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Como a casa mais inteligente de Portugal se tornou na mansão do “Big Brother”

O treinador de futebol Carlos Azenha é o proprietário desta residência que está à venda por 6,5 milhões de euros.
Está à venda por 6,5 milhões de euros.

O ano era 2009. Em plena crise económica, foi inaugurada em Portugal a Kasa do Futuro, que era apresentada como a propriedade mais inteligente e tecnologicamente sofisticada do País. Custou “uns bons milhões” de euros. Fica na Ericeira, com vista sobre a praia de Ribamar. As televisões de vários países fizeram reportagens e a imprensa especializada na área da tecnologia debruçou-se sobre a inovação impressionante que podíamos encontrar por ali.

11 anos depois, é no mesmo local que estão fechados desde maio os concorrentes do “Big Brother 2020” — nesta edição celebrativa do reality show da TVI. O programa estreou no final de abril mas teve uma versão de duas semanas em quarentena, em que os concorrentes estavam separados, em quartos de hotel, e apenas comunicavam através do Zoom.

Só depois de serem testados à Covid-19 é que puderam entrar finalmente na casa. Desta vez, não era a habitual moradia nos estúdios da Venda do Pinheiro, mas sim esta Kasa do Futuro — e é ali que continuam os concorrentes que estão a participar no reality show.

Carlos Azenha, que foi treinador-adjunto do Futebol Clube do Porto entre 2006 e 2008, é o proprietário da casa e foi o promotor do projeto. Pelo meio, orientou ainda as equipas de futebol do Vitória de Setúbal e Portimonense na sua carreira desportiva, entre outras, além de ter trabalhado no estrangeiro. Atualmente, é treinador no Dubai, apesar de pouca gente saber.

Nascido há 53 anos em Lisboa, Carlos Azenha teve uma infância com “poucas condições financeiras”, por isso queria “uma casa que fizesse a diferença”. “Eu aos 27 anos nem casa de banho tinha em casa.” Teve a ideia numa visita ao Museu das Comunicações, também na capital portuguesa, quando viu o projeto para uma “casa do futuro”.

Carlos Azenha começou a ser treinador de futebol nos anos 90.

“Disse a mim próprio que havia de desenvolver isso na realidade. E foi o que eu fiz”, conta Carlos Azenha à NiT. “Comecei a desenvolver naquele momento o projeto para uma casa inteligente. Depois fui desafiando vários sponsors e empresas para entrarem no projeto. Numa fase inicial foi muito difícil. Comecei sozinho a fazê-lo, desafiei uns amigos meus arquitetos para o fazer. Um deles tinha sido meu jogador, o José Gonçalves. Levou-me para o gabinete dele, o [atelier] Traço Urbano, e, juntamente com o arquiteto Ricardo Simões, começou-se a desenvolver o projeto e a pensar no desenho da casa.”

Carlos Azenha é um interessado pela área das tecnologias de construção há vários anos. Visita feiras internacionais com regularidade e acompanha as novidades do setor. Escolheu Ribamar, na Ericeira, “uma zona saloia mas perto de Lisboa” onde passava férias quando era miúdo. “Tem muita qualidade de vida e, para a profissão de stress que tenho, é ótima para relaxar.” A escolha do terreno, no entanto, não foi uma opção consensual.

“Ninguém queria aquilo, só dava para chegar lá de bicicleta, toda a gente achava que era uma péssima opção, mas eu achava que era boa e fiz esse investimento lá.”

A ideia era criar uma propriedade privada no segmento do mercado de luxo — mas que, ao mesmo tempo, pudesse ser o resultado de um esforço conjunto de uma série de empresas de tecnologia que iriam experimentar as suas mais recentes inovações.

“A partir daí houve um conjunto de desenvolvimentos, juntámos mais algumas pessoas importantes, com a ajuda do meu irmão, que eu chamo de engenhocas, que é técnico de informática de inteligência. O engenheiro Samuel, da Domática, e o Joel, da Life Emotions. E depois as empresas foram entrando.”

A Microsoft e a Samsung foram algumas das empresas que quiseram fazer parte do projeto. “Foram as maiores empresas, todas elas quiseram participar.” No processo de construção da casa e das respetivas utilidades, foram desenvolvidas várias patentes, “de coisas que são únicas em Portugal”. Uma delas é a de um secador automatizado. 

O interior da casa foi alterado para o “Big Brother”.

No entanto, a casa tem muito mais do que isso. Há computadores e ecrãs um pouco por toda a propriedade — todos ligados através de uma biblioteca digital. Pode-se carregar num botão para a parede que separa a sala da cozinha se abrir em poucos segundos. A pessoa sabe a temperatura da água através da cor da mesma. 

