Teatro e exposições

Carlos Pereira: “A minha mãe avisou-me que o humor é uma coisa de brancos”

Um dos poucos humoristas negros do País falou com a NiT sobre os novos movimentos anti-racistas e a ditadura do politicamente correto.

A mãe bem o avisou que “o humor em Portugal é uma coisa de brancos”. Ainda assim, Carlos Pereira veio para Portugal com 15 anos, onde acabou por se lançar numa carreira na comédia, a par do curso de Ciência Política.

Juntamente com outro amigo negro, decidiram que iriam estudar o mais que pudessem para tentar mudar a sociedade. “Ele não entrou no curso e lá fiquei eu sozinho (risos)”, conta à NiT o humorista, que entretanto já terminou a licenciatura, depois de fazer uma longa pausa para se dedicar ao humor.

Numa altura em que o mundo se sobressalta com os protestos raciais e uma nova onda de afirmação que tem feito vítimas — na última semana, comédias como “Little Britain” ou “League of Gentlemen” foram retiradas das plataformas de streaming, acusadas de racismo —, a NiT falou com Carlos Pereira sobre a complicada participação no “Levanta-te e Ri”, a censura, o racismo em Portugal e a cancel culture.

É muito irritante quando se referem a si como “o único humorista negro em Portugal”?
É e não é. Há mais, mas sou capaz de ser o único que tem alguma visibilidade.

Isso é revelador?
Sim. Somos o País que aplaude um negro sempre que faz coisas ou entra em qualquer sítio, porque os negros são um bocado como as crianças. Achamos sempre que não são capazes, mas quando fazem alguma coisa, ficamos admirados: “Olha, há um negro na Assembleia da República, sabiam?”.

Os protestos nos EUA alastraram ao resto do mundo e nos últimos dias resultaram na remoção de programas de humor, de “Faulty Towers” a “Little Britain”. Para um humorista, isto faz sentido?
Não me lembro de, neste caso, alguém ter pedido isso. O que acho que aconteceu é que esta comoção traz uma espécie de consciência coletiva, ninguém quer ficar do lado errado da história. As empresas sentam-se com o seu departamento de comunicação a pensar no que podem fazer para ficar bem nisto. E esta é a solução mais fácil. Neste caso, ninguém andou com cartazes à porta.

É um problema dos limites do humor, da linha entre o que se pode ou não dizer?
Essa linha é um presente envenenado. Há conteúdos que não me choca que sejam retirados. Lembro-me das canções infantis, do preto da Guiné, etc. Tudo é suscetível de crítica. A ideia de que o politicamente correto é o bicho papão que nos vem tirar os filmes e as séries e comer a todos é uma falácia. As pessoas têm dificuldade em falar sobre as coisas. Recusam-se sempre a conversar e depois acordam e o mundo está de pernas para o ar — e a culpa é do politicamente correto.

“Somos um País que aplaude um negro sempre que faz coisas, porque nos negros sao comos a crianças. Achámos sempre que não são capazes”

Não é possível traçá-la?
Se é preciso eu dizer o que é ou não racismo ou bom senso, as coisas estão más. Não temos que ter sempre o negro na equipa a dizer que estamos a pisar o limite. Não podemos continuar a fazer conteúdos em que os negros são sempre vigaristas, bandidos ou ladrões. Assim estamos a perpetuar a ideia.

Depois haverá sempre quem critique que só estão a preencher quotas.
Contornar isso é fácil. Basta não chegar ao ponto de pedir que isso aconteça, até porque vamos andar às voltas: tu não me dás, eu peço; depois dás-me e esfregas-me na cara que só o tive porque pedi. O culpado és sempre tu porque não me deste isso em primeiro lugar. No dia em que se reconhecer o negro como alguém digno de um papel importante, a discussão não termina, mas vai minguar. Partimos sempre do princípio que importamos a discussão dos Estados Unidos, mas sendo honestos, não precisamos de ir tão longe. Acontece cá em Portugal, onde temos medo de falar das coisas. Basta ver as novelas. Um canal de televisão fez uma sobre ciganos em que não havia um cigano no papel principal. Dizem-me: “Quantos atores ciganos é que há?”. Com jeitinho encontras um. Quando é preciso, vão buscar uma influencer, pagam-lhe uma formação de duas semanas para fazer um papel, só porque é bonita e tem bons olhos.

