Teatro e exposições

César Mourão: “Quem vê diretos do Bruno Nogueira vai ver quando voltarmos ao normal?”

O humorista falou com a NiT sobre a pandemia, a crise dos artistas, diretos no Instagram e o seu próximo evento.
Brevemente, num direto perto de si

Não há artista que não sinta na pele o castigo da quarentena e dos milhares de espetáculos que foram cancelados e adiados nas últimas semanas. Há casos verdadeiramente dramáticos de eventos “adiados por um ano”, conta César Mourão, que esteve à conversa com a NiT, durante o confinamento obrigatório.

Ainda assim, o humorista não se mostra muito preocupado com o futuro, mesmo depois de ver adiadas as datas do seu “Desconcerto” — o show de músicas ao improviso que criou com Miguel Araújo, Luísa Sobral e António Zambujo — e as gravações do seu programa “Terra Nossa”. E acredita que dentro de um ou dois meses, estará de volta ao trabalho e rotina normal.

Enquanto essa altura não chega, César Mourão vai fazer uma espécie de estreia nos já tão famosos diretos do Instagram durante a pandemia. É um dos convidados do “Só, Mas Bem Acompanhado”, uma iniciativa criada para angariar fundos para a Cruz Vermelha Portuguesa.

César Mourão será o convidado do programa apresentado por Fernando Alvim já a 12 de abril, pelas 21h30, no mesmo dia em que vão para o ar Carolina Deslandes e Pedro Abrunhosa.

Vai finalmente entrar na moda dos diretos deste tempo de quarentena.
Fiz agora o “Maluco Beleza” com o Rui Unas, mas isso era uma coisa que faria com ou sem quarentena. Quanto a mim, não sei, não tenho nenhuma perspetiva de fazer algo assim do pé para a mão, nem no Instagram nem noutra plataforma.

Estes diretos são uma ferramenta indispensável para os artistas que agora viram todos os espetáculos cancelados?
É uma tragédia para os artistas verem os seus espetáculos cancelados sem que haja uma data de retorno, embora eu seja um otimista e acredite que não vá ser assim por muito tempo. As coisas vão voltar ao lugar. Claro que para muitos, uma semana é muito tempo sem atuar, portanto percebo perfeitamente [o recurso aos diretos]. Nós que trabalhamos com humor e com plateias, se calhar acabamos por passar a usá-las um pouco mais.

É um pouco isso que vai acontecer no “Só, Mas Bem Acompanhado”. Como é que surgiu a ideia?
Não sei bem, sei que fui convidado e que é uma forma de angariar dinheiro para a Cruz Vermelha. Foi uma espécie de coincidência ter no painel pessoas com quem tenho um elo de ligação, embora não estejamos todos na conversa ao mesmo tempo.

E qual é a ideia? Vamos ter stand-up, música, conversa…
Não há. É melhor quando não há ideia nenhuma. É apenas uma conversa com o Fernando Alvim, ele é um conversador nato e portanto não haverá problema nenhum que assim seja. Tudo pode surgir. Não pensámos em mostrar nada, abordaremos vários temas e quem sabe, talvez possamos fazer alguma coisa, mas não há nada combinado. É mais verdadeiro para quem nos ouve que seja assim.

Estes diretos parecem ser a next best thing? O Bruno Nogueira, por exemplo, tem juntado mais de 50 mil pessoas todas as noites.
Acho que isso foi meio sem querer. Do que conheço do Bruno, porque foi ele quem começou…bem, não foi exatamente ele, porque a Filomena Cautela já tinha começado a fazer diretos, mas ele pegou muito bem nisso. Não acredito que seja pensado, foi mais sem querer e as coisas foram surgindo.

Esta audiência é enganadora, até porque não sabemos se essas pessoas vão continuar a aderir a esses formatos

Como é que esta paragem brusca está a afetar a sua carreira?
O “Desconcerto” foi adiado, as gravações do “Terra Nossa” foram adiadas, mas é como eu digo, sou um otimista. Acho que daqui a um ou dois meses estaremos todos a trabalhar novamente e é assim que tem que ser. A vida não pode ser cancelada. Há quem diga que as coisas foram só adiadas, está bem, mas há adiamentos de um ano, o que não resolve os problemas de um artista que ia ter já espetáculos e agora tem que esperar um ano. É uma coisa que vai ter que se resolver, aliás, como tudo na economia deste País.

Mesmo que as restrições sejam levantadas, um espetáculo junta centenas de pessoas num espaço muito pequeno. Será que os portugueses estão preparados para assumir esse risco?
Vai haver confiança das pessoas. Não acho que vá ser por causa delas. Felizmente Portugal não atingiu nem vai atingir, espero eu, os números trágicos de Itália e Espanha. Isso faz com que as pessoas não tenham uma resistência desse género. E de alguma forma teremos que resolver isso, nem que numa plateia de mil só entrem 500 ou 600 pessoas, ou estipular um lugar livre entre cada uma delas.

E a criatividade no meio do isolamento, empanca?
Não é uma questão de ficar empancada. Eu já tinha esta vida antes da quarentena, pensava diariamente na construção de ideias e espetáculos. Criativamente, levo a mesma vida que levava, claro que depois em termos pessoais as coisas são diferentes, estou confinado em casa. Não digo que ajude, mas faz com que façamos coisas com menos recursos. Já há programas de televisão feitos a partir de casa, o online cresceu. Temos menos formas de fazer coisas, menos sítios onde atuar — e aí a criatividade aumenta porque temos menos recursos. Temos que fazer mais com menos.

Isso pode tornar os artistas, e neste caso os humoristas, menos dependente dos formatos tradicionais?
Não creio. Isso tem mais a ver com o público. Será que ele agora encara a Internet e o online de outra forma? Será que todos os que vêem o Bruno Nogueira no Instagram vão continuar a fazê-lo quanto voltarmos ao normal? Ou cada um tem a sua vidas, os seus jantares, as suas coisas… Esta audiência é muito enganadora, mesmo na televisão ou no online, é tudo muito enganador, até porque não sabemos se essas pessoas vão continuar a aderir a esses formatos daqui para a frente. Essa é a pergunta que tem que ser feita ao público.

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