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Ghislaine Maxwell: a mulher mais procurada do mundo voltou para revelar todos os segredos

A namorada de Epstein foi detida. Os amigos dizem que “conhece todos os segredos" e que irá “arrastar todos com ela”.
Ghislaine com Epstein, Trump e Melania em Mar-a-Lago.

Segurança máxima e todos os olhos em Ghislaine Maxwell. O cenário é, hoje, muito diferente daquele que se viveu no último ano. “Eles querem ter a certeza de que ela vai a julgamento”, revela uma fonte do departamento de detenção de Brooklyn, citada pelo “New York Post”.

Onde está Ghislaine Maxwell? A pergunta que um conjunto de advogados fazia tornou-se na questão que permaneceu na mente dos milhões que assistiram, estupefactos, ao desenrolar da pérfida história revelada no documentário de Jeffrey Epstein. O britânico “The Sun” chegou a oferecer uma recompensa de 11 mil euros por pistas sobre o seu paradeiro.

“Ela não vai ser capaz de se esconder. Não há sítio no mundo civilizado onde ela vá e não possa ser encontrada. E ao contrário de Epstein, ela não tem os recursos necessários para criar uma nova vida num sítio obscuro de onde não possa ser extraditada”, afirmava em agosto de 2019 o advogado David Boies, que representa várias vítimas de Maxwell e Epstein.

A questão encontrou finalmente resposta a 2 de julho com a sua detenção na pequena cidade de Bradford, no estado de Nova Inglaterra. Com o multimilionário morto sob custódia policial, em circunstâncias que alimentaram e ainda alimentam teorias da conspiração, a polícia não quer facilitar.

A socialite caída em desgraça é apontada como a cúmplice número um de Epstein. Era alegadamente ela quem aliciava jovens, na sua maioria menores, para terem relações sexuais com o norte-americano. Era também ela quem as perseguia e ameaçava de morte quando não alinhavam no obscuro esquema que foi sendo encenado nos bastidores da vida social da elite mundial. Ainda mais misterioso do que o seu papel como parceira/funcionária de Epstein foi o seu paradeiro desde que o FBI avançou para a detenção do multimilionário.

Foge, foge Maxwell

Ao mesmo tempo que a polícia algemava Jeffrey Epstein em Nova Jérsia, Ghislaine Maxwell encontrava-se com o Príncipe Andrew no Palácio de Buckingham. Fontes citadas pelo “The Daily Mail” revelam que a investigação das autoridades norte-americanas seria o tema da conversa. 

Dois dias depois, a britânica — que tem também nacionalidade americana e francesa — participava num rali de quatro dias entre celebridades, todas a bordo de carros vermelhos de luxo. A bordo de um Alfa Romeo, Ghislaine deixou-se conduzir por Annette Mason, esposa do baterista dos Pink Floyd, Nick Mason. Assim que o rali terminou, desapareceu sem deixar rasto.

Meses antes do evento, haviam surgido os primeiros sinais de que algo não estava bem. Maxwell foi-se evadindo aos poucos. As suspeitas de envolvimento nos esquemas sexuais de Epstein — que em 2008 cumpriu 13 meses na prisão — deixaram marcas. Foi também nessa altura que selou um acordo extrajudicial com Virginia Roberts, uma norta-americana que a acusou de a recrutar como escrava sexual para Epstein e o príncipe Andrew, quando tinha apenas 17 anos. Mas foi quando vendeu a sua casa luxuosa em Manhattan que a estratégia elusiva começou, relata uma extensa reportagem da “Vanity Fair”

Foi num voo comercial de Miami para Nova Iorque que uma velha amiga reparou num vulto familiar. Era Ghislaine Maxwell. “Fiquei chocada com o ar dela. Não a reconhecia”, revelou à “Vanity Fair”. Mais gorda, sem maquilhagem e de roupas casuais, esquivou-se quando lhe perguntou por onde é que ela andava. “Olhando para trás, acho que ela sabia que tudo se ia desmoronar”, diz.

A detenção de Epstein mudou tudo. Maxwell desapareceu e deixou para trás a organização não-governamental que havia criado nos últimos anos — suportada pelos amigos milionários, alegadamente também por Epstein, e que a levou a discursar nas Nações Unidas —, que foi dissolvida e que acumulou uma dívida de mais de meio milhão de euros.

Não foi a única aparição. Dias depois de Epstein ser detido, uma foto de Maxwell numa hamburgueria em Los Angeles apareceu online. Ela, que era então uma das alegadas cúmplices, parecia passear despreocupada pelas ruas. Não era bem assim. Pequenos pormenores revelaram que a imagem poderia ter sido adulterada e plantada pelos seus advogados.

A foto que muitos dizem ter sido adulterada.

Os meses que se seguiram foram de silêncio absoluto. As ameaças que Maxwell fazia às vítimas de abuso sexual, viravam-se agora contra si. Chegavam às centenas e obrigaram-na a ser ainda mais cautelosa, revelou um amigo próximo à “Vanity Fair”. “Não foi uma ameaça específica. Era o volume. E eram ameaças credíveis.”

Longe dos holofotes, continuava a fazer as suas jogadas nos bastidores, através da equipa de advogados. Foram eles que apresentaram um pedido para que todas as despesas com a segurança fossem pagas diretamente pela herança de Epstein.

Nem mesmo os advogados sabiam do paradeiro de Ghislaine, que comunicava com eles apenas por email. O luxo das mansões de Nova Iorque e das moradias de Palm Beach deu lugar a uma vida simples. Na mala levava apenas o essencial: um telemóvel, um tablet, roupa casual e uma panela de pressão. Cozinhava, lia biografias e fazia exercício.

