Televisão

Hélder é o líder que ninguém pediu (e que o “Big Brother” merece)

O humorista e cronista Miguel Lambertini analisa o programa deste domingo, 17 de maio, do reality show da TVI.
É o mais polémico.

O ambiente dentro da casa do “Big Brother 2020” está mais intenso do que um WC portátil no último dia de um festival. Como é habitual nestes formatos, uma semana de vida em isolamento é como a idade nos cães, equivale a mais sete anos. Por isso, este domingo, 17 de maio, quando assisti à gala, na TVI,  estava à espera de perceber quantos casais já se tinham juntado, tido filhos e entretanto pedido o divórcio, quem é que já tentou afogar quem na piscina e se finalmente o Cláudio Ramos tinha conseguido falar com a Noélia.

A única coisa que sabia era que o Hélder tinha roubado o lugar de homofóbico ao Pedro Alves, com declarações polémicas sobre o Edmar, que fizeram com que fosse nomeado pelo “Big Brother” para ser expulso da casa. Hélder disse que preferia passar por mulherengo do que ser como o Edmar (que é homossexual). Depois deste comentário triste, houve vários concorrentes que mostraram a sua indignação e o assunto tornou-se uma das trends do Twitter em Portugal. Ao que parece, o Hélder arrependeu-se muito e como puto de dez anos que é, chorou baba e ranho. 

Confesso que quando vi a notícia pensei que era positivo que um tema como este — com o impacto que tem na vida das pessoas — tivesse expressão nacional num programa em prime-time, porque é uma boa forma de transmitir a mensagem de que atitudes discriminatórias de qualquer tipo são graves e não podem ser toleradas em 2020. Logo, havia aqui uma boa oportunidade por parte da produção do programa e da TVI de tomar uma atitude firme perante este caso. E então o que é que aconteceu? Depois de dar um raspanete ao menino traquina, a produção do programa entendeu que deveria ser o público a decidir se o concorrente deveria ser expulso ou não, através de votação telefónica.

O “Big Brother”, pelos vistos, não só é omnipresente como é muito esperto: deixa a decisão na mão do público e assim descarta-se de qualquer responsabilidade e ainda ganha mais uns trocos com as chamadas telefónicas, mas isso agora não interessa nada. Porque “os portugueses” — essa entidade una e incógnita — pronunciaram-se e tomaram uma decisão, manter o Hélder na casa (e já agora, expulsar o Edmar).

Ou seja, houve muitas criaturas que decidiram gastar 60 cêntimos mais IVA (ou mais) para garantir que o Hélder não era expulso e com isso reforçar que mensagens e atitudes homofóbicas que fomentam o ódio pelo outro são admissíveis. Não são, e é pena perceber isso precisamente quando se celebrava o Dia Internacional da Luta contra a LGBTfobia. Não tenho nada contra o Hélder, obviamente, porque não o conheço de lado nenhum. Tenho só pena que a sua mentalidade seja apoiada de forma tão expressiva por todos os que votaram na sua manutenção. Está visto que a estratégia para ganhar votos na casa do “Big Brother”, a partir de agora, é dizer “se não votarem em mim, são gays”. É garantido que ficam até ao fim. 

Enfim, feito o desabafo, sigamos então para o habitual comentário sobre o resto da gala deste domingo. Cláudio Ramos entra em estúdio como é habitual, sempre impecável com o seu fato de abotoamento duplo, desta feita em tons camel. Sou fã dos fatos que o Cláudio tem apresentado, porque me fazem lembrar aqueles estojos da Molin, com as canetas todas dispostas em degradé de cores, que é como eu imagino que seja o roupeiro do Cláudio Ramos. 

Mais uma vez, o apresentador entra e as pessoas que estão sentadas na plateia continuam impávidas e serenas como se não fosse nada com elas. Estar ali ou numa sala de espera do dentista era exatamente igual para aquela gente. Mas desta vez Cláudio não se fica e pede um aplauso, que lá sai, a muito custo. Talvez, para a próxima gala, fosse boa ideia trazer pessoas vivas em vez de vegetais, para dar um pouco mais de animação à coisa. Cláudio dá as boas-vindas e explica que a semana na casa foi muito animada e que, em estúdio, na sala oculta, já se encontra uma nova concorrente que irá entrar e que se chama Teresa.  

