Teatro e exposições

Pedro Pico, a drag queen que se tornou num fenómeno mundial a fazer sangria

Apaixonado pelo drag e pela comida, perdeu 70 quilos em dois anos e criou um negócio que explodiu na pandemia — e que vai chegar a 12 cidades do mundo.
Teresa Al Dente é conhecida por meio mundo. (Foto: Inês Lourenço)

De cabeleira loira impecavelmente penteada e lábios vermelhos carregados, Pedro Pico transforma-se em Teresa Al Dente. Em frente à câmara, interage com americanos, russos, italianos, japoneses. “Não vamos fazer isto com essas roupas. Vão ao roupeiro e ponham-se fabulosos”, atira. Seguem-se 90 minutos de pura loucura, que serviram de escape a confinados de todo o mundo.

Era uma estreia mundial. Aos 31 anos, foi o autor da primeira experiência online interativa do Airbnb que prometia revelar, numa lição por videoconferência, todos os segredos da sangria . O sucesso foi brutal e inesperado.

E o sucesso explica-se facilmente, na opinião de Pedro: “As pessoas estão fechadas em casa e de repente estão a ver drag queens a chamarem-nas pelo nome, a mandarem-nas mudar de roupa. Comentamos as fatiotas, as cozinhas deles. A meio da receita fazemos um lip sync na bancada. Se falta gelo, aparece uma drag queen vestida de Elsa do ‘Frozen’ e pomos toda a gente a cantar. Cantam, bebem, riem e vestem-se de forma ridícula a falar com pessoas de todo o mundo”.

A pandemia foi uma bênção para a Drag Taste, a empresa que criou e que combina“boa comida e drag queens”. Em pouco mais de três meses, a experiência “Sangria and Secrets” vendeu mais de 15 mil bilhetes, cada um ao preço de 30€ — uma receita de quase 500 mil euros. Infelizmente, também trouxe um contratempo. A Airbnb gostou tanto da aula interativa — os 12 principais executivos da empresa fizeram questão de experimentar a aula em primeira-mão — que se juntou a Pedro para a levar a 12 cidades espalhadas pelo mundo.

“Tínhamos tudo pronto para abrir em São Francisco e Barcelona, mas agora está tudo parado”, explica ao telefone, no dia a seguir ao seu aniversário, o único dia de folga dos últimos meses. “Há quatro meses que não tirava um dia para mim”, desabafa.

Pedro é o criador da Drag Taste.

Nas primeiras semanas da experiência chegou a fazer nove sessões num dia. “É desumano”, nota, mas admite que foi por uma boa causa. Ao contrário da tendência, a Drag Taste contratou e aumentou salários por três vezes durante a pandemia. As receitas aumentaram 500 por cento.

O sucesso não se resume à aula online. A Drag Taste nasceu ao mesmo tempo de Teresa Al Dente, a personagem criada por Pedro, em junho de 2019. Há vários anos que o lisboeta acompanhava turistas e locais ao mercado, que depois levava para casa para uma aula de cozinha. Um dia decidiu fazê-lo vestido de mulher. Fez-se acompanhar de outras drag queens e imaginou a Drag Queen Cooking Party. Nem imaginava o que estava por vir.

Rimel, saltos altos e bacalhau à Brás

O apartamento de Pedro na Avenida de Berna era um dos locais mais animados da cidade. “16 pessoas por noite a viverem a experiência da vida delas aos gritos. Às vezes era um bocadinho too much”, confessa.

A experiência durava seis horas e convidava locais e turistas a cozinharem e jantarem com o grupo de drag queens liderados por Pedro. Os participantes chegavam e eram imediatamente transformados, com recurso aos fundos armários lá de casa, onde havia centenas de vestidos, de sapatos e de perucas.

Nem os vizinhos escaparam à festa. “Filhos, pais, avós, todos passaram por lá. Eles gostavam do projeto mas pediram-nos para encontrarmos outro sítio para fazer aquilo”, conta.

