantem os criadores, o melhor ainda está por ver.

Com muitas boas ideias guardadas e prontas a usar, vão jogando com as propostas mais loucas e arriscadas. Harmon confessa: “Eu e o Justin escrevemos a série como se fosse durar por mil episódios. E sempre aderimos ao conceito de ‘fazer as coisas más primeiro’”.

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