Televisão

A chocante violação que fez parar os EUA — e dividiu os emigrantes portugueses

A história de Cheryl Araújo é revisitada na nova série documental da Netflix. Uma tragédia que envolveu câmaras, xenofobia e uma comunidade destroçada.
O caso enraiveceu a comunidade emigrante.

Era domingo e os irmãos Daniel e Michael O’Neill conduziam a horas tardias pelas ruas de New Bedford, uma pequena cidade costeira do estado de Massachusetts. Um vulto de uma mulher despida, apenas de casaco e com uma meia calçada, surgiu no meio da estrada.

Daniel abriu a porta e, sem tempo para perceber o que se passava, sentiu-a a prender-se ao seu pescoço, como quem procura refúgio. Ao longe, um grupo de homens parou, observou e regressou para o interior de um bar.

Incapaz de a soltar, Daniel teve que esperar pela polícia, que se viu forçada a arrancar a mulher do colo do norte-americano. “Fui fuzileiro e posso dizer que nunca vi ninguém tão assustado como ela nessa noite. Assustou-me o quão aterrorizada ela estava”, revelou anos mais tarde ao “The Herald News”

A noite de 6 de março de 1983 foi negra para a enorme comunidade portuguesa de New Bedford, onde descendentes e luso-americanos compunham cerca de 60 por cento da população. Nessa noite, Cheryl Ann Araújo foi vítima de uma violação cometida por quatro emigrantes portugueses — um crime que não abalou apenas a pequena cidade, mas todo o país.

Aquele que se tornou no primeiro julgamento de um crime de violação a ser transmitido na televisão, é também um dos casos revisitados pela nova série documental da Netflix, “Trial by Media”. A história deu também origem ao filme “The Accused”, de 1988, protagonizado por Jodie Foster, que lhe valeu o Óscar para Melhor Atriz.

Uma bebida no Big Dan’s

Cidade piscatória com uma forte tradição baleeira, New Bedford tornou-se num dos destinos preferidos dos emigrantes das ilhas da Madeira e dos Açores, que ali começaram a assentar no século XIX. As gerações sucederam-se e apesar de muitos conhecerem apenas Portugal das histórias e descrições dos pais e avós, a comunidade não perdeu a identidade.

Em 1975, o “The New York Times” descrevia uma comunidade de velhos e novos, onde mesmo neste últimos se mantinha a tradição de falar português. Cheryl Araújo era uma dessas filhas da comunidade de emigrantes.

Aos 21 anos, a luso-americana, mãe de duas filhas, regressava a casa na noite de 6 de março, quando reparou que já não tinha tabaco. A poucos metros estava o Big Dan’s, um bar frequentado por portugueses. A visita que se previa rápida acabou por demorar, depois de um encontro casual com uma empregada que conhecia. As duas ter-se-ão sentado para beber um copo e Cheryl acabou por ficar sozinha até acabar a bebida. Ao levantar-se para sair, uma mão puxou-a pelo braço.

De acordo com os relatos do julgamento, Cheryl foi violada por quatro homens durante cerca duas horas, em cima de uma mesa de bilhar. Atrás deles, pelo menos mais dois indivíduos aplaudiam e incentivavam os emigrantes que haveriam de ser acusados de violação: Joseph Vieira, Daniel Silva, Victor Raposo e John Cordeiro.

Os quatro acusados.

Carlos Machado, empregado do bar, revelou na altura que tentou chegar ao telefone para chamar a polícia, mas que terá sido impedido por um dos acusados. Terá também dado uma moeda a outro cliente para que fosse ele a fazer a chamada, mas ninguém ousou intervir. 

Cheryl acabou por conseguir escapar para a rua. Os quatro homens desistiram da perseguição quando a viram ser auxiliada pelos irmãos O’Neill.

Os portugueses, “esses bárbaros”

A comunidade portuguesa não voltou a ser a mesma depois dessa noite. O caso atingiu proporções nacionais e tornou-se alvo de todas as atenções — e piadas. A revista “Hustler” publicou um falso postal de uma mulher nua em cima de uma mesa de bilhar, onde se lia: “Saudações de New Bedford, Massachusetts, a capital americana da violação portuguesa em grupo”.