A rotina variava, até para se precaver de possíveis ameaças. “O objetivo da segurança é precisamente o de não ter uma rotina”, diz o amigo que fez todas as revelações à “Vanity Fair”. “A sua vida são os advogados. Fala com eles e com alguns familiares. É o seu universo. Defender-se em todos estes casos é um trabalho a tempo inteiro.”

A casa de luxo onde foi detida.

A aventura terminou a 2 de julho. Depois da detenção, a polícia revelou que Maxwell mudava recorrentemente de localização em Nova Inglaterra, enquanto fazia “esforços intencionais para evitar a deteção”, fosse através das constantes mudanças, das trocas de números telefónicos registados em nomes falsos.

Mesmo sem os recursos de Epstein, estará bem equipada para a longa luta nos tribunais. A acusação acusa-a de ter acesso a fontes secretas de dinheiro, de ter em seu nome pelo menos 15 contas bancárias cujos saldos variam entre as centenas de milhares de euros a 20 milhões.

A arma secreta

“Ghislaine era o epicentro [do mundo das festas de Manhattan onde conhecimentos eram travados]. Ela era amiga de toda a gente e tinha uma enorme lista de contactos de pessoas influentes”, revela à “Vanity Fair” Euan Rellie, uma bancária britânica que a conheceu.

Segundo relatos, Epstein tinha os milhões, mas foi Maxwell quem lhe abriu o caminho para os bastidores da elite. “Parecia que toda a gente que eu conhecia, também a conhecia a ela. A Ghislaine estava sempre a caminho de uma reunião com tipos como o Bill Clinton”, nota o escritor e apresentador Christopher Mason. 

No casamento de Chelsea Clinton.

A sua mansão era palco de jantares com Kennedys e Rockefellers, presidentes e socialites, todos altamente influentes e extremamente ricos. Por sua vez, era também convidada para os maiores eventos. Posou entre Trump e Melania no resort de Mar-a-Lago, foi convidada para o casamento de Chelsea Clinton — o pai e ex-presidente chegou a viajar a bordo do jato privado de Epstein, apelidado de Lolita Express, que serviu para transportar vítimas de abusos para a ilha privada do milionário — e encontrava-se recorrentemente com o príncipe Andrew.

O membro da realeza era, aliás, um dos seus grandes amigos. Ter-se-ão conhecido em Oxford, durante os seus tempos de estudante. Foi o próprio quem confessou ser “um amigo íntimo” de Ghislaine.

Fotos dos dois abundam, mas uma delas serviu de rastilho a um caso polémico. Numa das fotos, tirada no apartamento londrino de Maxwell, algures em 2001, Andrew agarra a cintura de uma jovem loira. Era Virginia Roberts, que mais tarde os viria acusar. A ele de abuso sexual, a ela de ter promovido o encontro. O príncipe nega todas as acusações.

A foto polémica de Andrew com Ghislaine no fundo.

Ghislaine apresentou-o a Epstein em 1999 e apesar de ter cortado relações com o americano depois do escândalo de 2008, a amizade com a inglesa manteve-se intacta.

Juntos, viajaram pelo mundo, entre visitas à Flórida e à Tailândia. Maxwell era também convidada assídua nas casas reais. Ao lado de Epstein, esteve presente no 18º aniversário da princesa Beatrice, no castelo de Windsor. Também pernoitaram na estância de Balmoral.

Com Ghislaine ob custódia, começam a surgir novos detalhes do processo que poderá estar para chegar — e que poderá revelar nomes até agora escondidos. Especula-se que a dupla terá usado as suas ligações privilegiadas não só para escapar à justiça, mas também para servir de seguro.

Nas teorias conspiratórias mais rebuscadas, alega-se que o conhecimento de Epstein dos pecados dos mais poderosos poderá ter sido a razão pela qual morreu na cela — e que poderá não se ter tratado de um simples suicídio.

A acusação que se prepara para chocar com Ghislaine poderá conter nomes fortes. É que segundo a “Law & Crime”, o processo terá sido entregue à unidade que investiga casos de corrupção pública, quando o mais lógico seria que ficasse a cargo do departamento de violência e crime organizado, que trata de casos de tráfico sexual.

Nem dinheiro, nem uma feroz equipa de advogados. A arma secreta de Ghislaine no processo pode mesmo ser “uma caixa de vídeos sexuais”, revela um amigo próximo ao “The Daily Mail”. Christopher Mason, seu amigo desde a década de 80, já havia revelado que as casas de Epstein estavam armadilhadas com câmaras — e que Maxwell tinha acesso a elas. 

O amigo anónimo confirma que o milionário não gostava apenas de se ver em filme. Certificava-se que também os convidados eram gravados, até para poder ter algum poder sobre eles, caso tudo corresse mal. E assegura que Ghislaine guardou todas as cópias. “Ela conhece todos os segredos e vai usar tudo o que tem para se safar.”

Há mais relatos que dão força à tese. Um dia depois do suicídio de Epstein, explica o “The Daily Mail”, o jornalista James B. Stewart — que o havia entrevistado um ano antes — revelou que ele lhe havia confessado ter em sua posse material “potencialmente danoso e embaraçoso” dos seus convidados, incluindo “detalhes sobre as suas aventuras sexuais e uso de drogas”.

A fonte próxima de Maxwell não tem dúvidas: “Ela tem cópias de tudo o que Epstein tinha (…) Se for presa, ela vai arrastá-los todos juntamente com ela”.

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