Música

Salvador Sobral: “Um concerto no Instagram é como uma cerveja sem álcool”

A NiT entrevistou o músico, que compôs um disco na quarentena e que está a dar concertos. Entrou também num filme da Netflix.
O músico vai ter novo álbum em 2021.

Salvador Sobral está de volta ao sítio onde é mais feliz: o palco. Mais do que gravar discos ou compor canções, mais do que comer com os amigos depois de um concerto ou do que dar entrevistas, Salvador Sobral gosta é de tocar. Quem o diz é o próprio.

Depois de vários meses sem o conseguir fazer — incluindo algumas semanas totalmente isolado e sozinho em casa, por pertencer a um grupo de risco — o músico português voltou à estrada. Tem estado a fazer algumas atuações em Espanha e já tem datas marcadas em Portugal.

A 26 de julho vai dar um concerto de entrada livre no festival Jazz na Caixa, em Vila Nova de Famalicão. Em agosto, o recém aberto Teatro Maria Matos, em Lisboa, recebe várias atuações suas. Nos dias 10 e 11, vai interpretar temas conhecidos de Jacques Brel. Uma semana depois, nos dias 17 e 18, Salvador Sobral atua com uma das suas bandas, os Alma Nuestra, onde interpretam sobretudo canções de origem cubana e da América latina, com arranjos de jazz.

Nos dias 24 e 25, o público vai poder voltar a ouvir as músicas de Salvador Sobral ao vivo — dos seus dois discos e do seu próximo álbum, aquele que esteve a compor, em segredo e em sossego, durante a quarentena que o obrigou a estar sozinho. Entre a frustração de não poder tocar e as imensas leituras, escreveu letras e compôs temas que farão do seu próximo trabalho o primeiro apenas com músicas originais. Algo que tem vindo a descobrir que tem importância. Leia a entrevista da NiT com Salvador Sobral.

Enquanto músico, criativo, como foram os meses de isolamento este ano?
Olha, felizmente foi muito produtivo. Na verdade eu compus aquilo que vai ser o meu próximo disco no confinamento. O que é comum, acho que há muita malta que compôs imenso na quarentena. Estive agora a falar com os técnicos que fizeram o “Eléctrico”, e os gajos estavam-me a dizer que a malta fez muita música na quarentena e isso é fixe.

Sente que a música que fez nesse período foi influenciada por todas as circunstâncias da quarentena?
Sim, no fundo aconteceu porque estava em casa sem fazer absolutamente nada. E também por estar obrigado a estar sozinho, que é uma coisa de que não gosto, nunca gostei na vida. E ali houve um tempo em que fui obrigado porque nem sequer com a minha namorada podia estar, porque ela estava em França por causa de uma peça de teatro, depois a peça foi cancelada e ela voltou mas teve que fazer quarentena, não podíamos estar juntos, eu sou do grupo de risco. Então acabei por ficar um tempo sozinho, que me obrigou a olhar para dentro, que é uma coisa que não faço muito porque tenho medo do que vou encontrar lá. Muitos traumas de doenças e não sei quê. Mas acabei por escrever muito sobre mim próprio, que também não era uma coisa que fazia antes, e escrevi imensas canções autobiográficas. 

Ou seja, refletiu-se nos temas que quis abordar, nas letras que escreveu.
Exatamente, e compus com um amigo meu, desde os tempos de Barcelona, que é o Leo Aldrey. Tínhamos composto algumas coisas no primeiro disco, no segundo também há uma ou outra que são nossas, mas neste próximo decidi compô-lo inteiro só com canções minhas e a ver o que é que acontece. É um desafio. Se for uma porcaria, pronto, volto a interpretar canções de outras pessoas [risos]. Mas se correr bem se calhar volto a fazê-lo.

Há dois anos tinha-nos dito que já era uma vontade sua, mas que também não queria apressar o processo. Só aconteceu agora por causa da pandemia?
Eu já andava interessado nisso. Em fevereiro fiz o projeto de homenagem ao Jacques Brel e percebi o quão importante é alguém cantar as suas próprias canções. O Jacques Brel é o expoente máximo disso. É o gajo que interpreta tão bem, tem um dom de interpretar, porque as canções são dele e aquilo é a vida dele. Ele é que escreveu aqueles poemas — que aquilo são poemas, não são letras. E eu pensei, “claro, aqui está a beleza de escreveres as tuas próprias canções”. Depois não há ninguém que as vá interpretar como tu. Então, na verdade, eu fiz uma residência com o Leo em fevereiro, para começarmos a escrever, mas não foi muito produtiva [risos]. Só quando entrou a pandemia é que comecei a sentir essa necessidade de escrever mesmo. Talvez fizesse o disco mas talvez demorasse mais tempo se não fosse a pandemia.