Não houver qualquer contestação.
Cá não se falou disso. Se fosse uma série da HBO… É vergonhoso. Fazemos um conteúdo sobre ciganos e pomos a Rita Pereira a fazer de cigana, e nem um único cigano na figuração. E vão-me dizer que é do politicamente correto? Esta é a tal linha ténue entre o real e o racismo. Não faz sentido.

É possível abordar temas de raça em stand-up sem medo de ofender?
É, desde que tu queiras. Às vezes é só uma questão de esforço, como o artesão que demora mais tempo a trabalhar a peça. “Ah, isto do Covid-19 vai ser mau porque os prédios não se fazem sozinhos”. Sim, sabemos que os pretos trabalham nas obras. Isto não é nada, mas há quem defenda dizendo que é uma piada elaborada porque estão a devolver o preconceito da sociedade. É? É mesmo? Dá sempre mais trabalho. Quando comecei a fazer comédia, disseram-me: “Tu é que és o Carlos, o preto que só faz piadas sobre o facto de ser preto?”. Sim, é verdade, tentei fazer piadas sobre ser branco mas ninguém acreditou. (risos)

“É engraçado, porque são sempre os brancos que dizem que não há racismo”

É estranho ser um negro numa área dominada por brancos?
Era estranho, passou a haver um confronto. Não se podiam limitar a contar a história do preto como um objeto, porque eu estava ali para contrariar, para dar o outro lado. Não é que seja mais ou menos legítimo, mas pela minha tez, tenho propriedade para falar sobre o assunto. (risos) Cheguei a receber mensagens de jovens negros que me diziam o quão bom era “ir a um espetáculo e estarem a fazer piadas connosco”. Quando comecei no stand-up dizia que Portugal era um país racista e desconstruía a coisa com piadas. Não diria que fui atacado, mas sentia que havia um “não podes dizer isto”. É a velha questão: em Portugal está tudo bem, “quem é que tu pensas que és para vir dizer que Portugal é um país racista, seja ou não uma piada?”. De um lado os negros diziam “finalmente”, do outro os brancos diziam “vai para a tua terra”. E depois os brancos da esquerda contemporânea a decidirem o que dizer.

Já sentiu que uma piada desse género foi mal recebida?
Sim, quando fui ao “Levanta-te e Ri” pela primeira vez. Tinha um set de dois minutos em que dizia que Portugal era um País racista. Quando chego a casa estou cheio de mensagens a dizer de tudo: “tu não podes dizer aquilo”, “quem é que tu pensas que és?”, “és um mal-agradecido, damos-te a oportunidade de vir à televisão e vais dizer que é um país racista?”. E depois é engraçado, porque são sempre os brancos que dizem que não há racismo. Depois disso aconteceu algo engraçado. Um miúdo que me seguia e que certamente conhecia a mãe que tinha, quando me viu subir ao palco filmou discretamente a mãe e mandou-me o vídeo. Passou a atuação toda a dizer “Se não os metem na televisão é porque não metem, quando metem vêm queixar-se. Se fosse para a terra dele. Se não fossemos nós ele não estava cá a estudar e ainda dizem que somos racistas”. Foi das coisas mais deliciosas que fizeram por mim.

