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“This Is Us” levou-nos numa cápsula do tempo — e a viagem foi incrível

Neste episódio descobrimos como nasceu a casa onde Rebecca envelheceu. Ouvimos um recado de Jack. E voltámos a sofrer à grande.
Onde tudo começou.

Há alturas em que ver “This Is Us” é como experimentar aquelas diversões da Feira Popular. Não conseguimos deixar de o fazer mas sabemos que, depois de andar a abanar lá dentro, vamos certamente sair com o coração no peito e o estômago embrulhado. Aqui é igual: mas são emoções, memórias de infância, nostalgia e temas da vida que os argumentistas (e atores) da série abanam de um lado para o outro durante uma hora — e mesmo assim não queremos sair, porque é realmente uma viagem incrível. Depois de um período menos bom, “This Is Us” voltou oficialmente ao seu melhor. E sabemos disso porque a sensação de aperto no estômago no final de cada episódio também voltou.

O sucesso da trilogia “The Big Three: a Hell of The Week”, cujo último episódio deu por cá na passada semana, foi enorme a nível mundial. Numa altura em que a série, ainda que continuando a ser das mais vistas nos EUA (ao ponto de ter já a sexta temporada garantida enquanto vai na quarta), já pouco dava direito a debates na Internet, tudo voltou: as conversas dos fãs, as dúvidas, as tentativas de apanhar detalhes, as histórias cruzadas que são por vezes tão subtis que só nos apetece telefonar a quem viu e comparar opiniões.

Durante três semanas, acompanhámos a mesma semana infernal vivida pelos três filhos de Jack e Rebecca Pearson, também conhecidos como o melhor casal de todos os tempos. Primeiro foi Randall, a sobreviver a uma crise de nervos após um assalto interrompido; e à beira do esgotamento ao tentar lidar com aparente demência da mãe.

Depois disso, Kevin, numa missão para encontrar o amor e constituir família, a ir de impulso ao funeral da ex-mulher Sophie e a viver uma viagem ao passado que termina mal. E finalmente Kate, a recuperar do desgosto de saber que o marido não está a lidar bem com a cegueira do bebé de ambos. Porém, conseguiu descobrir um apoio incrível na sua mãe.

Em “The Cabin”, o episódio que foi transmitido na Fox Life esta quinta-feira, 20 de fevereiro, somos levados numa cápsula do tempo: literalmente. A história começa numa visita de família, quando os três irmãos ainda eram crianças (teriam uns 13 anos), à cabana que já tinha aparecido por diversas vezes na série — e que, descobrimos agora, tinha acabado de ser comprada nesta fase de ouro da vida dos Pearson: Jack e Rebecca apaixonados e cheios de planos, os miúdos ainda longe de crises de adolescência, mesmo que já com traços da personalidade futura.

Neste flashback do passado, Jack desafia os filhos a inaugurarem a cabana criando a tal cápsula no tempo: um hábito muito comum nos EUA, o de enterrar tesouros ou objetos num sítio especial, para depois os retirar passado uns anos (ou décadas) — e comparar as expetativas, personificadas numa roupa, num pedaço de papel ou numa foto, com a realidade.

Os três filhos reagem à ideia da cápsula com os tais traços tão característicos de cada um: Kate entusiasmada, Kevin a achar um valente desperdício de tempo, e Randall a criar uma enorme confusão, drama e crise de ansiedade por não conseguir decidir o que escolher.

No presente, os Três Grandes (como o pai lhes chamava), ou os Três Tristes (como se auto intitulam), com 39 anos, decidem voltar à cabana para passar um tempo juntos e recuperar de tudo o que de menos bom lhes está a acontecer.

Entretanto, acompanhamos de forma cruzada a parte da história de Kate que ficara interrompida no último episódio, deixando-nos então à beira de um ataque de nervos: a Kate adolescente/jovem com uns 17 anos, a namorar com um rapaz completamente agressivo e abusivo, a preparar-se para passar uma noite na tal cabana com ele, enquanto a restante família (já sem Jack) conduz de noite, guiada pelo instinto da mãe de que algo não está bem.

