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Como sobreviver a um escândalo sexual — uma lição de Hugh Grant

Há 25 anos, era apanhado com uma prostituta nas ruas de Los Angeles. Hoje interpreta outro inglês vítima de um escândalo.
O retrato tirado pela polícia correu o mundo.

“Em que raio é que estavas a pensar?”, atira Jay Leno, o famoso apresentador norte-americano. Do outro lado da secretária estava Hugh Grant, em pose pensativa, imediatamente quebrada com um sorriso envergonhado, um meio suspiro ansioso e um fugaz reposicionamento na poltrona. Leno, um entrevistador que nunca dava golpes letais nos convidados, tentou quebrar o gelo. Grant tinha uma tarefa dura pela frente: mitigar o desastre que ameaçava arruinar-lhe a carreira, a relação e a reputação mais depressa do que o fogo que destruiu o Hindenburg.

Grant foi, talvez, o casting perfeito para em 2018 interpretar outro britânico que foi capa de jornais e revistas por todos os motivos errados. Na minissérie “A Very English Scandal”, a estrela de “Quatro Casamentos e Um Funeral” ou “Notting Hill” é Jeremy Thorpe, político inglês cujos segredos chocaram o Reino Unido na década de 70.

Inspirada nos eventos reais relatados pelo livro com o mesmo nome, editado em 2016 e escrito por John Preston, envolve uma louca intriga política, assassinos a soldo, homossexualidade e cães mortos a tiro. E tudo é real.

Os três episódios, que chegaram à HBO Portugal a 8 de julho — e de que a NiT já tinha falado —, levam o outrora menino querido de Hollywood a um lugar que ele bem conhece: o dos escândalos sexuais que ameaçam destruir em poucos segundos carreiras construídas ao longo de anos.

O facto de estarmos sequer a falar de mais um papel de protagonista confiado a Grant mostra que, contrariamente ao compatriota, ele soube esgueirar-se pelo campo minado que os fãs e a imprensa prepararam. E com razão, como o próprio admitiu mais tarde: “Eu fiz uma coisa má”.

À conquista de Hollywood

Os americanos estavam derretidos com o charme britânico de Hugh Grant, o bom rapaz de riso envergonhado, humor no ponto e ar misterioso. Em Inglaterra, já fazia derreter os leitores dos tablóides sempre acompanhado da namorada, também ela uma estrela, Elizabeth Hurley. Era o homem perfeito. O casal perfeito.

O sucesso de “Quatro Casamentos e Um Funeral” em 1994 — tornou-se no filme britânico mais bem-sucedido nos cinemas e foi nomeado para dois Óscares — abriu-lhe as portas de Hollywood, onde viveu durante as gravações daquele que deveria ser o seu próximo êxito, a lançar em 1995. “Nove Meses”, uma comédia romântica onde contracenaria com Julianne Moore, com Robin Williams e Jeff Goldblum também no elenco.

Foi com este último que que Grant decidiu sair para uma noite de copos, para desanuviar de dois dias de extenuantes entrevistas de promoção do filme, cuja estreia estava marcada para daí a duas semanas.

O ator de 34 anos fechou a noite pouco depois da uma da madrugada e sentou-se ao volante do seu BMW branco. Só que em vez de dirigir de volta ao hotel de Beverly Hills, onde estava alojado, partiu rumo à famosa Sunset Strip. Encostou na berma, a poucos metros de Estella Marie Thompson. A jovem de 23 anos entrou no carro e juntos dirigiram até uma zona residencial a pouca distância.

“Sempre quis dormir com uma mulher negra. É a minha fantasia”, terá alegadamente dito Grant, numa conversa revelada mais tarde pela mulher, mais conhecida pelo nome profissional de Divine Brown. Impaciente, o ator pagou apenas por sexo oral, prontamente interrompido pela polícia, que foi alertada pelo piscar insistente das luzes de stop.

Grant e Brown foram imediatamente levados para a esquadra da polícia. Em pouco tempo, os retratos de ambos circulavam por todo o mundo. O gentleman britânico tinha sido apanhado no ato com uma prostituta em plenas ruas de Los Angeles. Era acusado de comportamento indecente e de solicitar uma prostituta. Pior do que enfrentar o juiz por estes crimes, era o cenário de ter que lidar com os efeitos nefastos de um escândalo sexual.

O pervertido inglês

“Não é fácil”, atira de volta Grant, depois da questão de Leno. Haviam passado poucos dias do rebentamento do escândalo que encheu as capas dos tablóides britânicos, americanos e um pouco por todo o mundo.

Com a inadiável estreia de “Nove Meses” dentro de pouco tempo, era impossível cancelar a agenda. Os compromissos de visitas aos programas mais importantes do país não podiam ser cancelados, apesar de toda a polémica sugerir que essa poderia ser a melhor opção. Só que não havia outra opção que não fosse a de colocar Grant, em direto na prime time, frente a milhares de espectadores e uma plateia ao vivo, a falar sobre o assunto.