“Não temos que ter sempre um negro na equipa a dizer que estamos a pisar o limite”

O objetivo era pôr a audiência desconfortável?
Nunca escrevo piadas a pensar nisso. “Ó mãe, ouve aqui esta, agora é que esses brancos vão aprender” (risos). Escrevo só o que acho engraçado. Aquilo é que teve a dimensão que teve por causa da minha expressão facial. Era a primeira vez que ia lá, em direto. Há câmaras, agitação, pessoas a dar inputs, e depois ouve-se um sinal e eu entro ali com a pressão toda, a ter que me despachar e o meu semblante muda. Acharam que estava nervoso e a descarregar a raiva toda. Estava eu a pensar que tinha de dizer tudo muito rápido e o que passou foi que eu estava mesmo lixado. E sentes a tensão na sala, a apreensão. Nas 800 pessoas só havia um negro, e a realização fechou um plano no gajo e ficou ali aqueles minutos. Foi engraçado.

Já teve que fazer uma auto-censura?
Uma vez mandei um texto para aprovação e disseram me que já chegava [de falar sobre racismo]. Tive que fazer um novo texto. É complexo, não há muitos artistas que falem confortavelmente sobre este tema. Há uma aura. Mesmo eu tive uma certa dificuldade, houve um período em que pensava se era um ativista ou um humorista. A linha é ténue. E como não há representação em Portugal, e finalmente tens um miúdo negro que se assume sem medo… mas eu tenho um cão, porque tenho medo. Não quero que olhem para mim como o preto que faz piadas sobre o facto de ser preto. Pode ser algo da minha cabeça, mas senti que alguns meses depois dessa atuação no “Levanta-te e Ri”, houve um período em que as coisas estiveram complicadas. Lembro-me de me dizerem que ninguém quer um artista que põe as pessoas desconfortáveis.

Já foi vítima de racismo ou de preconceito?
Já. Não quero falar sobre isso. Sou um tipo afortunado, sempre tive pessoas que gostaram de mim. A maior parte dos meus amigos são brancos — e eu sei que não me têm só como álibi para não serem racistas (risos). Tive um caso quando vim a Portugal com os meus avós, tinha nove anos. Peguei num pacote de bolachas e voltei a colocá-lo no sítio. Uma criança pegou no mesmo pacote e a mãe disse-lhe para não tocar nele porque “aquele menino também tocou”. Os meus avós disseram-me para não ligar, mas na altura aquilo não me disse nada. Só mais tarde, quando percebi, é que fez mossa.

Há situações em que tem que pensar duas vezes antes de fazer ou dizer qualquer coisa — e que sente que isso não sucede com os brancos?
Eu agora até acho que é ao contrário. O que eu esperei pelo que estamos a viver. Eles é que têm que pensar duas vezes (risos). O pessoal está com medo porque até aqui podiam dizer o que queriam. Agora, como têm que pensar duas vezes, pensam: “Já me estragaram o esquema”. Dizem que é o politicamente correto e não sei quê, tal como o Rui Rio disse que ainda nos tornamos racistas com tanta manifestação anti-racista. Eu? Eu estou bem. Os tempos estão a mudar. De repente, dizem que todas as vidas importam, que é como quem diz, “não se esqueçam de mim e não me mandem para a guilhotina” (risos).

“Um canal de televisão fez uma novela sobre ciganos em que não havia um cigano como protagonista”

É medo?
Acho que é, que estão assustados. Sentem que “eles vêm aí”. Só tenho medo que quem saia beneficiado com isto tudo seja o André Ventura, que pensem que ele é o único que os pode salvar disto. Mas relativamente ao pensar duas vezes, uma vez disseram-me, depois dessa atuação no “Levanta-te e Ri”: “Tu tens que ter cuidado, não podes ser o puto rebelde que diz as coisas porque quem decide são brancos e, se não gostarem de ti, se acharem que estás a dizer coisas que os deixam desconfortáveis, nunca vais dar o passo seguinte”. Se eu tiver ambição de trabalhar numa SIC ou TVI, se estiver sempre a dizer que fizeram as novelas com os ciganos, se calhar não vou conseguir lá entrar. Tirando isso, as coisas não estão só difíceis para mim. A malta negra… os pais foram trabalhar nas obras, as mães limparam o chão. Nós fomos estudar para podermos regatear pelos nossos pais. Foi isso que estragou tudo, porque nós agora somos formados e temos ideias das coisas. Dissemos: “Malta, nós queremos o nosso lugar. Eu só não quero que tu, branco, fales por mim e me defendas. Eu sou capaz de o fazer. Li livros, aprendi coisas. Posso falar? Posso?”.

