Televisão

O “Big Brother” chegou ao fim — agora vamos descascar cebolas ao domingo à noite

O reality show acabou numa gala cheia de surpresas. O cronista e humorista Miguel Lambertini conta como tudo aconteceu.
Era bom mas acabou-se.

Oitenta e quatro dias depois da estreia, chegou ao fim o Big Brother 2020. E a pergunta que se impõe agora é: o que é que vamos fazer aos domingos à noite? Ver vídeos de bebés a dançar breakdance para nos lembrarmos do Hélder? Descascar cebolas para poder chorar à vontade enquanto nos lembramos da Soraia, do Diogo e da Noélia? Ou, porque não, encostar um berbequim ao ouvido durante meia hora, quando tivermos saudades dos momentos em que o Cláudio Ramos cantava? Vai ser duro…

Não vai nada, daqui a um mês estreia um novo reality show e já ninguém se vai lembrar do lindo cabelo do Fábio, do sotaque matarruano do Rui, dos “whatdafucks” do Edmar, do olhar sexy-psycho do Pedro Soa, do nome da Slávia, da falta de noção do Hélder, dos irritantes oi, oi, ois da Angélica, do corte e costura da Sónia, da “patatina” estaladiça da Jéssica, daquela meio homofóbica camisolinha pelos ombros do Pedro Alves, das bácoras da Sandrina, do twerk da Iury quando se esquecia de ser Miss, da cara de quem te vai matar dentro de poucos segundos do Daniel Monteiro, da menopausa da Teresa, das pernas da Ana Catharina que ela abre para quem quer, como quer e quando quer, do cu sem opinião da Noélia, da pastilha queimada do Diogo, e do cabelo pantene da Soraia, do qual poderemos não nos lembrar mas cujo coração de oiro ficará para sempre nas nossas memórias.

É verdade, a Soraia ganhou e muito bem, por várias razões. Primeiro porque parece ser uma criatura que é impossível não gostar, depois porque tem uma história de vida tramada e vai dar um uso digno ao prémio — ao contrário de uns e outros que iam gastar tudo em, compras, álcool e drogas, como deve ser aliás — e finalmente porque não fez um jogo sujo e isso valeu-lhe a preferência dos portugueses.

O Diogo também seria um justo vencedor porque fez um jogo diferenciador e parece ser um tipo decente, mas também por isso, agora cá fora, terá certamente muitas oportunidades e capacidade de capitalizar o seu mediatismo, mesmo não tendo ficado em primeiro. A verdade é que o Diogo não se pode queixar, entrou para a casa com uma mala e um par de óculos e sai de lá cheio de boas memórias, muitos fãs e uma namorada que é “mára”, ora se isto não é ganhar não sei o que é.

Eu, a partir de agora, a ver tv aos domingos à noite

Numa edição do Big Brother em que tanto se falou da importância da igualdade de género e do empoderamento feminino e em que as finalistas eram maioritariamente mulheres seria ridículo o único homem sair vencedor. Por isso parabéns à Soraia, mas principalmente à mãe da Soraia que a criou e que para mim, depois da D. Soledad claro, ganha o prémio MILF BB 2020.

A gala em si não foi nada de especial, verdade seja dita, tanto que ainda aproveitei para espreitar o filme do Tony, que estava a dar na SIC, para rever essa grande obra do cinema português. Sim eu fui ver ao cinema, tive oportunidade de assistir à antestreia e caso queira saber o que achei do filme, basta carregar aqui.

A gala começou com um resumo dos melhores momentos de cada um dos finalistas, em que Cláudio se divertiu a inventar tangas para os finalistas sobre o que se passa no mundo fora da casa — que a Sónia estava grávida de gémeos, que só se pode estar num espaço com uma pessoa, que o marido da Noélia não tinha vindo a Lisboa, só não disse que o Daniel Guerreiro anda a comer o Luis Borges, porque essa as revistas cor de rosa já se encarregaram de inventar.