Porque é que esta senhora entra uma semana depois de todos os outros ninguém explicou, mas como está visto, neste programa eles fazem o que lhes dá na gana, não vale a pena sequer tentar perceber. Provavelmente acharam que podia ser uma boa ideia ter uma Teresa no programa, para tentar aumentar as audiências. Funcionou no passado, mas não me parece que resulte desta vez. Teresa tem 52 anos, dois filhos e dois netos e por isso autointitula-se uma avó do séc XXI. Gosta de caminhar, de fazer exercício, e de ver vídeos… com cobras. Pronto, tudo bem, podia ser pior, podia gostar de ver os vídeos do Wuant, por exemplo. 

Cláudio chama em primeiro lugar Hélder ao confessionário para falar um pouco sobre a polémica e este explica: “Cláudio, já está mais do que comprovado que eu não sou homofóbico, uso algumas palavras para brincar, é só isso”. Pronto, se era a brincar, tudo bem. Hélder levou com ele uma camisola de Portugal, que é uma ideia brilhante porque é muito mais eficaz do que uma camisola de um clube. Assim as pessoas pensaram: “olha, este não gosta de gays, mas se gosta de Portugal, deve ser boa pessoa, vou votar nele”.

Depois de Hélder, foi a vez de Ana Catharina ir ao confessionário e antes de entrar vemos imagens da concorrente completamente descontrolada a chorar e a gritar. Eu achei que ela estava assim porque tinha ouvido os comentários do Hélder sobre o Edmar, mas afinal foi porque viu uma galinha crua que ia ser cozinhada. “Não estava preparada para coisas destas no jogo, não é, Ana?”, pergunta Cláudio. Como assim, coisas destas? Ser vegan e não comer carne de animais é uma coisa, agora entrar em histeria porque na cozinha alguém está a preparar um frango de fricassé, pareceu-me ligeiramente exagerado. Acho que é melhor a Ana Catharina começar a meditar para relaxar, até porque coxas ao léu é o que mais há num reality show. Às vezes também ajuda uma boa canja mas, lá está, neste caso talvez não seja boa ideia. 

Edmar, Noélia e Daniel Monteiro eram os três nomeados da noite e Cláudio pediu que se  despedissem dos colegas porque um deles já não voltaria à casa. Já na sala à parte, Daniel assume que se ficar na casa vai “jogar a 200%, é mesmo para meter lenha, agora”, o que seria uma ótima expressão, não fosse ele bombeiro.

Entretanto no confessionário já está Daniel Guerreiro, o hipnoterapeuta que aparentemente não está a conseguir manipular muito bem os seus colegas de casa, porque já ninguém o pode ver à frente. Cláudio mostra um vídeo em que quase todos os concorrentes estão falar mal de Daniel nas suas costas. Há mais companheirismo na cena do “Rome” em que os senadores se preparam para assassinar César, do que naquele excerto. 

Jéssica vai ao confessionário e basicamente o que podemos retirar da sua intervenção é que continua in love pelo Pedro Alves e que adorou os aviões que passaram por cima da casa. Entretanto Daniel é salvo pelos “portugueses”, que querem continuar a ver o bombeiro no programa, mas agora a queimar lenha como se não houvesse amanhã. Por falar nele, Iury confessa que tem muita coisa em comum com Daniel, aludindo a um clima de possível romance entre os dois. A concorrente entra no confessionário e tem uma caixa tapada com um pano por cima. Iury tem medo que o conteúdo sejam baratas, como da última vez, mas lá acaba por abrir a medo e descobre que no interior está um coelho anão.

A concorrente fica muito feliz e leva o animal para dentro de casa. Vendo o entusiasmo de todos os concorrentes que querem mexer no bicho, a voz do “Big Brother” avisa: “Tenham cuidado porque ele é bébé”. Ou seja, depois de Hélder, o coelho passa a ser a segunda criança a habitar a nova casa. No confessionário, Soraia, que é a única pessoa da casa que ainda não quer espetar uma faca nas costas de Daniel Guerreiro, aproveita para fazer um apelo a Cristiano Ronaldo: “Se o Ronaldo estiver a ver isto, pedia-lhe para mandar um abraço ao meu irmão”.

