Televisão

“Big Brother”: Diogo tem um problema e explorá-lo para entretenimento é só manhoso

O humorista e cronista Miguel Lambertini analisa o mais recente programa do reality show da TVI.
Diogo foi confrontado por Cláudio Ramos.

“Hoje é a noite da verdade e da mentira”, anuncia a voz-off no início de mais uma gala, na TVI. E continua: “Eu sou o Big Brother: passados 63 dias restam apenas 9 de vocês”. Achei piada porque fez-me lembrar eu em quarentena a olhar para o pacote de papel higiénico. Era noite da verdade e da mentira mas, como a Teresa — que é das concorrentes que o público menos apoia nas redes sociais — ficou na casa e o Daniel Guerreiro — que é dos concorrentes mais apoiados nas redes sociais — foi expulso, pareceu-me mais noite da mentira do que da verdade. Mas claro, como em todas as boas séries de ficção, também nesta tem de haver um vilão implacável e a Teresa está perfeita no papel. 

Já o nosso mestre de cerimónias, Cláudio Ramos, apresentou-se com um fato double breasted cor de semáforo naquele segundo em que está a passar do amarelo para o encarnado, a fazer lembrar a farda de um funcionário da bomba da Galp de Saint-Tropez nos anos 40. Mas quem eu gostei mesmo de ver nesta gala foi a mais recente aquisição ao painel de comentadores do programa, Alexandre Monteiro, que se apresenta como “especialista em decifrar pessoas”. 

Fiquei logo de pé atrás, porque normalmente todas as pessoas que se auto intitulam especialistas é logo para desconfiar. Remete-me para aqueles grandes intelectuais do “Correio da Manhã”, como o Prof. Mamadu ou o Professor Karamba, que são “especialistas em trabalhos ocultos” e resolvem todo o tipo de problemas: “Amor, negócios, família” ou até mesmo “impotência sexual” e, claro, o meu preferido, “amarrações”. Não sei o que é mas gosto de pensar que se nos bloquearem o carro eles arranjam uma maneira de nos safar sem termos de chamar a EMEL. 

Mas Alexandre Monteiro é hipster e, como tal, é uma versão moderna de especialista em coisas. Com os seus oculinhos de Álvaro de Campos a ver navios, barba farta e botão da camisa fechado até cima que me deixou com falta de ar e claustrofobia, o especialista consegue decifrar o que as pessoas estão a pensar, só de olhar para elas. Sim, eu sei que parece totalmente tanga — perdão, totalmente incrível —, mas nada como comprovar a técnica ao vivo.

Eu a ver o especialista a decifrar pessoas.

Para esse efeito, Alexandre levou um aparelho tecnológico de alta precisão científica. Não levou nada, era só uma placa ridícula de plástico com a cor verde de um lado e encarnada do outro para usar durante a conversa de Cláudio Ramos com Daniel Guerreiro e identificar as respostas em que este supostamente diz uma verdade ou uma mentira.

Através deste género de máquina da verdade da loja dos chineses, Alexandre esmiúça o comportamento do concorrente e ora mostra verde ora mostra vermelho. “Nota-se perfeitamente que há uma incongruência nesta declaração, por causa do movimento dos pés”. E Cláudio pede para passar o vídeo onde se vê o concorrente com os pés completamente imóveis. Alexandre retifica e diz que ali, naquele clip, afinal é mais o movimento do corpo. “Quando estamos a mentir temos a tendência de abanar o corpo de um lado para o outro”, justifica. Faz todo o sentido, eu sempre disse que o Stevie Wonder era um grande mentiroso, quem toca piano daquela maneira não pode ser cego. 

“Acordem-me quando for a minha vez.”

Já sabíamos que Cláudio Ramos se irrita muito com concorrentes que ele considera que não se entregam totalmente ao jogo e, para Cláudio, Diogo é um desses concorrentes. Por isso o apresentador achou que era boa ideia confrontá-lo no confessionário, com o facto de este se debater com problemas do foro psicológico que o levaram a recusar fazer algumas provas. 

