Televisão

Pedro Barroso sobre os conteúdos portugueses na HBO: “Pode ser uma alavanca”

É um dos protagonistas de “Vidago Palace”, que estreou na HBO Portugal — plataforma onde podemos encontrar as suas sugestões.
"Vidago Palace" tem seis episódios.

Se subscreve a HBO Portugal, é provável que, nos últimos dias, tenha passado na plataforma pelas sugestões de Pedro Barroso. O ator português foi convidado para selecionar dez conteúdos disponíveis no catálogo que recomende aos espectadores. “Succession”, “Chernobyl”, “Os Sopranos”, “Patrick Melrose” e “A Guerra dos Tronos” são alguns deles.

É uma forma de promover também “Vidago Palace”, série luso-galega que estreou originalmente em 2017, na RTP, em Portugal, e na TV Galicia, em Espanha — e que chegou este domingo, 31 de maio, à HBO Portugal. É mais uma produção nacional que se junta ao catálogo.

Nesta história, Pedro Barroso interpreta César Augusto, o noivo de Carlota, filha dos condes de Vimieiro — César é descendente de uma família de emigrantes portugueses que, embora não tenha título, tem bastante dinheiro, algo que falta nesta altura particular aos condes de Vimieiro, que vivem de aparências.

Carlota tinha aceitado abdicar da sua felicidade para beneficiar a família, mas tudo muda quando conhece outra personagem, Pedro, no hotel Vidago Palace, no concelho de Chaves (onde todo o projeto foi filmado).

A partir daí, vai ter de lidar com os vários interesses das famílias, as conveniências sociais, a temida polícia da fronteira e até mesmo a guerra civil espanhola. Leia a entrevista da NiT com Pedro Barroso a propósito deste relançamento.

É bom sentir que os projetos podem ter uma vida além do momento da gravação e da transmissão original?
É uma boa surpresa e é bom tu sentires… é algo que queremos sempre com os produtos que fazemos. Por exemplo, as telenovelas têm muitas vezes a intenção de vender para fora, Portugal produz muito e vende muito para o mercado latino-americano. Mas “Vidago Palace” era uma série que todos desejávamos que fosse um bocadinho além-fronteiras. O [argumentista] Henrique Oliveira e a [produtora] HOP! lutaram muito por isto. E é realmente um projeto com primor, foi um ótimo trabalho de ambas as equipas. Acho que ficaria um bocadinho aquém de todas as nossas expetativas isto não ir para fora. Aliás, já tinha ido, acho que esteve no Canadá. Mas chegar à HBO Portugal é regressar ao berço, a Portugal, outro primor, outro olhar deste produto interno com qualidade. Para nós, enquanto atores, é um privilégio estarmos nesta plataforma. Pode ser uma alavanca. Mas mesmo sem essas expetativas, acho que acaba por prestigiar todo o trabalho que fizemos.

E apesar de ser um regresso a Portugal, agora a série pode chegar a outro público.
Sim. Na altura foi muito bem promovida, mas com a quantidade de escolha que existe hoje em dia, até com a rival da HBO, a Netflix. Acho que a HBO tem ótimos produtos e as pessoas centram-se muito na Netflix. Mas aqui acho que é uma ótima oportunidade para ver a série desta forma agradável que é agarrares num episódio um após o outro. É bom porque retrata um bocadinho da nossa história e da cultura e todas as tradições que se viviam naquele tempo e espaço específico. 

A HBO tem apostado em ter filmes e séries nacionais no catálogo. É importante ter esse reconhecimento?
É, é o reconhecimento de um produto interno. Temos que continuar a valorizar o nosso trabalho, porque temos boas qualidades, bons atores, bons técnicos, boas equipas de produção. Há muitas equipas que vêm filmar cá em Portugal e o nosso trabalho começa a ter mais visibilidade.

Em relação a esta série, é algo de que tem boas memórias, de que gostou muito de fazer?
Deixa-me sem dúvida boas memórias. É um projeto fora da minha linha de construção, as minhas personagens nas novelas têm histórias mais abertas, aqui são só seis episódios, nós tínhamos acesso do primeiro ao último guião, portanto, dá para construíres a personagem de forma diferente, dá para o leres com outra harmonia. Depois, porque era algo de época, o que é fora da minha zona de construção. Nunca tinha feito nada de época. Lembro-me de no início da minha carreira, apesar de ter tido sempre trabalho, nunca parei — a não ser no ano passado por opção própria — pensei que as tatuagens poderiam ser um handicap. E o Henrique Oliveira não levou isso como um entrave, numa das cenas que eu entrei tinha de estar mais despido, mas foi toda muito bem jogada para que pudesse acontecer. E deu-me imenso prazer porque estávamos numa energia muito boa a gravar no Vidago Palace. Eu quis ficar lá os dois meses, fiquei interno, o que para mim é ótimo, até fui uma semana antes, eles deixaram-me conceber a personagem… Num dos meus rasgos de loucura pedi-lhes para ir uma semana antes, se me emprestavam uma roupa da personagem, portanto eu no início já andava por Vidago vestido e com aquele bigode, era uma dicotomia em relação a todas as pessoas que lá estavam. Foi bom para me ajudar a construir a personagem, estive a servir às mesas nos pequenos-almoços [risos], pensei que me podia ajudar com o lado sublime que os empregados na época tinham, no trato e na delicadeza. A vila de Vidago recebeu-nos todos muito bem, o que ajudou. E como estamos a falar de uma série, gravas com mais calma, com mais tempo. 

