Música

KondZilla: o império do funk brasileiro vai chegar a Portugal em 2021

Conheça a história de Konrad Dantas, o homem que criou um dos maiores canais de YouTube do mundo.
Konrad Dantas é o homem por trás de KondZilla.

A vida de Konrad Dantas dava um filme. Cresceu numa comunidade humilde no estado de São Paulo, no Brasil, apaixonou-se pela música e, quando a mãe morreu — ele tinha apenas 18 anos nessa altura —, usou o dinheiro do seu seguro de vida para pagar os estudos na área do audiovisual.

Hoje, com 31 anos, Konrad — que usa o nome artístico KondZilla — é um produtor de sucesso, o responsável pelo maior canal de música do mundo no YouTube, com quase 60 milhões de subscritores. Na lista geral de canais está em nono. É lá que há vários anos as grandes estrelas do funk brasileiro estreiam os seus videoclips — e KondZilla é o responsável por mais de mil telediscos. Quase todos os dias há novidades para ver e ouvir.

Os singles de sucesso fizeram crescer a plataforma, por sua vez a plataforma fez crescer os artistas. O resultado final foi a própria explosão da vaga mais recente do funk brasileiro — depois de décadas como estilo underground e pouco reputado por ser considerado marginal e por estar associado às favelas, tornou-se reconhecido. Atravessou também o oceano e nos últimos anos o funk brasileiro tem conquistado o seu lugar na pop em Portugal.

Konrad Dantas já foi nomeado para um Grammy e foi distinguido pela revista “Forbes” como um dos 30 jovens mais influentes abaixo dos 30 anos. É seguido por quase duas milhões de pessoas no Instagram. A KondZilla é atualmente uma editora de música e uma produtora audiovisual. Tanto coordenam a carreira de dezenas de artistas como fazem produções de ficção — entre as quais “Sintonia”, a série brasileira mais vista do ano passado, um original da Netflix, cuja segunda temporada está agora a ser preparada.

Em 2019 arrancaram também com o KondZilla Festival, que foi um enorme sucesso, e agora anunciam a expansão para Portugal. Em 2021 vai haver uma edição do evento em Lisboa, que poderá ter vários dias (algo que ainda está a ser definido) e artistas internacionais. MC Kevinho e David Carreira são os músicos já confirmados no cartaz.

Até lá, leia a entrevista da NiT com o homem que personifica a KondZilla.

Como é que começou por se interessar pela música?
Foi aos meus 11 anos, quando comecei a escrever algumas canções. No início eu tentava fazer músicas de rap por cima de instrumentais, mas passado algum tempo fui tentando produzir algumas canções. Só que não sabia tocar nenhum instrumento, não sabia fazer acordes, eu era mais um apertador de botões do que um produtor musical. Quando fiz 18 anos perdi a minha mãe — morreu de um aneurisma cerebral — e ela deixou-me um seguro de vida. Peguei nesse dinheiro e fui estudar cinema e computação gráfica e comecei a produzir vídeos para música. Achava que ia ganhar a minha vida com a música, mas a cantar… depois passei para a produção musical e acabei por virar realizador de videoclips. Hoje temos uma editora com 98 artistas.

Quando é que se apercebeu de que não era exatamente a música que queria fazer, mas sim as áreas à volta da música?
Acho que só percebi isso nestes dias [risos]. Porque no início fui migrando até dar certo. Hoje vejo que todo este percurso de querer escrever música, querer produzir música, nada mais foi do que eu a experimentar tudo e acabar por trabalhar como uma espécie de executivo no mundo da música. Deu-me a bagagem para montarmos a nossa editora.

Mas durante a adolescência o objetivo era mesmo fazer música.
Sim, sempre fui apaixonado por música, e tentei vários caminhos para viver dela. O primeiro que deu certo foi produzir vídeos.

Nunca quis fazer outra coisa além da música?
Trabalhei também como realizador de vídeos publicitários e também como diretor criativo de uma marca de vodka no Brasil. Mas foi sempre tudo virado para a área da comunicação e da música.

kondzilla
O festival ainda não tem um local confirmado.

O seu percurso, como é natural, tem sido ascendente, com vários passos importantes pelo caminho. Qual foi o momento de viragem, quando acha que conquistou realmente o sucesso? Foi pouco depois de lançar o canal no YouTube?
Não, é engraçado porque as pessoas acham que o canal começou logo a correr bem. Eu montei o canal em 2012, tentei chamá-lo de youtube.com/kondzilla, e uma semana antes de eu registar esse canal uma pessoa já tinha registado com o mesmo nome. Então criei o Canal KondZilla. Cerca de um ano depois os vídeos que lá estavam não tinham visualizações, porque eu nunca tinha promovido, nunca tinha divulgado aquilo. Mas o canal já tinha uns 260 ou 280 mil subscritores. Nessa altura comecei a trabalhar a sério nele. Um tempo depois as coisas começaram a dar certo para o canal.

O canal foi o grande impulsionador de tudo o resto?
É o nosso maior ativo, está tudo muito baseado nos números do nosso canal, que são números de expressão global. Temos hoje 60 mil milhões de visualizações, e estamos quase a chegar aos 60 milhões de subscritores. Se não me falha a memória, Portugal tem dez milhões de habitantes. É seis vezes a população de Portugal.

Há dez anos imaginava que isto seria possível?
Não, nem no ano passado imaginava [risos]. As coisas vão acontecendo, vamo-nos reinventando, vamos descobrindo, encontrando oportunidades de expandir a companhia. E à medida que vamos conquistando espaços estamos sempre à procura de mais. 