Não é mal pensado, porque agora que já não há lives de jeito para ver no Instagram, é muito provável que o Ronaldo esteja a assistir ao “Big Brother”. Parece que já o estou a imaginar a comentar com a Georgina: “Mira, este tio dijo que no es homofobico, jejeje. Esto es casi tan divertido como ´Como é que o bicho mexe´, Gina.” Gosto de pensar que o Ronaldo lhe chama Gina. Ronaldo, se estiveres a ler isto e puderes fazer um vídeo a esclarecer, agradeço-te. 

Num vídeo, Sónia aparece a dizer: “Não vim aqui para mostrar o meu lado de peixeira” e logo depois vemos a mesma Sónia aos berros com metade dos concorrentes, o que só mostra que isso das peixeiras gritarem muito é um cliché.   

“As faltas de respeito têm de acabar!”, diz a concorrente que se estreou no programa a falar de pintelheira. Mas Sónia tinha uma surpresa reservada pelo seu namorado, Vítor, que decidiu finalmente pedir-lhe em casamento. O sô Vítor entra vestido de smoking e Cláudio pergunta-lhe a que se deve a ocasião, ao que Vítor responde: “Vou realizar o sonho dela” e acrescenta para a sua companheira: “Sabes porque é que eu te chamo de bida? Porque tu és a minha bida”. Ah, ok, já era mais ou menos esperado, mas foi um momento bonito na mesma. Tinha tido mais piada se ele dissesse “Sabes porque é que eu te chamo de bida? Porque Sónia é um nome de merda.”

Cláudio pediu a Vítor para se ajoelhar e fazer o pedido. “Perante o país inteiro te pergunto: queres casar comigo?” Sónia entrou em êxtase e disse um “sim” muito feliz e genuíno que já se vê pouco nos dias que correm. Foi um momento apaixonado a que se seguiu outro igualmente emotivo, que foi a expulsão de Edmar. Quando soube a decisão, Edmar explodiu de alegria e não conteve a sua excitação, principalmente quando percebeu que ia conhecer Manuel Luís Goucha no dia seguinte — e que nunca mais voltaria a ter de ficar fechado numa casa com homofóbicos. Edmar despediu-se e ainda disse mais algumas coisas, mas como fala com um sotaque marado que parece um açoriano com a boca cheia de marshmallows, não percebi uma única palavra. 

Já na sala, depois de sabermos que Hélder ficará na casa e de uma sessão de nomeações acalentada, os concorrentes que ficaram em risco de expulsão na próxima semana são o Diogo, o Daniel Guerreiro (se entretanto não levar uma facada), o Rui e a Soraia. 

Para terminar, Cláudio Ramos informa que terão de superar a prova para determinar quem será o líder da casa, um género de Kim Jong-un da Ericeira, mas sem o cabelo ridículo. Quem resistir mais tempo com o pé dentro de um balde com água gelada e acertar numa pergunta ganha. Em jogo está a liderança e a imunidade na próxima votação. Esta prova para mim não dava, eu em abril ainda uso saco de água quente para aquecer os pés, por isso tinha desistido logo.

Mas ao contrário de mim, os concorrentes foram aguentando e depois de algumas primeiras desistências, o “Big Brother” lançou então a pergunta: “Em que ano o Titanic foi contra um iceberg e se afundou?” As respostas variam bastante e há opções tão boas como 1933 ou 1948, mas a melhor de todas foi 1997, a resposta de Ana Catharina. Ana provavelmente acha que o filme “Titanic” era um documentário. No final quem acertou foi nada mais, nada menos, do que Hélder, que disse abril de 1912 e por isso ficou o líder com total imunidade. O que me faz pensar que nem tudo está perdido. Se o Hélder sabe a data em que o Titanic se afundou, pode ser que um dia decore que 17 de maio é o Dia Internacional contra a LGBTfobia.

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