Televisão

O filme erótico da Netflix devia chamar-se “Quem Quer Casar Com um Violador?”

À boleia de uma inocente fantasia, “365 Dias” serve de cartaz desculpabilizador da violência sexual.
Afinal, o seu homem de sonho é um sociopata
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Enraivecido, a bordo do seu luxuoso jato privado, Massimo repara na passagem da hospedeira, que persegue até à traseira do avião. Desamarra cuidadosamente as cortinas e baixa-lhe a cabeça até ao nível da sua cintura, sem trocar uma única palavra. A sessão de sexo oral on demand deixa a hospedeira de lágrimas nos olhos e, eventualmente, um pequeno sorriso — o sinal que, no estranho mundo de “365 Dias”, traça a linha ténue entre o mero sexo ocasional e o abuso sexual.

O filme erótico que estreou a 7 de junho na Netflix subiu rapidamente no ranking de popularidade. Em Portugal, o drama teima em não largar a primeira posição do top. Uma fama que lhe valeu a alcunha de versão polaca do célebre “As Cinquenta Sombras de Grey”. As semelhanças não ficam por aqui: a história tem também origem numa trilogia, assinada pela autora polaca Blanka Lipińska.

A fórmula não é nova: uma mulher aparentemente indefesa; um bad boy endinheirado; e a crença de que ela conseguirá transformá-lo no homem perfeito. Basta para isso limar uns pequenos defeitos. E por pequenos defeitos falamos, claro, de um cocktail explosivo de misoginia e de sociopatia por diagnosticar.

Laura Biel (Anna Maria Sieklucka) é uma executiva que não se deixa abalar por comentários machistas no trabalho — um ponto de partida mais do que irónico para o resto da mal-amanhada história. Ignorada pelo namorado, viaja até à Sicília para o seu 29.º aniversário, onde acaba raptada por um traficante e chefe de uma família mafiosa.

“O que te vou contar é incrível”, justifica Massimo Torricelli (Michele Morrone), o protótipo do macho alfa, enquanto tenta justificar o rapto. Segundo o próprio, depois de alvejado e a lutar pela vida, sonhou com a cara de uma mulher, que durante cinco anos o atormentou — e de quem fez questão de mandar desenhar retratos, que pendurou nas paredes da mansão, mesmo sob o olhar da namorada.

Um dia, vê a tal cara no aeroporto. E este homem de sonho faz o que qualquer indivíduo psicologicamente saudável faria. Mandar os jagunços perseguir o namorado de Laura para o fotografarem num momento de traição, antes de sedar e sequestrar a polaca, que confronta com imagens da traição do companheiro. Todo um plano diabólico para a convencer a apaixonar-se por este pedaço de homem em 365 dias. Ufa.

Se, por esta altura, o bom senso feminino não fez acender o sinal de pânico na mente de Laura, dificilmente a esquizofrenia de Massimo a convenceria da instabilidade psicológica do homem que promete não a violar, enquanto avisa que não tolera desobediência. “Lutar é inútil. Tens que aceitar a situação. Quanto mais rápido o fizeres, melhor será para ti”, justifica com um ligeiro ar de incredulidade, não sabemos se fruto do pouco jeito para a profissão ou choque pela inclusão da tirada no guião.

Fútil, vago, estereotipado. Faltam adjetivos para descrever a história de “365 Dias”, mas podemos tentar fazê-lo em números: cinco sessões de sexo; quatro idas às compras; três saídas à noite; dois abusos sexuais; um crime de sequestro; e um redondo zero de realismo. Um ramalhete duvidosamente composto por decisões inexplicáveis das personagens — sim, a decisão que justifica toda a razão de ser do filme, acontece num par de segundos, sem explicação — e uma banda sonora sofrível, cantada pelo próprio Michele Morrone.

A falta de agilidade facial do elenco é, talvez, a grande bóia de salvação para público, uma forma de nos manter ancorados na realidade, a par das falas cómico-trágicas, seja quando Laura explica que não é “um saco de batatas”, ou quando o sempre charmoso Massimo confessa que “as mulheres são um purgatório para a carteira”.

O problema de “365 Dias” não está apenas no argumento débil, assente numa profunda misoginia que a sociedade e as mulheres continuam a tentar combater. Está na normalização do tipo de comportamento que deu origem ao movimento MeToo e que continua a poluir mentes masculinas.

Ele só queria aprender a ser carinhoso.

O mais preocupante não é sequer a fantasia sexual, até porque essas são apenas limitadas pela imaginação de cada um. O mais doentio é que se insista em retratar a violência sexual como algo que as mulheres secretamente desejam, que tudo está bem quando a um não se segue um puxão, um encosto, um avanço indesejado — tornar aceitável o princípio de que, no fundo, isto “é o que elas querem”. Que quando confrontados com qualquer resistência, lá bem no fundo da mente masculina se ouça um Massimo a sussurrar: “Ela diz que não, mas ela quer”.

Que esta tradição de masculinidade tóxica ainda permaneça viva em pequenos círculos e indivíduos alheados do mundo que os rodeia, é compreensível. Menos aceitável é que em 2020, os esforços de uma derradeira revolução feminista esbarrem em mais uma pobre desculpa cinematográfica para fazer dinheiro. Não é verdade, Netflix?

“Mas e o filme?”, perguntará com razão. Se é erotismo que procura, há dezenas de sites pela Internet especializados no assunto, com a vantagem acrescida de não o arrastarem durante duas horas por uma história sem pés nem cabeça. É que no meio de toda esta balbúrdia, a velha rábula do homem do gás parece um ótimo exercício de criatividade — e uma forma de atingir o mesmo fim sem gastar milhares de euros numa produção que, se a insanidade continuar a imperar, terá direito a completar a trilogia. E o mundo não precisa de mais outras tantas sombras de misoginia.

Bem vistas as coisas, somos uns afortunados: ainda podemos dizer que não a “365 Dias”, sem medo de que um italiano entroncado nos amarre a uma cadeira a ver cada penoso minuto desta obra.

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