Nas notícias, não se falava de “quatro violadores”, mas sim de “quatro violadores portugueses”. “De repente, vemos nomes portugueses na ‘Time’, nos canais de televisão. Porque é que se focam no aspeto étnico do crime? Porquê dizer que eram quatro portugueses e não apenas quatro homens?”, dizia à época Manuel Ferreira, editor do jornal local da comunidade, o “The Portuguese Times”.

Isso, claro, refletiu-se na opinião pública. Do lado português, havia uma comunidade irritada com as acusações. Nas rádios, os programas de opinião pública eram inundados com telefonemas de norte-americanos revoltados.

“Não contribuem com nada para o país. Não entendem os nossos costumes nem querem entender. Este país não é como Portugal”

“Não contribuem com nada para o país. Não entendem os nossos costumes nem querem entender. Este país não é como Portugal”, dizia uma ouvinte. O mesmo discurso xenófobo era repetido vezes sem conta: “Compram uma casa velha e arranjam-na, fazem coisas bonitas, mas não tentam compreender como é que as coisas se fazem cá, não tentam envolver-se na comunidade.”

“Fomos vistos como bárbaros, os nossos princípios foram atacados. Toda a comunidade foi arrastada pela lama”, recorda no documentário Helena da Silva Hughes, luso-descendente e diretora do Centro de Assistência aos Imigrantes.

Entre pedidos para colocar os portugueses em barcos e mandá-los “de volta para o país deles”, a reação dos emigrantes foi a esperada.

“Isto enoja-me. Deviam ter vergonha, as pessoas que ligam para a rádio. Os portugueses nunca se vão esquecer disto”, ameaçou outra ouvinte.

Todos contra Cheryl

Detidos por suspeita de terem sido os violadores da noite no Big Dan’s, os quatro homens viram a comunidade juntar-se em sua defesa. Foram angariados cerca de 20 mil euros para pagar a fiança e colocá-los em liberdade, pelo menos até ao julgamento. 

A reação instintiva de defesa dos irmãos luso-descendentes deu origem a uma reação contra Cheryl. “Uma mulher só é violada se quiser (…) se ela vai a um bar e se atira aos homens, o que esperava?”, comentava à época Desley Cruz, moradora de New Bedford, em declarações à televisão.

Cheryl tinha 21 anos na noite do crime

O sentimento era comum também entre alguns norte-americanos. Num programa de televisão onde se debatia o caso, um homem levantou-se na plateia e argumentou: “Quando é que há violação? Talvez ela tenha entrado [no bar] e quis fazer sexo com uns quantos homens e a coisa descontrolou-se”. Apupado, desculpou-se. “Não sei, mas são coisas que acontecem.”

Apesar de algumas associações preocupadas com casos de violações e dos direitos das mulheres terem organizado uma vigília, pouco ou nada foi feito para mudar a onda de críticas. No centro da questão, a injustiça e a incompreensão do tipo de crime — e da tendencial vitimização da mulher.

“A violação é um crime, mas muitas vezes as alegadas vítimas não foram violadas. Elas consentem e depois, por alguma razão, tornam-se vingativas”, chegou a racionalizar Sam Adam, advogado de defesa de um dos acusados.

No meio de todo este turbilhão estava uma atemorizada Cheryl, que continuava a viver na comunidade de New Bedford, lado a lado com os que a acusavam de ser uma mentirosa.

A novela no tribunal

“Sou a favor da transparência. Percebi que ter uma câmara no tribunal tinha um benefício público — e tomei essa decisão”, revelava o juiz William Young, encarregue do caso da violação no Big Dan’s. O julgamento seria, então, transmitido integralmente num canal por cabo.

A enfrentar o seu primeiro grande caso mediático, Young confessou que tomou a decisão “a bem da transparência”. “A ideia fascinou-me”, explicou, antes de oficializar algo inédito: o caso seria o primeiro de uma violação a ser emitido na televisão.

Um ano depois da noite trágica, os procedimentos começaram. Na CNN local, a emissão do julgamento era exibida por vezes durante três horas diárias.

No documentário é relatado o impiedoso cerco montado a Cheryl pelos vários advogados de defesa. Um atrás do outro, tentaram descredibilizar a vítima. Teria sido um ato consensual? Uma noite de loucura? Poderia Cheryl estar sob o efeito de drogas?