Em termos musicais, quis explorar coisas novas, há um lado muito presente do jazz, por que lados é que foram para este disco?
Olha, curiosamente desde a saída do Júlio Resende da banda que senti necessidade de mudar o som, aproveitar isso para mudar o som. E então trouxe um pianista que tinha conhecido em Estocolmo, um puto que é um prodígio, um daqueles miúdos prodígios que é um pouco louco no palco [risos] e trouxe a guitarra do André Santos. Ou seja, mudámos o som completamente. Agora é um quinteto e ele é um pianista muito diferente, com muitas influências da música clássica. E criou-se um som assim mais… não sei se urbano, porque as canções também foram inspiradas nesta post-neo-soul de que falam e o hip hop, tenho ouvido muito hip hop. Não é que soe a hip hop, mas talvez as harmonias mais sofisticadas e o som estejam assim mais modernos, esta cena do Robert Glasper, Thundercat, e isso. Eu já andava maluco com esta música americana há algum tempo. Estivemos a ouvir também com atenção o James Blake. Mas se calhar ouves o disco e não sentes isso. O jazz é sempre de onde nós partimos. Continua a haver muita comunicação e improvisação, e muita liberdade, que é no fundo a base do jazz. Mas eu acho que ganhou uma coerência sonora que não é tão comum nos meus discos, eu gosto de tanta coisa que de repente os meus álbuns têm um bolero e depois uma valsa francesa. E talvez este seja um pouco mais coerente, não sei.

E quando é que sai o disco?
Ui, só vou gravá-lo em janeiro, vamos para França gravar o disco. É coisa para sair em março, suponho. Ainda falta muito. Só que eu gosto de tocar os temas e só depois gravá-los. Rodar, rodar, rodar e depois gravar.

Mas o álbum já está totalmente composto?
Sim, as canções já estão compostas, nós compusemos muitas, mas na verdade só se aproveita um terço. A ideia é começarmos a ensaiar, em agosto há duas semanas em que vem o sueco e a gente vai… Na verdade eu convenci-o a vir viver para Lisboa, mas ele só vem em setembro [risos]. E a ideia é ensaiar, criar arranjos, e depois vamos tocando e encontrando soluções novas. Quero gravar o disco já com a música muito rodada, para a gravação ser intrínseca, muito orgânica. E para tocarmos todos ao mesmo tempo na mesma sala, essa é a minha ideia. 

Já tem um título?
Um título definitivo não tem, mas criámos um conceito para o disco e começámos a pensar tipo num cenário. Pensámos que seria a última noite, o último concerto de um teatro. Não sabemos onde, nem em que circunstâncias, porque o prédio se vai transformar num parque de estacionamento ou num Airbnb ou qualquer coisa assim, e a ideia era escrever sobre as personagens que podem estar lá. Pode ser uma canção sobre um casal de velhotes imigrantes, uma canção de um dos músicos que tem medo do palco, temos canções sobre o senhor da limpeza, há muitas personagens mas, no fundo, eu estava a escrever coisas tão pessoais que já estava a enfiar personagens à força [risos]. Escrevia uma coisa muito pessoal e dizia: isto é um aspirante a músico… Há uma que se chama “Sem Voz” e foi uma que escrevi por não poder cantar, por não poder fazer concertos nesta altura e sentir que estava sem voz, aquela cena muito frustrante. Então escrevi: pronto, isto é um cantor que vai ao concerto, que ficou sem voz de um dia para o outro — uma cena meio saramaguiana, estás a ver? E na verdade sou eu que estou ali frustrado por não poder fazer concertos. Então o título anda à volta disso. Será “A Última Noite de um Teatro” ou “A Queda de um Teatro”, assim uma coisa. Também temos uma canção sobre a cenógrafa. Se calhar uma pessoa depois vai ouvir isto e não percebe nada, mas é só para ajudar ao processo de composição [risos].

