Música

“Transgressio Global”: Pop Dell’Arte lançam o primeiro álbum em 10 anos

A NiT falou com João Peste sobre o novo disco, construído ao longo de vários anos e que vai recuperar referências clássicas.
João Peste falou com a NiT sobre o disco.

Dez anos depois do último álbum, “Contra-Mundum”, chega o novo trabalho dos Pop Dell’Arte, “Transgressio Global”, que é editado esta sexta-feira, 29 de maio, pela Sony Music Portugal. Na verdade, o disco ia ser lançado e apresentado ao vivo em março, mas a pandemia obrigou a que os planos fossem alterados.

Assim, o concerto de apresentação que já estava marcado para o Centro Cultural de Belém, em Lisboa, foi adiado para 8 de outubro. Este disco de 22 faixas (com quase 1h30 de música) começou a ser trabalhado entre 2013 e 2014, entre o vocalista João Peste e o guitarrista Paulo Monteiro.

A ideia era que o álbum saísse em 2015, até havia um concerto marcado no CCB que poderia ser de apresentação, mas uma série de atrasos empurrou “Transgressio Global” para a frente. Ainda assim, da primeira leva de composição nasceram vários temas, aos quais depois se juntaram outras faixas criadas mais em coletivo, na sala de ensaios.

“Foi um processo lento e moroso, por isso é que o disco sai dez anos depois do anterior. Quando demos por nós tínhamos até um pouco mais de 20 temas, conseguimos criar um todo, quase que uma narrativa com esses temas, achávamos que faziam sentido. Podíamos ter gravado metade num disco e ter feito outro a seguir com a outra metade, mas considerámos que fazia sentido que os temas estivessem todos juntos, porque formavam um todo. Embora cada tema possa existir por si, há uma articulação entre eles”, conta João Peste à NiT.

“Anominous”, um dos primeiros temas, foi gravado em plena crise económica, no período da Troika em Portugal. “Quisemos deixar um testemunho da banda em relação àquele período, não só cá mas noutros países, principalmente na Europa. Portugal e Grécia foram das maiores vítimas daquele ambiente austeritário e neoliberal que se instalou.”

Os Pop Dell’Arte sempre foram sinónimo de vanguardismo, de exploração, de transgressão musical, um conceito que aqui é assumido como um ideal, como uma bandeira que é ostentada bem no alto. “Havia uma palavra que era fundamental para este disco que era ‘transgressão’ ou ‘transgression’, se fosse em inglês. Acabámos por optar pelo latim por ser a origem da palavra, para não ceder um pouco à globalização, que quase que nos impõe o inglês. Acho que é um conceito pelo qual vale a pena lutar. A arte do século XX era transgressiva, não só a arte mais erudita, que quebrou muitas regras e barreiras, e os limites — que é disso que se trata, quando se fala de transgressão —, mas até mesmo na arte popular.”

João Peste continua: “Principalmente na segunda metade do século XX, com várias correntes ligadas ao pop rock, houve sempre uma postura transgressiva de querer ultrapassar os limites estéticos que poderiam condicionar a criação artística. Havia sempre uma renovação em cada geração ou às vezes até dentro da mesma geração, as coisas passavam muito rápido. Num período era o psicadelismo, depois era o hippie, depois o rock, punk, new wave, pós-punk… tentavam criar novas estéticas e formas de estar.”

Neste caso, como explica o vocalista do grupo formado em meados dos anos 80, o conceito de transgressão é usado no sentido original da palavra, de “ir além de”, de “ultrapassar os limites”. “Claro que quando se vai além de, muitas vezes tem que se quebrar as regras com que estamos condicionados, e essa ligação entre a transgressão, que é ultrapassar os limites, e o desrespeito pelas regras, normas, inclusive pela lei… Um não contradiz o outro. E ultrapassar os limites pode não ser só estético, pode ser ideológico, pode ser moral, há muitas formas de o fazer.”

João Peste acredita que “a música precisa de mais transgressão”, numa época em que, defende, “tudo se está a repetir”. “Parece que as coisas são todas uma imitação de umas das outras, parece que se arrisca pouco em fazer algo que seja radicalmente novo. Quando era miúdo havia o punk e a new wave, e não interessava assim tanto se o grupo tocava bem, interessava era o facto de terem ideias novas, e que aquilo que faziam soava a novo e a diferente. Havia uma vontade de procurar coisas novas, de ter como função inovar ou renovar. E hoje sinceramente não creio que isso aconteça, pelo contrário, daí que uma certa dose de transgressão esteja a fazer falta. Sinto aqui uma crise que não está diagnosticada. Parece que chegámos ao século XXI e tudo se apagou. Neste disco há uma tomada de consciência disso.”

Apesar do vanguardismo, neste álbum são recuperados poemas do grego Caio Valério Catulo, que viveu antes de Cristo, ou de Luís Vaz de Camões. Há referências à mitologia greco-romana, a Michel Foucault ou a Pablo Picasso. O classicismo ao serviço da transgressão.

“Não sei se fazer música hoje, lá na sua essência, é tão diferente do que era fazer música nos anos 80, quando começámos, e se era tão diferente nos anos 70 e por aí fora. Não sei, tenho dúvidas disso. É diferente, claro, porque há outros meios tecnológicos e o próprio mercado é outra coisa completamente diferente. Mas a criação artística é a criação artística, e independentemente dos meios, ela vem de dentro e apesar dos condicionalismos todos, creio que o processo não será muito diferente do que era no tempo do Catulo, quando ele fazia um poema. Sendo tudo radicalmente diferente, lá no fundo, no fundo, pode ser a mesma coisa. E por isso é que conseguimos gostar de obras que têm séculos e que ainda hoje nos tocam. Dito isto, claro que o mundo de hoje não é o mundo dos anos 80 e quem faz música ou qualquer outra forma de expressão artística está atento ao mundo e seu redor, está sempre a ser influenciado por ele.”

João Peste diz que “é claro que há sempre um acréscimo de responsabilidade” quando se lança um álbum passado dez anos, “quando se tem um passado e se tenta honrar esse passado”, contudo, isso é algo permanente e transversal. “Se não houver passado também há responsabilidade, porque se não há passado está-se a fazer um.”

O vocalista dos Pop Dell’Arte diz que tem aproveitado os meses em isolamento em casa para ler e ver filmes. “Não me afeta muito, foi útil para pôr uma série de coisas em dia. O problema é a paragem de espetáculos, que é complicado. Mas não vale a pena tirar ilações morais ou ideológicas de um vírus, porque é só um vírus, não veio para nos dar uma lição. São fenómenos da natureza.”

Além do disco, nesta sexta-feira foi disponibilizado o videoclip do single “The King of Europe”, realizado por Carlos Conceição (que já tinha colaborado com a banda no passado). Tem a participação da modelo luso-belga Sigrid Vieira, do ator francês Matthieu Charneau e do português João Arrais. “Retrata, tal como a canção, de forma algo caricatural, alguns políticos da atual União Europeia mais dados a práticas neoliberais e austeritárias”, pode ler-se na descrição disponibilizada.

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