Desapareceu o medo de falar?
Porque é que estou a falar com esta frontalidade? Porque não tenho duas filhas e uma renda para pagar, porque senão estava caladinho. Há malta que tem essas preocupações e opta por ficar no seu cantinho. Mas os jovens que começam a estar consciencializados e chegamos a um ponto em que ficar no canto não rende tanto quanto dizer o que tem que ser dito. Quando disse o que disse com aquela frontalidade e perante uma audiência enorme, recebi mensagens de pessoas a dizerem que já não tinham esse medo.

Têm surgido cada vez mais casos de polémicas, como o caso do sketch do Ricardo Araújo Pereira sobre André Ventura e a hashtag #hitlerilas. Acredita que a cancel culture pode chegar cá?
Isso não existe cá. É uma treta inventada por alguns em benefício próprio, há dois ou três comediantes que usam e abusam dessa lengalenga e que vão fazendo assim o seu percurso. Nunca houve nada em Portugal que deixasse de acontecer por causa da cancel culture. Num país a sério, a novela dos ciganos não existia ou a TVI tinha pedido desculpas. Os humoristas acham que vivem num mundo à parte, que são intocáveis, que podem dizer o que querem sem qualquer tipo de consequência. Os comediantes e atores acham que estão a prestar-nos um serviço e que temos que ser muito gratos. Não.

Diz que é visto como um tipo branco. Como assim?
Vim para Portugal com 15 anos, de São Tomé e Príncipe. O primeiro impacto não foi muito estranho para mim porque sinto que fui preparado para isto. Alguém uma vez disse-me que eu fazia coisas para ficar bem entre os brancos. Eu chamo-me Carlos Manuel, a minha mãe tratou disso quando eu nasci, não preciso de me esforçar nesse aspeto. Não estranhei muito quando vim para cá, até porque lá tínhamos dois canais, a RTP1 e a RTP África. Nunca gostei de desenhos animados e o meu herói de infância era o Carlos Daniel. Quando chegava da escola fazia horas para ver o Jornal da Tarde. Carlos Daniel, Paulo Catarro, Cecília Carmo, esse pessoal era o meu Dragon Ball. Sabia tudo. Eram os meus heróis. Estava em S. Tomé e sabia quando nevava na Serra da Estrela. Sabia os distritos todos.

A adaptação foi difícil?
Lembro-me de ter chegado a meio do período no 9.º ano. Fui para uma escola em Queluz, onde os alunos eram maioritariamente negros pobres. Era dos poucos que não vivia essa realidade. E havia a ideia de que eu estava tão fora daquilo, que nasceu o boato de que eu vivia numa vivenda. “Como não comes na cantina”, achavam que vivia numa moradia. Uma vez um colega pediu-me um bocado do que estava a comer. Não dei mas deixei o escolher e eu paguei, sem qualquer tipo de ostentação. Eu era o único preto da escola com essa capacidade. Se tu não roubas, como todos os outros fazem… foi daí que começou a ideia de que eu era um preto branco. Se podia comprar coisas na cantina, era dos brancos, porque só eles o podiam fazer. Não é fixe viver numa sociedade em que só os brancos podem comprar coisas na cantina. E tu não perceberes que contribuiste para isso, quando continuas a privar os outros da igualdade. Fazes parte do problema.

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