Obviamente fazer um projeto destes é muito diferente do que fazer uma novela. Gostava de participar em mais formatos deste género?
Eu gosto de tudo, de bons desafios acima de tudo, de boas histórias e personagens. Obviamente que um projeto destes que depois tem este resultado é um privilégio. A mim agrada-me acima de tudo fazer projetos que me desafiem. Cada personagem tem um mundo interior muito grande e o que me apaixona enquanto ator é perceber cada personagem, crescer com ela e dar vida a uma história.

Qual é a sua próxima personagem?
Neste momento estou a continuar a gravar a novela da SIC, agora retomámos, o meu primeiro dia de gravações será na quarta-feira [3 de junho]. É a quarta temporada de “Golpe de Sorte”, tem sido incrível trabalhar nisto, é uma personagem com uma carga emocional de que gosto, é talvez a personagem mais densa que eu tenha feito até hoje. E mais para o fim desvenda-se um bocadinho do seu background e do porquê desta natureza intrínseca menos boa. 

Ainda não retomou as gravações, mas agora será com uma nova forma de trabalhar.

Sim, fizemos todos os exames da Covid-19, agora temos todas as medidas de precaução, estamos no estúdio a tirar e a pôr máscaras…

A logística tornou-se mais chata?
Ainda não impactei com ela, mas acho que se torna… não vamos chamar chata, porque é necessária. Só posso dar realmente o feedback quando gravar, mas é necessário para retomarmos a nossa vida e a nossa profissão com uma qualidade e regras necessárias. Depois de termos estado confinados, acho que nos adaptamos. 

Na plataforma da HBO estão neste momento algumas sugestões suas, de conteúdos que se podem ver no serviço.
Sim, foram eles que me convidaram, acho que a HBO tem ótima qualidade nas séries que tem, acho que existem produtos muito bem escolhidos. Algumas delas eu conhecia, outras perguntei aqui… eram dez, era uma lista assim mais extensa. Houve algumas que não vi na totalidade, nem metade, mas são as séries que vi pelo trabalho num todo, ou mesmo por um ator específico. Por exemplo, “Taboo” está fora da HBO, mas um ator de que gosto muito é o Tom Hardy, e há papéis que às vezes vou ver e vejo só apontamentos dele. Se calhar o meu olhar é mais clínico, se calhar é diferente. Fugindo da HBO e indo para a Netflix, apaixonei-me pelo trabalho de um ator que é o David Chocarro, que está na série “El Recluso”. Eu não gosto do protagonista, mas o David Chocarro, que faz de Santito, está incrível. Acabei por ver a série toda só para o ver e fiquei super desiludido quando ele acaba por morrer. Porque eu estava apaixonado pelo trabalho dele. Ele é um galã das telenovelas mexicanas. Por isso aquilo que vejo depende muito, às vezes é por uma história diferente da do protagonista, ou depende do meu mood, mas vou muito atrás de atores. As séries são aquilo que me alimenta, que me inspira, não vejo como um complemento ao meu trabalho nem como distração, vejo como elementar.

A HBO e a Netflix, entre outras plataformas, têm estado cada vez mais presentes em Portugal, mas faltam ainda as produções originais portuguesas, feitas cá e produzidas ou financiadas por estas plataformas. É isso que falta?
Acho que é um caminho, a Netflix recentemente abriu um concurso. Nós costumamos dizer que somos esquecidos porque estamos aqui na ponta da Europa, depende muito da forma como olhamos para as coisas, porque temos muita qualidade, temos equipas muito boas. Acho que é o caminho em termos de investimento, e já começa a haver muita curiosidade pelo nosso trabalho. Já há muito tempo que se filmam coisas cá, mas para os atores começa a haver um interesse maior, enquanto mercado aberto. É sermos perseverantes como temos sido, pois temos aberto caminho de forma generosa, temos bons profissionais que têm alavancado e de certa forma têm estado a abrir caminho para nós, acho que é um legado.

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