A experiência da sangria é totalmente interativa.

Pedro percebeu rapidamente que a fórmula funcionava. Estava na altura de ganhar outra dimensão e encontrou o espaço perfeito para o fazer no LX Factory.

O novo palco dos jantares era grandioso, só que os 400 metros quadrados traziam consigo uma renda alta e incomportável. Decidiram apostar num brunch de domingo, o Sunday Drag Brunch. Uma versão do jantar em esteróides. Mesas de comida sem fim, champanhe e mimosas à discrição, espetáculos em palco, dança, fogo de artifício, duas sessões por dia, 150 participantes e, claro, direito a transformação. Depois da inauguração, o domingo seguinte esgotou logo.

“Temos crianças, velhos, velhinhas, gays, heteros, lésbicas, pretos, brancos, amarelos. Tudo de todos os países. Está sempre esgotado e é um espetáculo non-stop.” Admite que foi uma entrada sem preparação no mundo do espetáculo. Apesar da inexperiência, o trabalho deu frutos e Pedro prepara-se agora para a próxima grande aventura: o primeiro musical interativo do mundo.

Alegria na pandemia

Apesar de interagir através da câmara, a experiência do “Sangria and Secrets” colocou-o em contacto com meio mundo. Na sua maioria pessoas confinadas em casa por causa da pandemia. Ajudou a animar o dia de enfermeiros de Nova Iorque, fez de ligação entre amigos separados, interrompeu a solidão de famílias inteiras, fez crianças sorrir.

“Lemos sobre os problemas a longo prazo que o confinamento poderia provocar nos mais novos e quisemos fazer algo a pensar nas crianças”, conta Pedro. Foi assim que surgiu a ideia de criar um musical inspirado no mundo virado do avesso pelo coronavírus.

É uma vida dura — e sem folgas. (Foto: Inês Lourenço)

“Por mais que procure no Google, não encontro nada igual. Deve ser mesmo o primeiro”, confessa à NiT, enquanto recorda que tudo começou a ser preparado na casa na Ajuda, onde vive com outras sete drag queens.

Perceberam rapidamente que tinham em mãos uma história que merecia outro cuidado e atenção. Decidiram não avançar logo. Após uns quantos telefonemas, Pedro tinha um plantel de luxo. Nuno e Henrique Feist ajudaram a terminar o guião e a fazer a composição musical. Recrutaram as vozes de Mariana Pacheco, Sissi Martins e Daniel Galvão — e Filomena Cautela assume o papel de rainha. Nascia o “cLock Down”, o musical que é uma analogia ao lockdown. Mais uma vez, a comida também tem um papel principal.

Toda a história é narrada por Teresa Al Dente, que recorda o seu reino, Tic Toc Town, perturbada por um mago que abala o dia a dia da cidade mágica. No dia em que todos param de sorrir, a rainha ordena que a população se feche em casa até descobrirem como resolver o problema.

“Fala de como o poder de um sorriso pode destruir o lock down. Enquanto contamos a história entre danças, música ao vivo e cenários lindíssimos, há imensa interação com as pessoas”, explica Pedro, que está sempre a observar os espetadores do outro lado da câmara.

Tal como nas outras experiências Drag Taste, o público tem que participar: veste-se a rigor, de preferência com uma bela peruca; fecha portas e janelas para recriar o ambiente da história; e até aproveitam para fazer um bolo de caneca. Não há musicais assim.

O musical é feito em direto para todo o mundo, (Foto: Inês Lourenço)

“cLock Down” estreou a 26 de junho e as sessões acontecem, claro, em tempo real. De sexta a domingo, há quatro sessões por dia entre as 19h e as 3 da madrugada. Isto porque o musical é uma experiência mundial, cantada e falada em inglês, e é preciso ter margem de manobra para apanhar os diferentes fusos horários. Cada casa só tem que pagar um bilhete que custa 23€.