As três histórias, das três fases de vida, na mesma cabana, vão-se cruzando com uma imensa mestria. E mais uma vez percebemos como o passado e o que foi vivido na infância influencia o futuro (ou, tal como a ansiedade de Randall, em alguns casos simplesmente esteve sempre lá).

Mais à frente, iremos descobrir que o instinto da mãe tinha razão e que a Kate adolescente voltou, naquela noite da cabana, a ser maltratada pelo namorado Marc, que a deixou ao frio, num momento arrepiante que termina com Rebecca a salvar o dia. E acompanhamos Toby no presente, que ficou sozinho com o bebé Jack, a não só criar laços com o filho, como a ter a atitude certa, no momento certo (um susto de engasgamento), o que auspicia um futuro bem melhor para aquele lado da família. 

Jack na cabana, a desenhar a sua casa de sonho.

No entanto, no regresso na atualidade dos Três Grandes à cabana as coisas não estão fáceis, e mesmo no conforto desta casa e dos irmãos, Randall volta a estar à beira de uma crise de ansiedade: só porque não consegue falar com a mulher. Aos outros, acaba por confessar finalmente que talvez precise de terapia. Já Kate percebe que Kevin passou a noite com a sua melhor amiga, a juntar a todos os problemas que tem; e Kevin descobre que a mãe está a dar sinais de Alzheimer e que os irmãos esconderam isso dele, com medo do seu alcoolismo (é muito drama junto, mas ali faz sentido).

Neste tempo presente, descobrimos ainda como um pai dedicado nem precisa de estar lá para ter um enorme impacto na vida dos filhos. Isto porque, a dado ponto, depois de descobrirem que a cabana está sem luz e sem Wi-Fi que os permita comunicar com o mundo, os três Pearson adultos decidem desenterrar as cápsulas do tempo, e o que encontram é incrivelmente simbólico: Kevin tinha uma foto com Sophie, dando ainda mais impulso à torcida mundial para que os dois acabem juntos; Kate, um papel em que dizia sonhar casar com uma estrela, viver feliz para sempre e ter dois filhos; e Randall, que sem se conseguir decidir acabara por seguir o conselho do irmão: tinha uma peça de um puzzle que o seu pai criara, com uma foto de família.

Depois, desenterram os tesouros deixados pelos pais: o de Rebecca, um plano de uma casa, e o de Jack, uma cassete. Ao passarem a cassete, ouvem a voz do pai que, sem sonhar que não estaria presente naquele momento do desenterrar da cápsula, lhes explica que aquele projeto é da casa de sonho que quer construir naquele sitio mágico, uma ideia quase impossível mas que a sua mulher e mãe dos Três Grandes apoiou, como sempre faz com quem ama. 

Os Três Grandes a desenterrar a cápsula.

No momento incrivelmente emocional em que ouvimos a voz de Jack na cassete, percebemos muitas coisas, envoltos no tal murro da nostalgia de sentir que ele deixou um recado aos filhos para o ouvir com eles, sem sonhar que já lá não estaria depois.

E de seguida descobrimos, com um breve salto para o futuro, que é Kevin quem terá pegado no projeto do pai de construir uma casa incrível naquele sítio mágico, para Rebecca envelhecer. Percebemos que já tínhamos visto aquele lugar, uma mansão de madeira com enormes janelas para um grande jardim, no final da terceira temporada — num dos momentos que mais impacto e confusão criou aos fãs quando Randall, Beth, Toby e Kevin, já semi-envelhecidos, se juntam para visitar (ou despedir de) uma Rebecca doente e acamada. 

Percebemos tudo isto enquanto toca no fundo um tema que não só é uma das melhores músicas de sempre — “To Build a Home”, de Patrick Watson — como foi a canção que passou no episódio da morte de Jack. E agora sabemos que foi Kevin quem “built a home”: construiu a casa dos sonhos do seu pai.

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