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Murros, pontapés e olhos no chão: este é o jogo de futebol mais violento do mundo

Todos os anos há um torneio de calcio storico em Florença. É uma das tradições mais antigas da cidade, que é explicada na Netflix.
No calcio storico pode-se esmurrar e pontapear.

Todos os anos, os habitantes de Florença, em Itália, reúnem-se para assistir ao torneio de calcio storico — uma das modalidades mais tradicionais da cidade, com várias centenas de anos de história. O motivo por que só acontece uma vez por ano? A extrema e absoluta violência.

Neste jogo de futebol, cujo nome se pode traduzir literalmente para “futebol histórico”, não há praticamente regras em relação ao contacto entre adversários. Murros, pontapés, placagens ou outros golpes são todos legais. A nova série documental da Netflix, “Desportos do Mundo” — que estreou a 12 de junho — foca-se neste desporto no seu primeiro episódio. Todos os capítulos têm em destaque uma modalidade ou competição distinta.

Ao longo de 35 minutos, ficamos a conhecer esta cultura específica de Florença. Há quatro equipas de calcio storico na cidade — cada uma corresponde a um bairro. Estão representadas por cores. Os azuis são de Santa Croce, os vermelhos representam Santa Maria Novella, os brancos são de Santo Spirito e os verdes erguem a bandeira de San Giovanni.

Este é um desporto informal — não há dinheiro envolvido e ninguém é profissional. Ainda assim, dezenas de pessoas fazem do calcio storico a sua grande paixão na vida — mesmo que só possam jogar a sério num torneio anual.

Os atletas também só podem jogar na equipa do bairro em que nasceram. Isso significa que representam aquela cor até ao final da sua vida. Por outro lado, os italianos que não tenham nascido em Florença não podem participar nos jogos. Nunca.

O desporto

Cada jogo dura 50 minutos. Como há apenas quatro equipas, o torneio anual consiste em duas semifinais e numa final com as duas vencedoras (que acontece nove dias após as semifinais, a 24 de junho, na festa de San Giovanni, o santo padroeiro da cidade). Apesar de se chamar “futebol histórico”, esta modalidade é mais semelhante ao rugby.

A bola transporta-se com a mão e o objetivo é marcar golo — o campo, que é coberto de areia, é retangular e cada equipa defende uma série de balizas que cobrem toda a sua linha de retaguarda. As equipas têm 27 jogadores em campo.

Alguns são guarda-redes, outros são defesas e há ainda os atacantes e têm como objetivo chegar às balizas adversárias para marcar golo — normalmente são escolhidos para esta posição os jogadores mais rápidos e ágeis. Mas há uma série de atletas cujo objetivo em campo é literalmente lutar contra os adversários para que os seus colegas possam avançar com a bola em campo.

São estes que usam as mãos, os pés e tudo aquilo que conseguirem para deitarem o adversário ao chão — fazendo com que ele não consiga apanhar a bola. Não pode haver mais do que um jogador a atacar outro. O jogo é bastante violento e as imagens são exatamente isso que está a pensar: um verdadeiro banho de sangue.

Ainda assim, não há substituições. Quando estiverem feridos, os jogadores podem abandonar o campo, mas não há outros à espera para entrar. Um conjunto de árbitros assegura o cumprimento das poucas regras e ajuda a acalmar os ânimos sempre que for necessário.

É comum os atletas saírem do campo a sangrar ou sofrerem fraturas, mas há relatos de jogadores a perderem olhos ou a sofrerem lesões ainda mais assustadoras — e com efeitos para o resto das suas vidas.

Milhares de pessoas assistem às partidas que também são transmitidas na televisão. A série da Netflix mostra esta realidade de perto, documentando treinos e o torneio oficial de 2019, além de incluir entrevistas com jogadores e pessoas envolvidas neste desporto de Florença. É algo que faz parte do seu estilo de vida de forma constante.

As origens

Este é um desporto tão antigo que é difícil identificar as suas origens. Certo é que foi evoluindo e sofrendo alterações ao longo dos anos. No documentário da Netflix, o responsável atual pela organização do calcio storico diz que há relatos de este jogo existir 59 anos antes de Cristo, altura em que os legionários romanos terão começado a jogar em Florença.

Em 1530 houve um marco importante. Quando a cidade italiana estava a ser cercada, os guerreiros florentinos quiseram provar a sua energia e perseverança ao organizar um torneio destes em pleno cerco.

Os jogos tornaram-se mais regulares na época do Renascimento, com a participação de aristocratas (e até de Papas) e ao longo dos séculos houve períodos de maior interesse e outros de maior afastamento da tradição, com várias alterações ao jogo — e, claro, partidas amadoras e informais a acontecerem nas ruas da cidade. 

“Demasiado pequeno para ser uma guerra e muito cruel para ser um jogo”, terá dito o rei Henrique III de França, depois de assistir a um jogo em 1574.

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