Teatro e exposições

O futuro do Cirque du Soleil é um salto sem rede — e sem público

A companhia culpou a pandemia pela insolvência, mas os problemas financeiros sentiam-se há muito. Ainda assim, prometem voltar aos palcos.
Esta não é a primeira crise.

A primeira aventura dos homens que reinventaram o circo foi um falhanço. Gilles Ste-Croix, convencido por Guy Laliberté, colocou um par de andas e ousou caminhar uns longos e extenuantes 90 quilómetros. O objetivo: pedir financiamento ao governo do Québec para criarem uma trupe. A companhia correu a região canadiana durante um ano e, no final, fez as contas à vida. A aventura foi um desastre financeiro.

Quarenta anos depois, Laliberté e Ste-Croix envergam orgulhosamente o título de fundadores do magnífico Cirque du Soleil — e têm novamente que encarar o falhanço. A 29 de junho, a empresa declarava-se insolvente e eliminava 3.500 postos de trabalho, mais de metade dos estimados cinco mil. Pelo caminho, os dois canadianos podem gabar-se de ter transformado uma performance de rua num dos mais bem-sucedidos espetáculos do mundo.

Ameaçados por uma dívida debilitante e sob a mira dos credores, o Cirque du Soleil apontou o dedo à pandemia. “Nos últimos 36 anos, o Cirque du Soleil foi uma organização altamente lucrativa e bem-sucedida. No entanto, com zero receitas desde o encerramento forçado de todos os nossos espetáculos por causa da Covid-19, a direção decidiu agir de forma decisiva para salvaguardar o futuro”, revelou o CEO Daniel Lamarre, que anunciou uma reestruturação da dívida para tentar salvar a empresa.

Só que os dias negros na tesouraria não surgiram apenas há três meses. Os juros elevados estavam já a causar estragos, muito tempo antes do bloqueio total provocado pela Covid-19. De acordo com a Ernst & Young, a perda líquida em 2019 foi de cerca de 80 milhões de euros — mesmo depois de uma mudança na cúpula de investidores que fez aumentar as receitas em mais de 100 milhões só em 2017, mas que trouxe consigo também um aumento do endividamento. As contas no vermelho duram há pelo menos dois anos. 

As acrobacias maravilhavam espetadores e o Cirque do Soleil tinha em exibição dezenas de espetáculos espalhados pelo mundo. Estima-se que este circo reinventado fizesse encher os cofres com receitas de cerca de 660 milhões de euros anuais. Só que esse valor astronómico pode não ser suficiente para segurar a companhia que, desta vez, está também a fazer um perigoso número de equilibrismo — sem rede de segurança.

Olho no acrobata, mão na carteira

Em 2012, o 25.º aniversário do Cirque du Soleil trouxe más notícias: 400 postos de trabalho seriam cortados. Apesar de revelar que teria sido um dos seus melhores anos, foi incapaz de evitar os cortes para tentar parar o aumento das despesas. Alguns anos antes, os críticos apontavam aquelas que poderiam ser as razões da queda do circo.

O ponto de viragem terá acontecido em 2008, quando o CEO Daniel Lamarre decidiu aumentar a produção para três espetáculos anuais. O Cirque du Soleil, conhecido pelo seu perfeccionismo — e pela folha imaculada de sucessos atrás de sucessos — começou a esbarrar com os flops, tanto na receção dos críticos como nas bilheteiras.

Vinte anos depois, a reputação do Cirque começava a desmoronar-se. “A ideia de polir cada espetáculo como uma jóia até que se transforma num diamante e dura para sempre — perdemos parte disso na fase do crescimento”, confessou Gilles Ste-Croix. 

“A ideia de polir cada espetáculo como uma jóia até que se transforma num diamante e dura para sempre — perdemos parte disso na fase do crescimento”, confessa um dos fundadores

O Cirque du Soleil via-se pela primeira vez numa posição inédita: a concorrência crescia e obrigava a expandir mercados, particularmente para a China. Isto era algo impensável de acontecer no século passado.

“Nós Reinventámos o Circo” é o título de uma das primeiras produções da companhia. E tinham razão. Quando nasceu, o Cirque du Soleil criou o seu próprio mercado. Não competia com os circos convencionais, até porque abdicava dos atos com animais. Uma tenda, acrobatas corajosos e um guião sem falhas. Era tudo o que precisavam.

Durante vinte anos, o Cirque navegou sozinho no mercado que criou, cresceu de forma imparável e tornou-se num caso de estudo. Longe iam os tempos em que se identificavam como uma organização sem fim lucrativos. O termo foi deitado ao lixo logo em 1987, depois do sucesso estrondoso do primeiro espetáculo fora do Canadá, que teve lugar em Los Angeles.

O último ato?

Suspensos desde março, os espetáculos poderão voltar mais cedo do que se pensa. Pelo menos é o que diz Lamarre, que promete que a produção residente em Orlando, nos Estados Unidos, será a primeira a regressar porque “tem um elenco e staff contratado localmente”.

“Será mais difícil para os espetáculos itinerantes, porque não os podemos abrir enquanto as companhias aéreas não voltarem a trabalhar com o seu calendário normal e as fronteiras não forem abertas. Quando fazemos um destes espetáculos corremos cerca de 450 cidades em todo o mundo”, revela à “CNBC”.

De acordo com o CEO, a recuperação será longa e poderão ter que esperar dois anos até que consigam regressar a um nível de receitas igual ao período pré-pandemia. Ainda assim, explica que o Cirque precisa apenas de taxas de ocupação de 40 por cento para não perder dinheiro. “Com o distanciamento social, se conseguirmos funcionar a 50 por cento da capacidade, seremos capazes de fazer algum lucro”, esclarece.

Antes que isso possa acontecer, há uma manobra difícil por completar: resolver o problema da dívida. Para Lamarre, tudo é simples e está nas mãos dos investidores e acionistas. “Eles têm que apresentar uma proposta que seja melhor para o futuro da empresa, para os funcionários”, explica, mostrando-se confiante em que isso irá acontecer.

“É por isso que hoje posso garantir que o futuro do Cirque du Soleil está assegurado. E quando a normalidade regressar, também regressarão, de forma progressiva, todos os nossos espetáculos.”

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