Música

MAD: a iniciativa solidária para ajudar os DJ que ficaram sem trabalho

É um projeto liderado por Deejay Kamala, que acusa o governo de ignorar o setor e diz que são necessárias medidas.
Kamala é DJ e empresário do setor.

As lojas de rua reabriram, os restaurantes e os cabeleireiros também. Seguem-se os cinemas, as salas de espetáculo ou os centros comerciais — já a partir da próxima segunda-feira, 1 de junho, com a terceira fase de desconfinamento, embora com várias restrições e normas de segurança.

Contudo, os bares, discotecas e clubes de música, que são o local de trabalho para centenas (ou milhares) de pessoas que vivem como DJ, vão permanecer encerrados por tempo indeterminado — ainda não existe qualquer tipo de data prevista. Além disso, são espaços em que, pela sua natureza, poderá ser difícil cumprir normas de segurança como o distanciamento social. E será que o público vai aderir em massa quando chegar a altura da reabertura?

É este o cenário crítico e problemático de antever que os DJ enfrentam depois de mais de dois meses sem trabalhar (pelo menos nesta área). Por isso mesmo, João Fernandes, mais conhecido como Deejay Kamala, organizou uma iniciativa solidária chamada MAD, sigla para Make a Difference.

O DJ e empresário português cedeu uma das suas discotecas, o Radio Hotel, em Lisboa, para serem cenário de uma série de DJ sets em live stream, já a partir desta quinta-feira, 28 de maio, entre as 19 e as 20 horas.

O evento já tem oito edições marcadas e vai acontecer todas as terças e quintas-feiras, até pelo menos 23 de junho. As sessões terão um DJ diferente a passar música — todos eles residentes de espaços noturnos em Lisboa. O primeiro, que pode ouvir esta quinta-feira, é Ruuben K.

A organização vai dar 100€ a cada DJ por set, mas a ideia é que o público contribua com donativos ao longo da hora que dura a emissão, através do MB Way (cujos dados estarão disponíveis em cada live). Vai poder acompanhar os diretos nas contas de Instagram dos DJ e da marca patrocinadora Jägermeister Portugal

“Nós já há algum tempo que estávamos a tentar arranjar uma forma de ajudar as pessoas do nosso setor. Começámos a apercebermo-nos de que havia várias pessoas ligadas aos bares e discotecas, dentro da parte da música, que estavam a passar um mau bocado. E tentámos mexer-nos, tentar falar com marcas que nos apoiassem, para nós podermos ajudar alguns destes casos”, explica Deejay Kamala à NiT.

“O nosso foco foram os DJ residentes, porque são profissionais da área que dependem dos bares e discotecas para viver, basicamente. Neste momento não têm meio de subsistência. E esperamos conseguir sensibilizar as pessoas para estes heróis invisíveis porque muitas vezes, quando as pessoas vão às discotecas, dão-nos como garantidos. Muitos destes DJ ofereceram o seu trabalho durante o confinamento, com sets, streamings ou playlists para fazer com que o período de confinamento fosse menos duro para as pessoas e chegou a altura de ajudarmos nós também. Há muitos destes casos que não têm como alimentar uma família, pagar rendas, e este é um pequeno gesto para tentar dar um bocadinho de tempo de antena e ajudar financeiramente.”

As festas ilegais, a situação desastrosa e um setor “ignorado” pelo governo

João Fernandes diz que só há pouco tempo é que o primeiro-ministro, António Costa, abordou a situação dos bares e discotecas. “Parece que é um bocadinho o elefante na sala, de que ninguém quer falar, mas é um setor que está completamente congelado. Estamos a falar de mais de 140 mil empregos diretos, fora os indiretos. São muitas famílias que estão completamente paradas, isto para não falar dos empresários que têm investimentos brutais. Continuam a ter rendas, ordenados, custos sérios para pagar ao fim do mês e não há o mínimo de retorno.”

Os empresários e trabalhadores do setor fizeram chegar ao governo, através da AHRESP, um documento de potenciais medidas de segurança, a implementar quando acontecer a reabertura.