“Se vive com um homem, o que é que anda a fazer pelas ruas a ser violada?”, perguntou o advogado Edward Harrington

“Se vive com um homem, o que é que anda a fazer pelas ruas a ser violada?”, perguntou a certa altura o advogado Edward Harrington. 

O tom não melhorou com a subida ao palanque dos acusados. “Passei por ela e perguntei: ‘Chupas?’. Ela riu-se e eu disse-lhe: ‘Não mordes, pois não?’. Ela olhou para mim e riu-se, por isso tirei-o. Pu-lo ao lado da boca dela. Peguei nele, ela abriu a boca e enfiou-o”, testemunhou um aparentemente relaxado John Cordeiro.

John Cordeiro durante o testemunho.

A transparência pedida pelo juiz Young e a abertura à comunicação social acabou por fazer ricochete. Com toda a comunidade a devorar cada minuto de um julgamento transformado em telenovela, a vítima voltou a ser, sem grande surpresa, Cheryl.

A luso-descendente ganhou coragem e testemunhou perante a audiência, o júri, o juiz e, sobretudo, os advogados de defesa, preparados para um contra-interrogatório impiedoso.

Antes do início do julgamento, William Young tinha feito um acordo com a imprensa: ninguém revelaria a identidade da vítima. O mesmo cuidado seria tido no dia do depoimento, com a câmara presente proibida de filmar Cheryl. Só um pormenor escapou.

Ao apresentar-se no palanque, foi exigida, como é sempre, a sua identificação, morada e detalhes. A vítima acabou por divulgar, para a televisão nacional, onde nasceu, onde morava, que escolas frequentou e, por fim, o nome completo. Não seria difícil descobrir de quem se tratava.

“O facto de o nome dela ter sido revelado é da minha responsabilidade. Os média prometeram que o nome não seria revelado. Era tão universal que, confesso, presumi que manteriam essa posição num julgamento televisivo. Mas não. Cometi esse erro e arrependo-me muito”, confessou o juiz.

O dia seguinte

A animosidade contra Cheryl subiu de tom. “Tinha duas filhas, estava preocupada”, confessou um dos seus advogados. O cenário piorou no dia da leitura da sentença.

Virgílio e José Medeiros, acusados de terem incentivado os atacantes, foram ilibados. Os quatro violadores foram efetivamente condenados pelo crime de violação agravada, cujas penas poderiam chegar à prisão perpétua. Nenhum deles cumpriu mais do que mais de seis anos de prisão efetiva.

Houve cenas de pancadaria à saída do tribunal.

A decisão voltou a espicaçar a raiva da comunidade luso-descendente e, sobretudo, dos amigos e familiares, que atacaram os jornalistas à saída do tribunal — e apuparam os jurados.

Nos dias que se seguiram, milhares de emigrantes participaram numa manifestação em New Bedford, que reuniu cerca de três mil pessoas, num protesto contra a condenação, sentida como uma afronta pela comunidade. Um dia depois, na cidade vizinha de Fall River, juntavam-se 10 mil manifestantes.

“Toda a comunidade portuguesa foi julgada. É injusto”, criticava uma das participantes, enquanto se ouvia entoar a máxima “o povo unido jamais será vencido”.

O protesto terá juntado 10 mil pessoas.

Alda Melo, organizadora do grupo que angariou fundos para pagar a fiança aos quatro homens, frisou que eram todos “contra as violações”, mas que não podiam deixar que os imigrantes fossem “o bode expiatório”.

Os ânimos exaltaram-se e nas declarações dos manifestantes encontravam-se as razões que tanto assustaram Cheryl, que acabaria por ter que deixar a cidade onde nasceu. “Ela não vale o que estes rapazes estão a passar. Ela nem merece a terra que pisa. Não deviam ter feito o que lhes fizeram só por causa dela. Ela não vale nada”, concluiu outra manifestante em declarações à televisão local.

A rejeição e o medo levaram Cheryl a mudar-se com as filhas e a irmã para Miami. E o receio era justificado. Até os irmãos O’Neill, que a ajudaram na noite de 6 de março de 1983, foram alvo de ameaças por testemunharem a favor da vítima.

Em 1986, Cheryl Araújo vivia com dificuldades financeiras e tentava superar o alcoolismo. Foi a única vítima mortal de um acidente, no carro que conduzia e onde iam as duas filhas, que sofreram apenas ferimentos ligeiros. Estava sob o efeito do álcool.

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