Não seria preciso ser um fã inveterado do ator, bastaria assistir a um dos seus filmes, para detetar os pequenos trejeitos e tiques que o tornaram numa célebre figura cinemática. O gaguejar hesitante, os maneirismos desconfortáveis, o olhar que nunca se fixa diretamente em ninguém. Tudo fazia parte do charme do craque das comédias românticas.

A estratégia foi magistral. Desarmou-se a si próprio ao fazer pouco das teorias que desculpavam o ato — e pelo caminho suavizou a plateia ao provocar uma explosão de riso — e assumiu tudo. “Acho que na vida sabemos bem o que é uma coisa boa e uma coisa má. E eu fiz uma coisa má. Aí têm”, explicou antes de ser recebido com uma salva de palmas.

Os fãs até poderiam estar convencidos, mas os tablóides estavam, por esta altura, a afiar as facas. Um, particularmente, preparou um golpe duro para desferir em Grant. O hoje extinto “News Of The World” — encerrado em 2011 depois de um escândalo que revelou o uso de escutas ilegais por parte do jornal — pagou 100 mil euros a Divine Brown para uma entrevista onde seriam revelados os detalhes sórdidos dessa noite na Sunset Strip.

Os poucos escrúpulos já habituais levaram os diretores do “News Of The World” a colocar Divine Brown na capa, enquanto usava o vestido Versace que Liz Hurley havia tornado famoso. Não bastava relatar o que tinha acontecido naquela noite. Era preciso provocar o maior caos possível. E assim foi.

Hurley, atriz e modelo patrocinada pela Estee Lauder, foi novamente vistada quando Brown revelou que Lewis — nome falso usado por Grant no encontro — lhe confessou que ela cheirava “lindamente”. Revelou depois que usava precisamente o perfume rival da marca que patrocinava Hurley.

A infame capa do “News of the World”

“Odeio os produtos da Estee Lauder, acho que são doces e enjoativos. Estava a usar o Red Door de Elizabeth Arden e ele parece ter gostado”, revelou a jovem de 23 anos.

Pelo caminho, confessou também que Grant recusou pagar por relações sexuais e preferiu apenas os 60€ correspondentes a sexo oral. “A certa altura entusiasmou-se e puxou-me o cabelo. Eu disse-lhe ‘Querido, não podes ser tão bruto'”, explicou na entrevista que ocupou cinco páginas inteiras dessa edição.

Perdoa-me

No mesmo dia em que o escândalo rebentou, antes de se penitenciar em direto, Grant assinou um comunicado onde revelava ter feito algo “completamente louco”. “Magoei pessoas que amo e envergonhei pessoas com quem trabalho. Por ambas as coisas, estou mais arrependido do que alguma vez o poderei dizer.”

Foi sob uma tempestade mediática que o ator enfrentou a sentença no tribunal. Ameaçado com uma possível pena de seis meses de prisão, foi apenas forçado a pagar uma multa de mil euros e a frequentar um curso de consciencialização sobre os perigos da SIDA. Hurley, que se recolheu da vista pública durante a polémica, revelou dois meses depois que o escândalo foi “como se tivesse sido alvejada”.

Enquanto um lado lambia as feridas, o outro regozijava com a atenção mediática. O tribunal era apenas um mero obstáculo burocrático para Divine Brown, que admitiu a culpa perante o juiz. Em poucos meses, já viajava para o Reino Unido, em ações de promoção de canais pornográficos.  Brown, hoje conhecida como Estelle Thompson, terá acumulado mais de um milhão de euros, que usou para comprar uma moradia em Los Angeles e pagar a universidade às duas filhas.

Só que em 1995, poucos vaticinavam um semelhante futuro risonho para Grant. “Se isto acontecesse ao Sean Penn ele safava-se. O Hugh Grant, não. Todas as mulheres na América queriam ir beber uma cerveja com ele. Agora só dizem ‘ugh'”, revelou uma produtora de cinema à “People”. Temia-se que a carreira brilhante tivesse um fim precoce. Não foi nada disso que aconteceu.

Apesar de estrear no meio do furacão, “Nove Meses” portou-se bem nas bilheteiras. Elizabeth Hurley não saiu do seu lado — a separação chegaria apenas em 2000, ao fim de 13 anos de namoro — e, mais importante, os convites para papéis continuaram a chegar.

É o próprio quem assume que o escândalo sexual de 1995 teve poucas repercussões na carreira. A explicação? Está no dinheiro.

Em entrevista, o ator revelou que a noite com a prostituta só provocou tamanho choque por causa da sua reputação de menino bonzinho, alimentada pelos papéis em comédias românticas, particularmente em “Quatro Casamentos e Um Funeral. “As pessoas achavam que eu era aquela personagem simpática do filme. Suponho que o contraste entre essa pessoa e este mau comportamento era um tema picante. E percebo porque é que se tornou numa história tão grande”, revelou à “CBS” em 2016. 

Além de confessar que todo a a polémica não passou de um “soluço” na carreira, concluiu que Hollywood apenas se preocupa em fazer dinheiro. Nada mais. “O filme [‘Nove Meses’] correu bem. E sim, é só isso que importa. Enquanto os ajudes a fazer dinheiro, eles não querem saber o que é que tu fazes.”

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