Custou muito aquela fase em que, obviamente, não podia dar concertos?
Sim, é muito cliché, mas eu gosto mesmo de tocar. Muito mais do que gravar discos, muito mais do que as entrevistas — não desfazendo, desculpa lá [risos] —, adoro ir comer depois dos concertos e estar com a malta, mas a coisa de que gosto mais na minha vida é tocar. E acontece um fenómeno estranho quando não estou a tocar nem tenho concertos. Perco confiança em mim, começo a ficar com pouca auto-estima e a achar que estou a fazer tudo mal — desde as tarefas mais básicas, sei lá, perco confiança nos meus cozinhados. Perco segurança. Sou uma pessoa segura, normalmente, mas quando não estou a tocar fico super inseguro e, além disso, não me apetece… O despertador toca para eu acordar e a mim não me apetece estar a acordar. “Mais um dia sem tocar.” Fico um bocadinho deprimido, suponho que muita gente tenha passado por isto. 

Além das letras que escreveu e da música que compôs, aproveitou o tempo livre obrigatório para começar a fazer alguma coisa nova, ou nem por isso?
Estive a compor e a ler imenso. Estive a fazer muitas entrevistas para Espanha por causa do disco de Alma Nuestra que saiu aqui — que neste momento estou em Espanha — e estudei muito piano, como fui obrigado a estar sozinho tinha de tocar sozinho [risos]. Foi bom porque eu nunca estudo muito, e assim aprendi bem todas as canções que compus. Fiz também um projeto a que chamei no YouTube “Una Región de Canciones”, em que interpretei uma canção de cada uma das 17 regiões de Espanha. Cada semana fazia tipo seis, num live do Instagram. Estes lives que foram uma falsa tentativa minha de estar no palco. Mas depois ia cantar e fazia o live e era só frustrante. Era tipo uma cerveja sem álcool. 

Não consegue substituir um concerto a sério.
Parecia que havia uma adrenalina de palco, e é nisso que sou viciado, mas depois punhas rec, ficavas live e lá se ia aquilo tudo. Esquece. E o pior de tudo é quando acaba o concerto, não há nada mais frustrante. O concerto, salvo seja, quando acaba o live. Há um vazio enorme que se apodera de ti, mas pronto, eu fazia como um drogado à procura daquele estímulo e continuava a fazer. 

Quando falámos no ano passado, ainda na sequência da Eurovisão e do lançamento do seu disco “Paris, Lisboa”, dizia que era necessário fazer um processo de conversão do público. Ou seja, aquele público português que o conhecia pela “Amar pelos Dois” e que precisava de converter a toda a sua restante música para que passassem a conhecer e a gostar. Essa missão foi cumprida?
Houve uma filtragem do público. Mas não sei até que ponto foi por mérito meu, não sei se eu os converti ou se simplesmente foram tocados pela música e decidiram ficar, mas não sei se tive um papel de profeta nisso [risos]. Acho que as pessoas que não gostam de jazz e de música improvisada continuaram a não gostar. Agora, aquelas que já tinham essa apetência, ficaram. Mas houve uma filtragem, naquele dia da Eurovisão todo o País era o meu público. A partir daí houve uma filtragem orgânica, natural, e ainda bem.

Por falar em Eurovisão, teve de recuperar essa experiência na participação que fez em “Festival Eurovisão da Canção: A História dos Fire Saga”, que estreou na Netflix a 26 de junho. Suponho que já tenha visto o filme, o que é que achou?
Claro que fui logo ver o filme quando saiu. Mas não é o meu filme, não é um filme que eu iria ver. Não é um filme com muita profundidade, acho que estamos de acordo [risos]. Mas, pronto, os gajos convidaram-me para fazer aquilo, eu convenci-me a mim mesmo que não me estava a comprometer artisticamente se lá fosse tocar piano e cantar, que é o que faço, e fui lá fazer aquilo. E eu já sabia, tinha lido o guião, sabia que não ia ser um Wim Wenders nem um Ingmar Bergman. Sabia que ia ser uma daquelas comédias… quer dizer, nem sei se pode chegar a ser uma daquelas de domingo à tarde, não sei… Acho que eles tentaram agradar aos euro fãs, que são um público muito difícil de agradar, uns gajos muito particulares, e depois queriam parodiar a Eurovisão para os americanos. E acho que não conseguiram agradar a ninguém: nem aos americanos que não perceberam aquilo, nem aos euro fãs, que acharam um ultraje.