As tangas do Cláudio

O ambiente entretanto lá aqueceu com o anúncio do 5.º e 6.º classificados. Sandrina recebeu 8 por cento dos votos e ficou em 6.º lugar e Ana Catharina ficou em 5.º, com 9 por cento dos votos dos espectadores do programa. Cláudio pediu um comentário a Ana Garcia Martins e a Marta Cardoso e foi aqui que os ânimos se exaltaram em estúdio.

A comentadora Pipoca Mais Doce disse que o irmão de Sandrina a acusou de ter estragado o jogo à irmã com os seus comentários, que influenciaram a opinião dos portugueses. Neste momento a mãe de Sandrina começa também a barafustar mas como não tinha microfone, não se percebeu patavina, embora o irmão de Sandrina se tenham posto de pé a aplaudir, como se tivesse acabado de ouvir um discurso do Obama. Lá acabaram por passar um micro à senhora que teve oportunidade de se queixar que os comentários da Pipoca eram terrivelmente ofensivos para a sua menina. Cláudio Ramos explicou que os comentadores não têm nenhuma questão pessoal com os concorrentes e que apenas dão a sua opinião baseada no que vêem no jogo. Obrigado Cláudio, se eu soubesse fazer um coração com as mãos era o que teria feito nessa altura. No meu caso, nem se quer é uma opinião baseada no jogo, são parvoíces disfarçadas de opinião, baseada no jogo, mas pronto vai dar ao mesmo.

Não há nada como uma música animada para acalmar as hostes e foi por isso que Cláudio Ramos chamou um dos convidados da noite, o músico José Cid para vir cantar alguns dos seus temas mais conhecidos. José Cid levou o seu teclado com caixa de ritmos, estilo festa da terrinha e isso foi mais do que suficiente para pôr todos no estúdio e em casa a dançar de pé. Desde o smoking com leggings do Pedro Alves, à camisa marcador amarelo fluorescente do Daniel Monteiro, passando pelo laçarote impecável do irmão da Sandrina, todos dançaram ao ritmo dos hits de José Cid, também ele com um kit de sonho, a começar pelo guaxinim que trazia debaixo da boina.

Depois disto, mais um momento de classificações em que ficámos a saber que Iury terminou em 4.º lugar na votação do público e Noélia em 3.º. A concorrente algarvia ainda teve a preocupação de pôr a máquina da loiça a lavar antes de abandonar a casa o que é absolutamente genial e mostra porque é que era uma das favoritas deste programa. Tenho para mim que a Noélia, se tivesse ganho, a primeira coisa que fazia com os 50.000€ era comprar produtos de limpeza e um aspirador Rainbow, só para dar um jeitinho à casa, antes dos novos concorrentes entrarem.

Dois pedidos de casamento depois, três casais criados — quatro se contarmos o romance platónico entre a Sandrina e o Big Brother — e uma batelada de dinheiro gasto em avionetas para enviar frases, o Big Brother 2020 chega ao fim. Cláudio Ramos pede às comentadoras que resumam esta edição numa frase.

Marta prefere usar a palavra “evolução”, o que faz sentido já que de um pontapé no peito há 20 anos, evoluimos bastante para uma quase agressão. Ana Garcia Martins, por seu lado escolheu a frase já quase mítica de Diogo, “Aceitem que dói menos”. Neste momento o Twitter veio abaixo e a blogger fechou assim a sua participação com a coroação oficial de rainha do comentário. Se há frase que resuma esta edição do BB 2020 essa frase é “In Portugal we don’t say Queen, we say Pipoca Mais Doce”. E quem disser o contrário ou é kamikaze ou não percebe “nada desta bida”.

Já mesmo a fechar e antes de ficarmos a conhecer que a vencedora do Big Brother seria a Soraia, ainda pudemos assistir à actuação musical de Virgul, que cantou um tema do caraças que se chama “All we need is love”. Na letra o músico canta “Não me julgues pela minha cor / Julga-me pelo meu valor / Aceitar a diferença é sinal de respeito / Contra guerra só o amor pode fazer efeito.” Ontem ganhou o amor, que bom. Parabéns Soraia.

All you need is love

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