“Está a começar devagar, mas já temos muitas reservas. É como no da sangria, no início eram poucas e depois pegou”, confessa.

O homem por detrás da maquilhagem

Pedro não é naturalmente desbocado como Teresa Al Dente, mas é igualmente extrovertido e hiperativo. O lisboeta de 31 anos admite que sofre do mal de “querer fazer muitas coisas ao mesmo tempo”. É verdade. Em pouco mais de três décadas, há já muitas histórias para contar.

Quem olha para Pedro e Teresa, lá do alto dos seus quase dois metros, não adivinha que aqueles braços já distribuíram suplexes pelos ringues de wrestling de Portugal e do estrangeiro. Desistiu de três cursos, correu África a pé, foi um youtuber de sucesso e criou uma empresa de receitas virais.

“Eu nasci um leitãozinho. O meu avô tinha restaurantes, a minha avó era cozinheira, a minha mãe adora comer e eu juntei-me à festa. Comecei a cozinhar aos 9 anos, a fazer o jantar à minha mãe quando chegava a casa à meia-noite. Aos 13 pagavam-me para cozinhar para ela e para as amigas. Gostava mesmo muito de comida”, recorda.

A paixão exacerbada deu origem a um problema grave. Aos 20, já pesava 180 quilos, o que até dava jeito para dominar nos ringues de wrestling, para onde saltou depois de uns anos na luta greco-romana. Chegava a enganar a mãe para participar em torneios em Portimão e tornou-se numa das maiores estrelas da modalidade em Portugal.

Iceborg, o wrestler de Pedro Pico

Só que Pedro não conseguia parar de comer. Assustado por um médico, teve que adotar uma dieta radical e perdeu 70 quilos em dois anos.

Foi horrível. Eu era grande e gordo, comprava dois bilhetes de avião só para mim. Até fazia muito desporto, mas depois comia três ou quatro frangos. Foi um processo duro, mas eu quando meto uma coisa na cabeça sou lixado”, confessa.

Saltitou de curso em curso, entre a medicina veterinária e a gestão de empresas. Nunca se formou. Preferiu viajar sem medo do perigo. Agarrou num amigo, pegou na mochila e correu as estradas africanas de Marrocos a Moçambique.

 

“Corremos 30 e tal países. Apanhei malária três vezes, fiquei em coma, fui raptado. Aconteceu-me tudo o que era possível acontecer”, conta. Passou sem percalços por países onde admite que o matariam “se soubessem que eu era homossexual”.

“Acho que sou daqueles gays mais masculinos, passo bem por hetero”, explica o autor de um vídeo viral que em 2015 correu o mundo, no qual percorreu as ruas de Lisboa de mão dada com o namorado. Tudo para captar as reações dos portugueses. O seu trabalho como ativista pelos direitos LGBT valeu-lhe uma distinção da ILGA.

Se Portugal é “um país totalmente gay friendly”, como é que se encaram por estes dias as drag queens? “Para pessoas mal informadas, não passa de um ator a representar, por isso há uma aceitação grande”, esclarece.

Nos eventos Drag Taste, nem todos sabem ao que vão. Muitas vezes são as mulheres que reservam os bilhetes e surpreendem os maridos. “Às vezes entram ali aqueles irlandeses brutos, não diria homofóbicos, mas que não gostam lá muito de gajos gays. ‘What the fuck is going on?’, pensam eles. E estamos nos lá, em drag, lindíssimas, poderosíssimas. Quando lhes dizemos que vão ser transformados, dizem logo ‘vamos o caraças’ (risos)”.

Só que ao fim de um ou outro copo de sangria, alguém cede. “Há sempre um que se vira para outro e diz ‘olha lá, mete lá estas pestanas’. Depois vem a peruca, o vestido. De repente estão todos sentados em fila a serem maquilhados. Saem dali lindíssimas e não tiram os saltos altos antes da meia-noite. É uma festa.”

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