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Almoçámos no Solmar Canas: a comida é boa — mas a novela Ana e Paulo não acabou

Apesar de estar a servir às mesas, o dono garante que fez também o almoço: um belíssimo polvo à lagareiro.
Estava vazio.

A fachada cinzenta em metal do Solmar Canas é pouco convidativa e faz com que o restaurante passe ainda mais despercebidos numa rua movimentada das Caldas da Rainha. A NiT entrou no restaurante às 12h45, na quinta-feira, 5 de dezembro, graças ao GPS. Sem ele, teríamos apenas seguido caminho sem perceber que o Solmar Canas estava por ali. A falta de atenção dos clientes foi precisamente um dos motivos em destaque no espaço que serviu de cenário para o episódio de “Pesadelo na Cozinha”, que foi transmitido este domingo na “TVI”. 

Logo à porta está um homem com enormes olhos azuis — mais tarde percebemos que é o pai de Paulo, o dono do restaurante — que nos deixa entrar no restaurante que foi completamente renovado pela produtora Shine Iberia Portugal.  O espaço ficou mais amplo, bem decorado e com toque alentejano. A cozinha tem uma janela enorme aberta para a sala e, à primeira vista, não há sinais de sujidade por ali. Ao contrário do que vimos na televisão, as mesas estão praticamente vazias — há apenas dois casais a almoçar.

Não é difícil encontrar Paulo Carlos, o dono do Solmar Canas que está a gerir o espaço sozinho há dois anos. Sai a correr da cozinha para atender o telefone e depois pega na vassoura para limpar algo que caiu no chão. No fundo, faz tudo o que é preciso.

“A gente nunca pode contar com ninguém, só connosco. Já lavei o chão, fiz comida…”, diz bem alto para quem quiser ouvir. Na altura ficámos sem saber ao que se referia, mas depois de ver “O Pesadelo na Cozinha”, percebemos que o homem de 46 anos continua a queixar-se do mesmo: não arranja bons funcionários para trabalhar.

Escolhemos uma mesa do canto e passados dois minutos um empregado alto — que não apareceu no último episódio — entrega-nos a carta e o couvert: azeitonas bem condimentadas, manteigas, pão e broa de milho fresca. Não há vestígios das famosas baratas e do pouco que é possível ver da cozinha, parece ser tudo novo. 

A cozinha está mais limpa.

Uma das mudanças mais drásticas implementadas por Ljubomir foi a carta — que, à data das gravações, tinha cerca de 72 pratos. No programa, o chef sugeriu várias entradas frias e apenas quatro pratos principais. Contudo, não foi isso que encontrámos por ali. Longe disso, até.

A nova lista tem 18 pratos e não inclui o famoso bacalhau à Brás tão falado no programa. “Se mantivesse apenas as opções do chef ia acabar por fechar o restaurante”, diz-nos mais tarde Paulo.

Outras das opções que regressou para a carta (duramente criticada em “O Pesadelo na Cozinha”) foi a diária a 10€. Inclui pão, azeitonas, sopa, prato, uma bebida e café. “Não podia deixar de fazer isto porque os clientes pedem. Mesmo assim somos o segundo restaurante das Caldas com esta opção mais cara”.

Nas críticas ao restaurante no TripAdvisor fala-se muito de um polvo à lagareiro (13,50€), por isso esta foi a nossa primeira escolha. Mandámos vir também os secretos de porco ibérico (10,50€) e uma salada de bacalhau para começar.

O famoso polvo à lagareiro.

Na carta existem mais duas entradas com camarão e as petingas fritas — Ljubo avisou Paulo que tinha mesmo de aproveitar as centenas de quilos que tinha guardados na arca.

O pedido chegou à mesa pouco tempo depois. A salada de bacalhau era saborosa, mas estava demasiado gelada. Ao mesmo tempo, Paulo estava dentro da cozinha sem manter qualquer contacto com as duas funcionárias. O mal-estar entre ele e Ana mantém-se, por isso evitam ao máximo falar um com o outro. Durante a conversa com a NiT, Paulo até a acusou de lhe querer estragar a vida.

Ao contrário do que aconteceu nas gravações, não foi preciso esperar demasiado para que os pratos principais fossem servidos. Afinal, também não existia grande motivo para isso: o restaurante continuava vazio. Paulo diz que a culpa é da TVI. “Enquanto eles estiveram cá, as pessoas chegavam à porta, viam as câmaras e ficavam com medo de entrar. Uma casa vai-se abaixo com essas coisas. E depois foi o passa palavra.”

Sobre o tal polvo, confirmou-se: era mesmo bom. Ele foi servido com batatas cozidas com pele e açorda de broa de milho com feijão frade, estava super tenro, a desfazer-se na boca. Os secretos bem cortados e grelhados no ponto certo confirmaram aquilo que se viu no programa: o problema do Solmar Canas não é a qualidade da comida, mas sim a má gestão.

E o ambiente: é impossível não perceber a hostilidade entre Paulo e a cozinheira Ana. Embora trabalhem juntos há vários anos, nem sempre as coisas correm bem. O dono contou à NiT que Ana já fez queixa dele à ACT por causa de salários em atraso, mas que não diz nada sobre o facto de nem sempre cumprir os horários acordados. Realmente, no dia em que a NiT lá esteve, a cozinheira saiu mais cedo do que era suposto. 

Os secretos no ponto.

Paulo queixou-se ainda de que ele é que tem de fazer tudo. Serve às mesas, prepara os pratos, limpa o restaurante… “Estava bom, não estava? Não me viu ir lá dentro? Fui eu que fiz tudo, obviamente,” conta.

No final da refeição — e depois de nos termos apresentado como repórteres —, pedimos ao dono do Solmar Canas para conhecer a cozinha. De facto, o espaço estava mais limpo e organizado do que quando Ljubomir Stanisic lá entrou pela primeira vez. 

Ainda assim, Paulo aproveita a oportunidade para falar sobre as misteriosas baratas. “Está a ver aquela tampa de esgoto ali à entrada do restaurante? No primeiro dia de gravações, ainda não estava cá o chef, saíram milhares dali de dentro. Foi uma situação muito estranha.”

A situação bizarra ficou por explicar. Afinal, logo nos primeiros minutos do programa, quando a “TVI” mostrou várias imagens soltas onde era possível ver duas baratas dentro do restaurante. Contudo, ao longo do episódio, não houve mais referências aos bichos.

Sem baratas, com uma casa mais limpa, uma cozinha nova e um espaço renovado, o maior problema do Solmar Canas está mesmo na má comunicação entre Paulo e Ana, que acaba por minar o ambiente do restaurante. Por isso mesmo, o dono pretende contratar mais um empregado até ao final do mês e dedicar-se à cozinha — aquilo que ele realmente gosta. Se isso acontecer, as coisas poderão correr melhor. 

Leia também o artigo da NiT sobre os bastidores das gravações do último episódio de “Pesadelo na Cozinha”.

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