“Foram apresentados um sem número de medidas, de forma a que o governo tivesse confiança que este setor pudesse voltar a trabalhar e, mais importante, que as próprias pessoas tivessem confiança de que podem voltar a sair e que podem voltar a estar em festas. Compreendo que numa altura inicial sejam privilegiados espaços abertos, se calhar com menos restrições. Mas o que não faz muito sentido é a discrepância de poderes meter 400 pessoas num avião, quando estás rodeado de pessoas num espaço confinado e não tens espaço de segurança, mas os bares e discotecas é que convém que estejam fechados porque esses ajuntamentos são perigosos. Não faz sentido.”

Deejay Kamala salienta que não são apenas os DJ que estão a ser afetados. Os porteiros, seguranças, bartenders, copeiros, técnicos de som e luz, entre outras funções, estão todos sem trabalhar há mais de dois meses. “As medidas estão lá, foram apresentadas ao governo. Até agora não tivemos nenhum feedback.”

O DJ e empresário, responsável pelos clubes Radio Hotel, Bosq e Rive Rouge, aponta ainda outro problema: as festas ilegais. “Há dezenas e dezenas de eventos privados, de pessoas que alugam casas, juntam 50 ou 100 pessoas, fazem uma festa, bebidas, ganham os seus cobres e está feito. São ilegais e têm zero cuidado. É compreensível que apareçam, porque as pessoas não vão ficar fechadas, muito menos com o calor. Vão procurar convívios. E é por isso que não faz muito sentido que o governo continue a ignorar este setor, quando os profissionais podem estar preparados para voltarmos a ter eventos com medidas de segurança, de higiene, legisladas e para garantir o bem-estar das pessoas. Neste tipo de eventos qualquer pessoa que alugue uma casa e meta lá 50 pessoas dentro, está a correr riscos brutais de aumentar o surto e o nosso contágio, mas na realidade hoje em dia é quase inevitável porque as pessoas vão continuar a fazê-lo.”

Por isso mesmo, Kamala pede também apoios específicos aos empresários do setor, e explica que os profissionais vão conseguir implementar as medidas, ao contrário do que acontece nos eventos organizados ilegalmente.

“Dizes: este setor não pode trabalhar. E, a seguir, pessoas completamente aleatórias fazem exatamente o que esse setor faz, mas de forma ilegal. E a seguir o governo, para o qual pagamos impostos, não tem medidas que apoiem estes empresários. É a ruína do setor.  Imagina que há uma medida de segurança que diz que as pessoas têm de usar máscara. Nós temos a capacidade, através dos seguranças, para sensibilizar as pessoas. E as pessoas que não estiverem de acordo podem ser convidadas a sair ou voltar a pôr a máscara. Todas estas estruturas têm mecanismos para fazer cumprir aquilo que sejam as medidas que o governo venha a impor. Numa festa ilegal isso não acontece.”

As possíveis medidas de segurança

Todas as medidas propostas são ainda apenas possibilidades, dado que o governo ainda não se pronunciou sobre elas. Algumas das que foram propostas pelo setor através da AHRESP foram a desinfeção total e regular dos espaços, o uso de máscaras e viseira para os elementos do staff, a lotação reduzida, o álcool-gel espalhado pelos clubes ou a medição de temperatura à entrada.

“Compreendo perfeitamente que bares e discotecas não possam laborar na sua normalidade de início. Mas levanta aqui outra questão. O governo quando assumir as medidas que acha seguras para que os bares e discotecas trabalhem, convém que sejam viáveis, que a rentabilidade e viabilidade financeira destes negócios não seja posta em causa. Imagina que dizes a uma discoteca que leva mil pessoas para, a partir de agora, só ter 150 ou 200. Estamos a falar de uns 80 por cento de quebra de faturação direta, e os custos não caem em 80 por cento, mantêm-se. Ou dizer que podem abrir mas as pessoas têm de manter um distanciamento de dois metros. Então os bares que levem 30 ou 40 pessoas não vão poder abrir”, diz João Fernandes.

E acrescenta sobre a incerteza total neste momento: “É importante que essas medidas venham cá para fora, mas é importante que sejam realistas e exequíveis. Por outro lado, que o governo tenha a capacidade de, da mesma forma que pensa nestas medidas para voltar a ativar o setor, pense em apoios para as pessoas que não conseguirem laborar com estas medidas. Porque se não o setor vai colapsar, não há volta a dar. Todo o setor está com dívidas acumuladas, trabalhadores numa situação periclitante e danosa. Ao dia de hoje, ninguém sabe se os bares e discotecas vão poder voltar a laborar daqui a 15 dias ou daqui a seis meses. Ninguém sabe.”

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