Televisão

Não é blasfémia: “The New Pope” é a série mais bonita deste século

A sucessora de “The Young Pope” não é só agradável aos olhos, Sorrentino regressa com Jude Law e um inatacável John Malkovich
O Papa sexy está de volta.
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O Papa está em coma. Depois do colapso no palanque, mantém-se inconsciente e imóvel num salão do Vaticano transformado em unidade de cuidados intensivos. Ligado às máquinas, sob a luz vermelha de uma cruz de néon, é lascivamente lavado por uma freira que não resiste à tentação — e acaba a masturbar-se ao lado do santo padre.

“The New Pope” é a sequela assumida de “The Young Pope” e não perde tempo com contextos supérfluos. O Vaticano tem (mais) um problema: o jovem papa norte-americano tornou-se rapidamente num ícone, num ídolo que arrasta uma paixão desmedida e indesejável. E, assim, a máquina dirigida magistralmente pelo cardeal Voiello (Silvio Orlando) precisa de se esgueirar nas sombras para dar um novo rumo à Igreja.

Três anos depois da primeira série, o cineasta italiano Paolo Sorrentino está de novo aos comandos, com os trunfos de sempre — e mais alguns. Tal como na produção de 2016, este Vaticano imaginado existe num mundo parecido com o nosso, salpicado com visões surrealistas que, ao terem lugar nos misteriosos bastidores da maior religião do planeta, por vezes colocam-nos a ponderar se não será mesmo assim que tudo acontece.

A história leva-nos novamente ao inevitável cardeal Voiello, o homem-sombra que vive na casa das máquinas da Igreja, agora em busca de um adequado substituto para Lenny Belardo (Jude Law). O regresso ao conclave obriga a mais jogadas de bastidores, a um confronto de cardeais e até a um efémero sucessor com inspiração real, que rapidamente consegue colocar todo o Vaticano a conspirar contra si.

Apesar do nome, “The New Pope” — que estreia esta quinta-feira, 11 de junho, às 22h10, no canal TVCine Emotion— é uma sequela direta de “The Young Pope” e, portanto, uma não existe sem a outra. Imprescindível para dar contexto às personagens repetentes: a um Voiello que não larga a sua capa de telemóvel do Nápoles; ao discreto Gutiérrez; ao assumidamente homossexual cardeal Assente. Ao seu lado, há todo um novo leque de personagens, mas nenhuma brilha como o novo protagonista, agora que Belardo está temporariamente ausente — embora sempre presente, como uma espécie de espírito santo —, o fabuloso John Malkovich.

É preciso esperar largos minutos até que Sorrentino ouse dar um vislumbre de John Brannox, a bem do mistério. O inglês, de famílias de sangue azul, é o alvo de Voiello para ocupar o mais alto cargo da Igreja. Um padre digníssimo, uma máquina de conversão de anglicanos e um indivíduo “com uma propensão para a depressão”.

Elegantemente vestido, Brannox vive ostracizado na mansão que partilha com os pais que o desprezam. Entre telefonemas com dicas de moda a Meghan Markle e flirts suspeitos com a assessora do Vaticano, Malkovich é destacado, pela sua ponderação, como o candidato perfeito para o posto que “é um martírio”.

“The New Pope” vive, à imagem da religião que retrata, de simbologia e de reflexões profundas. A mudança na equipa de argumentistas é visível na evolução dos diálogos deste novo capítulo: mais bem-humorados, mais libertos e igualmente incisivos.

Vale a pena regressar a conversas e monólogos para ir removendo as camadas — embora nem sempre bem conseguidas, particularmente quando fazem questão de nos relembrar que estamos a ver Malkovich a atuar e não um deprimido candidato a Papa. “Faz-me lembrar o meu ator preferido, John Malkovich”, explica Sofia Dubois a Brannox, que conclui: “Nunca fui grande fã”.

Sorrentino não abdicou, contudo, dos homens que ajudaram a transcender “The Young Pope”, e agora esta nova série, ao patamar de obra de arte visual. Experimente parar em qualquer cena, em qualquer segundo, seja no primeiro ou no último episódio, e cada cena, cada momento, parece ser digno de ser emoldurado e pendurado na sala lá de casa.

Os cenários grandiosos do Vaticano são o par perfeito à irreverência e atenção ao detalhe de Luca Bigazzi — parceiro do italiano em filmes como “A Grande Beleza” ou “A Juventude” —, que nos primeiro seis minutos cria uma sequência de entrada como há poucas. O genérico está em constante mudança e vai variando ao longo da sucessão de episódios.

E a banda sonora que repisa a blasfémia está, agora, menos irreverente — quem não se recorda dos LMFAO a darem o ritmo necessário à vaidade de Lenny Belardo? —, mas não menos certeira.

“The New Pope” não é um sabor para todos os palatos. É certo que, por vezes, Sorrentino perde-se em conversas mastigadas, aparentemente sem rumo. Mas quando isso acontece, é fácil perdermo-nos entre os cenários pomposos e guarda-roupa sublime, até que o inesgotável Silvio Orlando volte a salvar a cena. Mais uma, daquela que é verdadeiramente a estrela do elenco.

Este não é o retrato real de um Vaticano que julgamos conhecer. É a imaginação de Sorrentino a revelar que entre todo o surrealismo religiosa, há homens que sofrem, que se angustiam e que, naquele seu canto do mundo, vivem uma vida tão comum quanto possível. E que mal há em divertir-se pelo caminho com recurso a algum fogo de artifício? Nenhum. Assegure-se apenas de uma coisa: que vê “The New Pope” no maior e mais definido ecrã que tiver por casa.

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