Música

Manel Cruz: “Fugia de tocar ao vivo porque nem sempre era uma diversão”

O músico português tem uma “Vida Nova”, no mesmo ano em que os Ornatos Violeta regressam para fazer três concertos.
O novo disco tem 12 canções.

Estamos nas Olaias, em Lisboa, e o portuense Manel Cruz está agarrado ao telemóvel. De repente grita de alegria: “Foi no último minuto.” Ainda pensamos se o Futebol Clube do Porto não estará a jogar àquela hora mas, na verdade, o músico acaba de ganhar um leilão online por um sample pad — uma ferramenta que há-de usar nos concertos, explica.

Atuações são o que não deverão faltar na agenda de Manel Cruz para os próximos meses. A 5 de abril, lançou o seu novo álbum, “Vida Nova”, o primeiro disco em nome próprio. Tem 12 canções.

Manel Cruz ficou conhecido no final do milénio passado, quando os Ornatos Violeta se tornaram famosos e consagrados. A banda terminou em 2002 mas nunca perdeu o estatuto de culto. Temas como “Ouvi Dizer”, “Chaga” ou “Capitão Romance”, entre outros, permaneceram no imaginário da cultura portuguesa. Continuaram a passar nas rádios ou a serem interpretados em concursos de talentos na televisão.

Depois de o grupo acabar, o vocalista fez uma série de projetos — formou os Pluto, Foge Foge Bandido ou SuperNada, com os quais lançou discos. Em 2012, o ano em que foi editado o seu último projeto, precisamente o de SuperNada, foi também quando os Ornatos Violeta se reuniram para alguns concertos especiais.

Nos últimos anos, Manel Cruz tem estado a preparar este trabalho — e 2019 promete ser um grande ano. Além da “Vida Nova”, Manel Cruz volta a reunir os Ornatos Violeta para três espetáculos especiais de celebração dos 20 anos do disco icónico “O Monstro Precisa de Amigos”. Vão acontecer no NOS Alive, em Algés; no MEO Marés Vivas, em Vila Nova de Gaia; e no Festival F, em Faro.

A NiT falou com Manel Cruz a propósito do novo trabalho.

No início de abril apresentou esta “Vida Nova”. É o primeiro álbum em que assume o seu nome, Manel Cruz, e não inventou um título diferente para um projeto. Porquê? Foi uma decisão ou acabou por acontecer?
Acabou por fazer sentido. A questão de eu dar nomes é porque cada projeto era um conceito, quase como se fosse um evento.

E agora não?
Tenho estado a contemplar os concertos de uma maneira mais independente — assumindo isso como uma outra coisa e não como uma extensão de cada projeto. Vejo-o agora como um espaço no palco onde posso mostrar música. E aprendi também a gostar de estar ali, não tinha músicas novas para tocar mas precisava de tocar e aprendi a divertir-me para também ter o retorno financeiro ao pegar em músicas antigas e dar-lhes uma roupagem nova. Tudo isso contribuiu para a mesma coisa: eu a tocar. Fosse o que fosse, novo ou velho. Desta vez tudo contribuiu para construir um espaço musical onde posso tocar músicas deste projeto e de outros. É um bocado assumir isso.

E sente mais responsabilidade ou peso por agora ter o seu nome?
Não, de maneira nenhuma. Isto é o que é: eu a tocar coisas com os meus amigos, os meus colegas. A responsabilidade é a mesma: fazer o melhor possível e que sei e divertir-me. Essa é a razão pela qual muitas vezes fugi de tocar ao vivo, porque nem sempre era uma diversão. Às vezes roubava-me o tempo que tinha para estar a criar no estúdio, onde eu gostava mais de estar. Ao vivo, por ser tão absorvente, tira-te um bocado essa energia que tens para criar. E naquele momento estava só a reproduzir. Agora estou a tentar encarar de outra maneira os concertos, como um sítio onde vais criar também, mas em termos performativos. Tenho muito mais gozo agora, porque é mais simples do que era.

Há alguma coisa que faça sempre antes de tocar, de subir ao palco?
Sim, é estar o mais próximo possível dos amigos com quem vou tocar. Quanto mais cúmplices estivermos, mais comunicação vai haver ali em cima. Não é que façamos algum ritual, mas há um momento em que sabemos que temos de estar ligados.

Continua a sentir nervosismo antes das atuações, mesmo depois de todos estes anos de carreira?
Sim, sinto sempre. Esse nervosismo é uma coisa estranha, porque é mais um de tantos. Já me enganei tantas vezes, já sei que neste também me vou enganar, faz parte e depois corre melhor ainda. Teoricamente tens todas as razões para não estares nervoso, mas estás [risos]. Mas já não entro em pânico.

Antigamente sentia mesmo esse pânico?
Sim, ficava afónico, coisas assim [risos]. É como antes de um concerto um guitarrista ficar com os dedos mirradinhos.

Já são muitos marcos ao longo destes anos de carreira. Pensa muito naquilo que vai fazer ou deixa-se levar pelas coisas?
É possível escolher as duas? Na verdade também não sei muito bem [risos]. Eu penso muito, não sei se mais do que as outras pessoas, mas estou sempre a pensar. Ao mesmo tempo estou sempre a querer que as coisas vão acontecendo. E a construção de uma ideia criativa é como uma conversa: não sabes se vai durar uma hora ou cinco. E às vezes perdes a noção do tempo. Quando vais fazer um disco, podes tentar perceber quanto tempo vais demorar a fazer aquilo, mas na verdade nunca sabes. Há alturas em que vou para o estúdio e saem músicas que parece que nem sou eu que fiz. E noutras estou ali todo o dia e aquela porcaria não sai. É imprevisível. E às vezes tens de fazer diretas para não estar a fazer tudo no fim. Quando a vida criativa se mistura com a parte profissional, tem este lado. Por isso é que acho que faz todo o sentido que seja um hobbie.

Já disse que durante os últimos anos sofreu de uma certa “depressão criativa”. Nesses momentos, o que é que fez para estimular essa criatividade?
Acho que tem mais a ver com as sementes que vais pondo que são quase como provocações. É como teres um canteiro todo bonito e começares a pôr lá ervas daninhas, para aquilo não ser… coentros, só [risos]. E as sementes muitas vezes são fugir daquilo, fazer outras coisas, inventares desafios porque a inquietação é muito importante. Uma coisa que acontece muitas vezes numa banda é que estás a fazer músicas, depois queres que tenham palco e retorno e que sejam conhecidas pelas pessoas e essa cena toda. Para, dessa forma, continuares a fazer músicas como forma de vida. Depois as músicas são conhecidas e ficas um ano ou dois a tocá-las e não fizeste nada de novo. Isso pode ser fixe, pode haver quem goste, mas se fores um gajo cujo ofício é ser criativo isso pode ser muito frustrante.

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