Televisão

“Começar do Zero” é a TVI a dizer-nos: “Olhem, que se lixe, ponham-nos nus”

A humorista Susana Verde analisa o último episódio do reality show da TVI.
O programa tem uma emissão especial aos domingos.

A propósito de “Começar do Zero”, lembrei-me de uma entrevista que vi em tempos, no verdadeiro tratado antropológico que era o programa de desporto da RTP, “Liga dos Últimos”. Num pós-jogo, o jornalista perguntava ao treinador da equipa derrotada, que tinha acabado de levar uma tareia de criar bicho, se temia a despromoção. Guardei para sempre a eloquente resposta do mister: “Não temo a despromoção, na medida em que não podemos descer, porque estamos na divisão mais baixa do campeonato.”

Ora, deve ter sido isto que a direção da TVI pensou quando decidiu produzir “Começar do Zero”. Consideremos o historial decrépito dos realizeis da 4, o facto da Cristina Ferreira ter mais audiências nas instastories do que o programa do Goucha, e a Ana Leal: não é possível bater mais fundo.

Portanto, naquela tão portuguesa atitude cujo nome técnico creio ser “que se lixe”, Queluz de Baixo segue o conselho de tantos e tantas concorrentes dos seus formatos: ser ela própria, frontal e não ser fake. Nesta nota, avançaram para um formato que ao contrário da “Casa dos Segredos”, do “Love on Top” e das reportagens da Ana Leal, não tenta arranjar um pretexto para a pouca-vergonha. É o chamado programa à cara podre: é nus que o povo quer, é nus que o povo vai ter.

De louvar, no entanto, a atitude aspiracional de “Começar do Zero”. Porque a bem da verdade, o título é otimista. Não é do zero que eles começam… Eu sou de letras, mas diria que o ponto de partida é assim mais ao nível da sub-cave. Mas uma sub-cave muuuuiiiiito funda.

Tenho que ser honesta: eu não segui o programa desde o início. E como adepta de trash tv, confessa, assumida e certificada pelas melhores máquinas, isto é muito significativo. E nem foi no primeiro episódio que tomei esta decisão. Foi logo na antevisão, transmitida no dia do “Quem Quer Casar com o meu filho?” (Rest in Peace…). Facto: o primeiro plano que eu vi de “Começar do Zero” deixou-me com marcas para a vida. Porquê? Eu vi três marmanjões a acenderem a lareira, sendo que dois deles claramente são clientes fidelíssimos da Prozis e gastam muito mais dinheiro que eu em depilação. Não seria traumatizante, por si só, não fosse o caso de eles estarem a proceder ao  arcaico ato de fazer fogo… Todos nus… E de cócoras. Não é um bom look. Nem o Ryan Gosling eu queria ver a acender a lareira. Todo nu. De cócoras. Quer dizer, agora que penso nisso… Se calhar… Bom, mas não é este o tema. Infelizmente.

Dado o exposto, a minha relação com o “Começar do Zero” estava destinada ao insucesso. Mas, de forma totalmente abnegada, senti que devia dar uma outra oportunidade ao formato. Não, não foi porque tinha que escrever este artigo. Onde é que está a vossa esperança na humanidade?

Por falar em esperança da humanidade, o programa apresenta-se com o romântico propósito de demonstrar aos telespectadores, através do bravo exemplo dos pelados concorrentes que, num mundo tão consumista, em que as pessoas se medem pelos bens que possuem e não pelas suas qualidades intrínsecas, podemos sobreviver com muito menos e ser tão ou mais felizes… Esperem o que é isto que estou a ouvir? Uma sirene? “Alerta bullshit! Alerta bullshit! Alerta bullshit!”

Neste episódio, seguimos a saga desnuda dos concorrentes em vários pontos da sua epopeia naturista de dez dias. A cada dia, podem ir ao contentor e trazer um objeto à sua escolha. E é isto. E cus. Imensos cus.

Inês e Daniel

Inês e Daniel, um casal na casa dos 30, são apresentados aos telespectadores como uns viciados em telemóveis que se conheceram nas redes sociais. Daniel diz que não vai ter coisas para se entreter durante a experiência, por isso vai ter que se entreter com a Inês. Inês diz que espera que esta experiência torne o Daniel menos focado nos bens materiais, o que o preparará para, no futuro, ser melhor pai. Enquanto isto, vemos Inês a fazer o almoço do futuro papá, a pôr-lhe a mesa e a arrumar a cozinha. E o Daniel com o rabo alapado no sofá. Mas o “Quem Quer Casar com o meu Filho?” não tinha sido cancelado?

Testemunhei o momento em que o casal de despiu de tudo. Tudinho. Em frente aos operadores de câmara. Ao pessoal do áudio. Da iluminação. Assistentes de produção e maquilhadora. E de mais umas centenas de milhares de portugueses, eu incluída. E depois fizeram aquela coisa graciosa de pôr as mãos à frente da genitália. E das mamas, no caso da Inês. E senti a minha alma a deixar o meu corpo.