A tampa da sanita abre sozinha, há televisões que descem do teto, camas que têm várias posições e um mordomo digital que pode perguntar ao dono da casa quais são os seus programas favoritos na televisão. Assim que o proprietário chega à residência, o mordomo informa-o se algum deles foi transmitido, por exemplo.

A segurança é um dos pontos fortes. Há câmaras de vigilância por toda a propriedade e através do telemóvel, mesmo se estiver na rua, pode ver quem está a tocar à campainha. As comunicações no interior da habitação estão encriptadas. Existe até um bunker no interior da residência. Estas são apenas algumas das muitas funcionalidades que são atualizadas constantemente tendo em conta a evolução da tecnologia.

“Hoje é muito normal falarmos de casas inteligentes, de LED, isso tudo, mas se recuar há 15 anos, quando começámos o projeto — e há cerca de dez anos, quando se acabou a casa — nessa altura já tinha a tecnologia de ponta. É a casa mais inteligente que terá em Portugal, deve ser a única com sistema de videovigilância por radar, é a mais sustentável, com o sistema de construção mais anti-sísmico que existe em Portugal. Tem uma taxa de qualidade e conforto, em termos de humidade, etc., difícil de igualar.”

Tem um sistema próprio de reciclagem de lixo, através de um processo de compostagem que é feito debaixo de terra, e a água também é tratada na propriedade. É usada energia eólica e solar para produzir eletricidade — além de apenas usar lâmpadas economizadoras. 

Tem vista sobre a praia de Ribamar.

A casa tem cerca de 900 metros quadrados, integrados num terreno de seis mil metros quadrados. Além da residência em si, há uma piscina (com jacuzzi), um ginásio, sala de jogos, um campo de futebol e um projetor e uma tela de cinema no exterior. Algumas destas funções estão a ser usadas pela produção do “Big Brother”, mas os concorrentes (e os espectadores) não conhecem muitas delas.

Carlos Azenha viveu na Kasa do Futuro com a família durante vários anos. Ao mesmo tempo, era usada para vários fins. “O objetivo era usar como residência privada mas também como protótipo de exposição. Os sponsors tiveram durante um ano e tal a utilização da casa para poderem usufruir do que lá tivessem e desenvolver esse conceito de futuro.”

A experiência de conforto, garante, é incomparável. “Não sei se consegue encontrar um pôr do sol tão fantástico como aquele. O facto de estar numa zona sossegada, sem vizinhos, permite-me fazer o barulho que quiser e respirar à vontade. É um prazer enorme habitar aquela casa. Vejo os jogos na rua, tem uma piscina exterior com 32 graus. Tenho consumos enérgicos baixíssimos.”

Azenha diz que a propriedade compete “com outras seis a nível mundial para os maiores eventos de lançamento de tecnologias de ponta”. “É sempre uma das selecionadas. Os japoneses lançaram um dos melhores meios de construção de edifícios dentro de água e foi aqui que foram fazer a sua exposição, os seus testes, usaram a imagem da casa. O estacionamento dos carros automáticos também foi lançado aqui. A maior parte das marcas mundiais querem sempre a casa para fazer algumas demonstrações. Peças únicas, perfumes, telenovelas… toda a gente tenta ter a casa como ponto de referência. É uma casa extremamente solicitada pelas suas características únicas.”

Apesar de preferir não falar sobre a presença do “Big Brother” na Kasa do Futuro, certo é que a TVI arrendou a propriedade desde o início do ano para uma edição diferente do reality show. Foi mais uma das muitas empresas interessadas no potencial da residência. Segundo o “Correio da Manhã”, está alugada pela estação de televisão até ao final do ano — ainda assim, esta temporada do “Big Brother” deverá terminar durante o verão.

Além disso, a Kasa do Futuro (que tem um site oficial) está à venda. Segundo o mesmo jornal, o preço atual é de 6,5 milhões de euros. Carlos Azenha explica que só a vai vender porque pretende construir uma nova, ali mesmo ao lado. “Se não, não vendia, nunca. Será inovadora, vai ser a primeira casa em Portugal de betão sem ferro — vai ser feita com fibra de carbono.”

Esta nova habitação será totalmente privada, para a sua família. “Mas claro que vai despertar muito interesse por ser a primeira casa do País que não vai ter ferro. Ao nível da tecnologia será uma coisa nunca antes vista em Portugal e em quase toda a Europa.”

Tem 900 metros quadrados.

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