Ficou num meio-termo.
Exato, que não foi bom. Mas do meu lado foi bom. Os gajos pagaram-me muito bem, eu fui à Escócia e nunca tinha ido. Conheci os gajos, eles eram simpáticos, o Will Ferrell estava lá com a mãe. E a Rachel McAdams também, muito fixe, muito querida. Ela disse-me que tinha filmado com o Wim Wenders, eu não sabia… Eu perguntei-lhe como é que tinha sido filmar com o Woody Allen. E ela contou-me a experiência dela e depois disse-me que também tinha filmado com o Wim Wenders. E por acaso nunca vi o filme, disse que ia procurar mas depois nunca procurei. Mas a verdade é que foram simpáticos, disseram que adoravam a “Amar pelos Dois”. Porque a malta diz “I love your song”, como se eu só tivesse uma [risos]. E eu: “thank you, thank you”. Estava um frio do caraças.

Acabou por estar lá quantos dias?
Estive lá três dias. Depois afinal tinha que haver outra cena, quando cheguei lá, mas obviamente não estava no contrato que a gente tinha feito, os gajos de repente puseram-me noutra cena, num diálogo com o Will Ferrell, mas eu não quis fazer essa cena. Não sei se falámos sobre isso em 2019, mas um dia eu gostava de ser ator, gostava de explorar essa minha veia, gostava de saber o que é fazer teatro ou cinema. Tenho essa inquietude de ator, mas não é naqueles termos, não é assim.

Foto de Joana Linda

E essa cena extra que não chegou a fazer era apenas um diálogo, não ia cantar como na outra?
Não, pois, era só uma troca de galhardetes. Iam ser umas duas frases, mas eu não queria, não era isso que eu ia lá fazer. Enfim [risos].

Em 2019 não falámos sobre o facto de querer ser ator, mas disse que gostaria de um dia escrever um livro. Mais do que um músico, sente-se um artista com mais ambições, que quer explorar várias coisas que não tenham necessariamente a ver com a música?
Sim, quero muito explorar coisas, mas escrever um livro… É engraçado que eu tenha dito isso, porque é tão difícil. Eu escrevo crónicas para o Gerador e já escrevi para outros sítios, e gosto, mas um livro é muito grande, é difícil. E depois o meu problema é que leio os grandes, estás a ver? É como na música. Eu leio o Valter Hugo Mãe, como é que vou escrever alguma coisa assim? É impossível. Eu acabo de ler um livro do Valter Hugo Mãe e fico a olhar para o ar durante 20 minutos a pensar “O que é isto que acabei de ler? Como é que isto está na cabeça dele?” E são muitos, que já li todos os dele, e são todos obras de arte. Gostava de um dia escrever um livro, mas não me sinto nada — mesmo nada — preparado. 

Também leu Valter Hugo Mãe na quarentena, ou foram outras coisas?
Eu leio sempre Valter Hugo Mãe [risos]. Li “O Filho de Mil Homens” — eu tinha-lhe perguntado qual era o livro dele preferido, que é este, e eu curiosamente ainda não tinha lido —, e li outro, “O Remorso de Baltazar Serapião”. É sempre sinistro, mas é muito bonito para o sinistro que é. Consegui também acabar o “Anna Karenina”, do Tolstói, finalmente, na quarentena dava. E depois tentei ler o James Joyce, o “Ulisses”, mas depois estava há 150 páginas sem perceber absolutamente nada. Que é uma coisa muito frustrante. E eu sou um gajo resistente, “vou tentar, vou tentar”, mas depois de 150 páginas sem perceber uma única coisa parei. Não estava a resultar. Li o Tordo depois, e agora estou a ler “A Espuma dos Dias”, do Boris Vian. E foi isso.

Já foi bastante. Sente que a literatura também influencia o seu processo de escrita nas canções?
Talvez, mas não conscientemente, não diretamente. Não escrevo uma coisa e digo “isto saquei daqui”, mas é verdade que quando comecei a ler mais comecei a ter mais ideias para letras. Tem a ver com a riqueza do vocabulário e ideias que surgem dos livros para escrever sobre personagens. 

E neste disco, como construiu todas aquelas personagens, também tem assim um lado literário.
Ya, esse lado de romance [risos]. Eu só leio romances, sabes? Nunca li outra coisa. Tento ler, mas não fico preso. Os músicos às vezes leem aquelas biografias. Mas nunca fico preso. Eu adoro romances, adoro aqueles romances super viscerais. Do Saramago ou do Gonçalo M. Tavares. Aquelas coisas sujas, selvagens. Adoro isso.

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