O Daniel a seguir foi acender a lareira, e eu já dormente, nem reagi. Noutro momento, tapou o pinto com um gato. Estava à espera que o IRA entrasse pelo apartamento adentro, mas infelizmente nada.

Marta e Mariana

Marta e Mariana, as gémeas, vão numa fase mais avançada e já conseguiram cobrir o corpitcho, para mal das audiências. Voltaram agora ao contentor e enquanto Marta optou pelas chaves do carro, Mariana escolheu um casaco, porque diz estar a ficar doente. E sim, isto tem zero interesse, estou de acordo convosco.

Mas a coisa muda de intensidade. As gémeas pegam-se uma com a outra e protagonizam uma discussão à beira-rio. “Cala-te!” “Não, cala-te tu!” “Só dizes porcaria!” “Tou farta!” Não, afinal isto continua a não interessar nem ao menino Jesus.

Rui, David e Tiago

Os três amigos do Montijo, Rui, David e Tiago,  (cujas nalgas acocoradas ficarão para sempre gravadas no meu imaginário, so help me God) estão a passar por um momento bastante emocional, uma vez que Rui, o armário mais alto, aguarda confirmação da namorada se vai ser pai. O que calha sempre bem num reality show. Isso e nudez.

Os montijenses decidem organizar um treino (sim, dois deles são PT, cliché de reality alert!) afim de amealharem fundos para alimentar os bíceps em desespero por prota. Mas nada disto é verdadeiramente importante, perante o facto de David usar leggings camufladas. O que é quase tão mau como vê-lo nu, de cócoras, a acender a lareira.

Júlia e Alice

Depois, temos Júlio e Alice, um casal com dois filhos que devem ser umas pestes tais que os pais preferiram ir para um programa exibir o fatinho que Deus lhes deu do que aturá-los. Estou a brincar, eles parecem adorar os filhos. Se bem que eu diria que ter o befe dos pais em HD na televisão nacional não lhes deve dar propriamente pontos de popularidade na C+S lá do sítio.

O Júlio tem tanto de totó, como de fofo. Ofereceu-se para trabalhar em troca de um jantar romântico para surpreender Alice. Para isso, pediu-lhe que escolhesse um vestido no contentor, o que demorou cerca de 153 horas. E eis que surge novo momento dramático. Rufo de tambores: Alice não tem soutien para usar com o vestido e não está a saber lidar com isso. Mudei de ideias: o Julio não é um totó, é o Ghandi.

Júlio e Alice chegaram ao fim da experiência, decidiram “destralhar” a sua casa, vender o excesso para ir a Paris com os filhos e viver felizes para sempre. Viagem que nunca vai acontecer, quando perceberem que vão ter de gastar um dinheirão na terapia do mais novo que acidentalmente viu o traseiro do pai num ecrã LED de 49 polegadas.

Andreia e Fábio

Andreia e Fábio são dois amigos que têm em comum terem estado no First Dates, o que demonstra o seu claro interesse sociológico nesta experiência e não uma vontade desesperada por 15 minutos de fama. No episódio de hoje andam pela rua, enrolados em mantas, a pedir uma moedinha para comer qualquer coisinha. Tudo em nome do desenvolvimento pessoal, claro está.

No previously, tive a oportunidade de ver Fábio a chorar com saudades da família e Andreia a chorar com saudades da maquilhagem. Quem nunca chorou por um eyeliner? O mundo, Andreia, o mundo.

Aliás, há uma excepção e tenho a certeza que a comparação deixará a concorrente agradada: com esta sede de visibilidade, a exposição do corpo e a obsessão de maquilhagem, a Andreia está a um vídeo porno caseiro de ser a nossa Kim Kardashian.

Fabiana

Fabiana é uma brasileira a morar em Portugal e é a única a participar no programa a solo. Percebo a Fabiana. Eu preferia andar em Portugal, sozinha, com uma mão à frente e outra atrás, do que num país presidido por Jair Bolsonaro.

Assisti à Fabiana a lavar-se “à gato” com água fria (porque não tem esquentador) e a limpar-se com papel higiénico (porque não tem toalha). Eu, toda a equipa técnica e algumas centenas de milhares de telespectadores. E só não senti a alma a sair do corpo, porque o strip da Inês e do Daniel já tinha feito isso.

A seguir, a brasileira foi ao contentor buscar um objeto. O quê, perguntam vocês? Esquentador? Gel de banho? Uma toalha? Não. Maquilhagem. SEF, deportem esta gaja e enfiem a Andreia no contentor, de bónus.

E foi assim a minha primeira experiência do “Começar do Zero”. Que podia ser resumida numa frase: lareiras, maquilhagem e cus em barda. Dava um bom título para um filme pornográfico. Mas resulta num péssimo programa de televisão. Resumindo: estou conquistada.

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