Sente que essa mentalidade que está a descrever, de desenvolver os muitos projetos desta forma — todos sob a alçada daquilo que já é uma marca, a KondZilla — foi uma coisa que sempre esteve presente?
Sempre gostei, mas não sabia fazer. Mas sempre tive muita coragem de experimentar fazer coisas que não sabia. Lembro-me que um dos primeiros trabalhos que fiz em audiovisual foi dirigir o DVD de uma banda de rock brasileira muito famosa, os Charlie Brown Jr.. Eu fui convidado para dirigir o DVD e eu nunca tinha sequer assistido a um DVD. E era uma banda muito grande. Acho que uma das nossas características é experimentar e fazer sem medo de errar. Ao longo do caminho vamos descobrindo.

Ao longo dos anos fez mais de mil videoclips. Qual foi o primeiro a ter mais impacto?
O primeiro que bombou foi um videoclip de um cantor chamado MC Boy do Charmes, ele fez uma canção chamada “Megane” e esse vídeo bateu um milhão de visualizações em 28 dias. Talvez tenha sido sorte de principiante, talvez eu não seja bom, pensei. Vou experimentar fazer mais coisas. E o terceiro vídeo de funk que fiz, que foi o segundo que bombou, foi de um cantor chamado MC Guime, o vídeo do “Tá Patrão”. Esse vídeo bateu um milhão de visualizações em duas semanas. E era muita coisa para aquela época. Hoje a gente consegue um milhão de visualizações em algumas horas. Na altura pensei que tinha algum talento para isto, e decidi investir a minha carreira em audiovisual para a música.

Como é que se deu a ligação com os artistas?
As amizades vamos construindo ao longo do caminho. Os artistas que mais estavam a bombar na altura eram de São Paulo e eu sou de uma região do litoral do estado de São Paulo. Tinha que subir a serra, deslocar-me 100 quilómetros para chegar aonde estavam os artistas. E fui conhecendo, criando amizades, que foram crescendo em conjunto com as parcerias profissionais.

Outro grande projeto que fez foi “Sintonia”, série da Netflix que estreou no ano passado. Foi o Konrad que os procurou para fazer a produção?
O projeto da Netflix é uma grande alegria por o termos realizado, foi algo que cresceu bastante, foi a série brasileira mais vista de 2019. Desde a minha adolescência que sempre quis contar aquelas histórias. Se eu tivesse a oportunidade de um dia trabalhar em audiovisual, queria contar a história daquele e do outro. É baseado em vivências reais mas também tem ficção, misturamos as coisas. E aí eu procurei a produtora da Alice Braga e eles já estavam a fechar o acordo de uma outra série que estavam a produzir para a Netflix. E isso foi meio caminho andado para conseguirmos fazê-la. E agora estamos a fazer a segunda temporada, que estamos a fazer com muito amor e carinho, e temos a certeza de que o público da favela se vai sentir representado.

Isso é algo importante para si, ter esse reconhecimento do público da favela?
A ideia da “Sintonia” era mesmo um rapaz da favela contar uma história para o público da favela — e não alguém que fez um grande curso de cinema ou que nasceu rico —, tentando ilustrar e mostrar como funciona o dia a dia de uma favela. 

Deseja fazer mais séries? É algo em que quer investir mais?
Sim, aquilo que nos estamos a tornar mais é numa produtora de conteúdos de ficção, ou de televisão. 

Outro passo futuro é a chegada a Portugal com o KondZilla Festival. Porquê Portugal?
É o nosso segundo maior território, temos Portugal a consumir os nossos conteúdos em todas as plataformas, e portanto é muito fixe estarmos cá. Depois de fazermos a canção do MC Kevinho com o David Carreira, deu super certo, é uma das músicas mais ouvidas de Portugal, firmámos este acordo de fazermos um festival juntos.

Para quem não conhece o KondZilla Festival, como é que o descreveria?
Eu vou usar um termo usado pela crítica brasileira, quando fizemos o nosso primeiro festival em novembro no Brasil: eles disseram que era o Lollapalooza do funk. Queremos entregar um grande festival, com muita alegria e diversão, toda a gente a gostar e a celebrar connosco.

Em que altura do ano é que vai ser?
Assim que todos os protocolos estiverem fechados e o sítio em que estamos a imaginar fazer tenha datas disponíveis… mas queremos fazer o quanto antes, o mais rápido possível, mas sempre no próximo ano.

Qual é que diria que é o seu segredo?
O segredo é insistir até conseguir. Ter a habilidade, a velocidade e a sensibilidade para trocar a estrada ou o caminho para chegar ao mesmo objetivo. Queremos chegar a um objetivo, de repente há um obstáculo que não conseguimos ultrapassar, então inventamos outro caminho. Acho que esse é o segredo da KondZilla.

Há algum grande sonho ainda por cumprir?
Tenho alguns, cada semana surge um novo [risos]. Acho que ainda há muito espaço para automatizar todos os processos, com tecnologia. Acho que o grande futuro vai ser usar a tecnologia para criar arte. E também projetos que peguem em jovens talentos de comunidades mais humildes e que os possamos desenvolver como artistas a 360 graus — não só como músicos nem como influencers. Acho que há um caminho longo para atuar em todas essas áreas, não só na música, a música tem de ser mais uma das atividades.

O futuro é expandir a marca para outros países?
O futuro é expandir para outros planetas [risos], espero que o consigamos fazer.

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