“Como é que está o seu estado de espírito?”, começa por perguntar o apresentador. Diogo responde que está muito bem. A resposta desencadeia aquele nervoso miudinho que Cláudio não consegue disfarçar. “Há algumas coisas que o Diogo se recusa a fazer e eu pergunto-me porque é que o Diogo faz isto?” Depois desta interrogação de Cláudio, vemos imagens da semana do concorrente na casa completamente deprimido e com declarações de que não é preciso ser psicólogo ou psiquiatra para perceber que se trata de alguém com problemas legítimos de saúde mental. Mas Cláudio continua muitíssimo indignado e parece não querer perceber que pedir a alguém com doença bipolar ou depressão — como é o caso — para fazer exercícios brutais de auto-avaliação é o mesmo que pedir a um alcoólico em recuperação para fazer uma prova de vinhos e achar que ele está a ser arrogante por se recusar. O Diogo tem um problema e tentar explorar esse problema a todo o custo em prol do entretenimento é só manhoso e não se faz. 

Depois deste momento, Cláudio pede a Teresa e a Diogo para ficarem frente a frente na Sala da Verdade para lhes mostrar um vídeo onde ambos falam um do outro e no qual basicamente Teresa destrata Diogo e Ana Catharina, que acusa de “abrir as pernas passado uma semana”. Comentário que seria mais tarde destruído, com toda a classe, pela concorrente brasileira naquela que ficará para a história do Big Brother como uma das melhores frases para estampar numa T-shirt: “As pernas são minhas e eu abro aonde, na hora e para quem eu quiser.” Pumba. 

Ana Catharina a usar as pernas quando e onde quer.

Mas, dizia eu, na Sala da Verdade os dois concorrentes não podem mentir e têm dois minutos para dizer apenas verdades cara a cara. Diogo começa por dizer que Teresa está “muito bonita” e que “o vestido realça os seus olhos lindos” e os dois gastam os dois minutos sem fazer um festival de insultos como Cláudio esperava que acontecesse. Depois disto, o apresentador não se contém, todo ele é nervos, todo ele é irritação. “Eu tenho 46 anos, por isso a mim só me fazem de parvo quando eu quero”, dispara, antes de fechar para intervalo. Calma, Cláudio, tanto stress, credo. Relaxa, homem, se for preciso tenho a certeza de que o Diogo pode dispensar-te meia hora da consulta dele com a psicóloga, que esta semana ele é líder por isso vai estar mais relaxado.

“‘Tás bem, o meu pai bateu-te?”

O amor continua a pairar na casa da Ericeira e 59 dias depois — benza-te Deus — Guerreiro e Soraia chegaram a vias de facto. Depois de quase dois meses em flirt, finalmente um beijo. É fixe, com este rácio prevejo que cheguem a “second base” lá pelo Natal e a primeira noite de sexo muito provavelmente será em 2075, quando ambos escaparem pela calada da noite dos seus quartos, no lar de Santa Teresa Guilherme dos Realities. 

A minha reação quando a Soraia e o Daniel deram o primeiro beijo.

Entretanto, Daniel Monteiro perdeu a vergonha e mandou um avião a pedir Iury em namoro, a coleguinha da quarta classe de que ele gosta. O bombeiro escreveu a linda frase: “Iury, queres namorar comigo? Amo-te, Dany”. A Miss New Jersey ficou muito emocionada, aceitou o pedido e aproveitou para dar mais um módulo do seu workshop “como fingir que se está a chorar de emoção de forma completamente fajuta”.  Mas o pedido não iria ficar por aqui porque a produção do programa deixou o bombeiro ir ao telhado da casa fazer o pedido ao vivo. Ao som de musiquinha pirosa de fundo, vemos Daniel a dirigir-se do estúdio para a carrinha que o levará de regresso à casa da Ericeira. Um regresso que curiosamente poderá voltar a acontecer, isto porque num volte de face a que já nos habituou — há quem chame inventar regras novas todos os dias — dois ex-concorrentes do programa vão poder voltar a entrar na casa.

Os concorrentes terão desafios dados pelo BB e podem ganhar prémios específicos. Infelizmente, os ex-concorrentes que poderão entrar resumem-se apenas aos que participaram nesta edição, mas é pena porque acho que todos íamos gostar de ver fechados na mesma casa, por exemplo, o Marco Borges e a Gisela Serrano. Ia ser um pagode. Por falar em violência física, já no telhado da casa, Daniel Monteiro surpreende Iury e pede-a em namoro, agora cara a cara. A concorrente aceitou mais uma vez, mas a sua grande preocupação era saber se o agora namorado já tinha conhecido o seu pai. “‘Tás bem, o meu pai bateu-te?” pergunta Iury com o seu estilo peculiar. Daniel responde que está tudo bem, até porque depois de conhecer a mãe de Iury, D. Soledad, não há pai que meta medo.  

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