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“Athlete A”: como as vítimas forçaram o encerramento do rancho dos Karolyi

As ginastas continuaram a treinar naquele local após terem sido denunciados os abusos sexuais por parte do médico Larry Nassar.
Márta Karolyi treinava com violência verbal e física.

Durante vários anos, o rancho Karolyi, no estado americano do Texas, serviu de centro de treino da USA Gymnastics. Ao mesmo tempo, era o sítio onde o médico Larry Nassar especialista reputado que acompanhava os atletas abusava sexualmente de centenas de raparigas menores de idade.

Após décadas a cometer estes crimes, sem nunca haver consequências, finalmente em 2018 Larry Nassar foi condenado por abuso sexual e por posse de pornografia infantil no total, a sentença foi de mais de 200 anos. Ou seja, Nassar está a cumprir uma pena de prisão perpétua.

Todo este escândalo sexual, que abalou a USA Gymnastics, é contado no novo documentário da Netflix, “Athlete A: Abuso de Inocência”, que estreou a 24 de junho na plataforma de streaming. Já contámos esta história na NiT, mas neste artigo focamo-nos em específico no rancho onde a maioria dos crimes aconteceu.

O local perfeito para cometer abusos

Integrado numa floresta nacional, o complexo de oito quilómetros quadrados fica a uma distância de vários quilómetros da cidade mais próxima. O único acesso era uma longa estrada de terra batida que parecia prolongar-se por “uma eternidade”, segundo algumas atletas.

O local tinha pouca rede de telemóvel e era pedido aos pais que não visitassem os filhos, já que os atletas precisavam de estar isolados e concentrados para treinar com os exigentes Karolyis, Béla e Márta, os treinadores romenos.

Béla tinha sido um atleta antes de se tornar treinador foi numa equipa que treinava que conheceu Márta, a estrela da ginástica do grupo. Casaram-se em 1963, e mudaram-se para uma pequena cidade na Roménia onde começaram a dar aulas de ginástica numa escola.

Depois do sucesso que obtiveram, foram convidados pelo governo para criar uma rede nacional de escolas de ginástica. Pouco tempo depois, estavam a treinar a seleção nacional da Roménia da modalidade. Acabaram por se desentender com pessoas poderosas ligadas ao regime e tiveram de procurar asilo noutro país escolheram seguir o sonho americano e mudar-se para os EUA.

Inicialmente, o rancho que adquiriram era para ser uma quinta para escapadinhas de família, mas como eram obcecados com ginástica, não demorou muito até construírem um centro de treino na propriedade.

Os romenos tinham um método agressivo. Usavam táticas de medo e intimidação com violência verbal e até física para obrigarem as atletas a treinarem no limite, para se tornarem cada vez melhores, mesmo que às custas do seu sofrimento emocional e psicológico. Quando se mudaram para os EUA continuaram a usar as mesmas técnicas.

“[Este escândalo] não podia ter acontecido noutro desporto senão na ginástica. Estas miúdas são preparadas desde muito novas para negarem a suas próprias experiências. Doem-te os joelhos? Estás a ser preguiçosa. Tens fome? És gorda e gananciosa. São treinadas para duvidarem dos seus próprios sentimentos e é precisamente por isso que é possível que isto tenha acontecido a mais de 150 delas”, disse a antiga ginasta americana Jennifer Sey.

Em comparação com os Karoliys, Larry Nassar era visto por muitos como um dos membros mais simpáticos e cordiais do staff apesar de abusar sexualmente de muitas das atletas menores.

Béla e Márta nunca foram acusados de nada, mas muitas vítimas e advogados envolvidos acham difícil como é que não sabiam dos crimes que aconteciam na sua propriedade. Numa entrevista no “Today Show”, Márta alegou que, tal como havia pais que tinham participado em sessões de fisioterapia com as filhas e Nassar e não tinham percebido o que se passava, ela também não sabia de nada.

O passado recente (e o presente) do rancho

Em julho de 2016, mais de um ano depois de Maggie Nichols a primeira vítima a expor a situação, que ficou conhecida precisamente como a “Athlete A” , a USA Gymnastics anunciou que ia comprar o centro de treinos aos Karolyis.

O casal iria reformar e, ainda assim, iriam manter certas partes daquele terreno, incluindo a sua casa e uma cabana de caça que Béla tinha construído. O negócio ia acontecer com valores a rondar os 2,6 milhões de euros.

Quase um ano depois, a USA Gymnastics recuou na proposta, alegando que havia “gastos financeiros inesperados relacionados com a propriedade”. Nesta altura, a imagem pública que existia do rancho já era imensamente negativa, depois de centenas de vítimas terem acusado Larry Nassar de abusar sexualmente delas naquele local.

Apesar de desistir do negócio, a USA Gymnastics continuou a usar o rancho para treinar as suas equipas nacionais de ginástica. 

Só em janeiro de 2018, quando a atleta medalhada Simone Biles disse num comunicado como não gostava de voltar àquele local onde tinha sido abusada (tal como muitas outras vítimas) é que a organização desportiva encerrou o seu acordo com os Kariolys. A equipa americana agora treina noutro local de Indianápolis, a centenas de quilómetros.

Béla e Márta Kariolyi mudaram-se para os EUA, vindos da Roménia.

Os Kariolys processaram a USA Gymnastics e o Comité Olímpico Americano depois de recuarem no acordo. Queriam obter algum tipo de indemnização financeira, já que não iam conseguir vender a propriedade.

O processo é complexo e está envolto na própria investigação aos crimes da USA Gymnastics porque o então presidente da organização desportiva, Steve Penny, foi indiciado de encobrir provas dos abusos de Larry Nassar aliás, o documentário da Netflix tem muitas alegações de encobrimento por parte da organização, que apenas queria manter o seu bom nome e os indispensáveis patrocínios.

Steve Penny foi detido por manipular provas, ao ter retirado documentos do rancho e os ter levado para a sede da USA Gymnastics onde alegadamente os iria destruir ou esconder. Penny negou todas as acusações e aguarda neste momento pelo julgamento. De qualquer forma, o rancho continua a fazer parte do processo.

Béla e Márta Kariolyi já não se encontram no ativo a última competição em que participaram foram os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, no Brasil, onde a equipa americana feminina venceu nove medalhas. Poucos meses depois, o escândalo tornar-se-ia público.

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